quinta-feira, 8 de abril de 2010

Antônio Risério diz: Um Poema é um poema é um poema?

Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa, são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos culturalmente irrelevantes.

Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil. É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente, Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque, entre muitos outros.

De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra, então? A poesia tipográfica, é claro.

Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos em promoção.


Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se pensou como único e eterno.

Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular, que parecia superado a partir da década de 70, não merece maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro, atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino, a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe, capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo, distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum. Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.

Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre" impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos eterno.

Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito, o cânone é obviamente histórico. Não existia em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.


Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.

Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir das últimas décadas do século 19, como evitar que o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20 para o 21?


Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender a sua baia escritural, frente à proliferação de signos e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender que a materialização do poético somente seja viável por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los. É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem às novas tecnologias de inscrição sígnica. E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos, antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição planetária.

E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam? Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam à sua frente. Nelson Ascher é um crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre, claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.

Na verdade, Tolentino é um subfilhote do eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura. Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino é um oportunista patológico, e Tolentino traz a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.

Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem a escrita tradicional. E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta. A poesia não nasceu em função do suporte de celulose, mas como palavra-evento — ou, Homero na ponta da língua, palavra alada.

Um comentário:

alvarez disse...

Prezado Antônio Risério,

Longe de querer participar de polêmica a respeito de poesia e ou poema, pois não temos embasamento teórico para tanto. Tão somente gostaria de manifestar a minha concordância com inúmeros pontos do seu artigo. E, por outro lado, fazer um convite, em nome dos poetas visuais (do Brasil e exterior), que fizesse uma visita a:
www.poemavisual.com.br
e a outros endereços nos quais divulgamos essa forma de experimentalismo.
Não temos grupos, nem nos consideramos os pais do Poema Visual. Apenas nos manifestamos sem, contudo, nos considerarmos "os papas" da manifestação.
Hugo Pontes

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