sexta-feira, 19 de março de 2010

MÚSICA COMO SISTEMA MODELIZANTE [Nélio Tanios Porto]

Música é uma arte que se serve de um sistema de signos sonoros que se combinam e se transformam em linguagem. Contudo, não é por se reportar à língua natural que a música pode ser entendida como sistema modelizante. Afinal, além da diferença entre os códigos verbal e musical, a ausência de ligações semânticas obrigatórias, como adverte Lotman, distingue a música das línguas naturais. A modelização na música deve ser entendida sobretudo pela possibilidade de descrição de um texto musical como construção sintagmática ou melhor, um processo de transformação de sons simples (tom, ruído, mescla) em signos complexos (constituídos de vários sons simultâneos). Ex: ''simultanóide'' (bloco de sons) - grupo de sons que não admitem a sobreposição de terças; acordes de qualquer tipo ou acordes mescalados com ruídos ou sons sintetizados, etc; ou signos complexos (que consistem em mais de um signo simples ou complexo formando um todo gestáltico. Ex: motivo, inciso, célula, cadência).


Em termos musicais, modelizar é perceber e apreender sistemas de signos sonoros novos e atuais (a Planimetria, técnica composicional inventada por H.J. Koellreutter, caracteriza-se por ser um sistema de signos sonoros novos - novo estruturalismo). Dentro da gama de estilos e tendências atuais, podemos citar o Estruturalismo, Elementarismo, Concretismo, Ruidismo, Minimalismo, Reducismo, Neotonalismo, tendências restaurativas como Simplicidade Nova, assim como novas tendências no estilo do jazz e de música popular em geral.

O público-ouvinte - que representa a humanidade ou uma parte dela - decodifica esse
sistema modelizante sonoro através da criação destes novos sistemas de signos concebidos e projetados para o público através de criações artísticas. O que é apreendido pelo público são as informações - idéias - contidas na obra através de um conteúdo artístico, um mecanismo de transmissão que se utiliza de um conjunto de signos. A informação de conteúdo, que é expressada por signos sonoros, transforma-se em patrimônio cultural no sentido de uma coletividade humana - sistemas de códigos sociais. O ouvinte contemporâneo de uma obra musical do período atual decifra sua semântica musical - que é o estudo do sentido e das dimensões dos signos e ocorrências musicais - utilizando outros códigos estruturais diferentes do compositor.



Para o criador, a obra pertence à uma estética pessoal, enquanto que no sistema do ouvinte, pertence a códigos musicais diferentes. Conseqüentemente, o ouvinte associa uma determinada representação a uma determinada imagem acústica, produzindo uma passagem dos símbolos artísticos do plano da expressão para o plano do conteúdo, ou seja, pode-se verdadeiramente "sentir" aquilo que o compositor quis "dizer" musicalmente. A obra de arte só poderá ser compreendida e apreendida por um ouvinte com sensibilidade artística e musical, que depende de fatores tais como a inteligência, o ambiente sócio-cultural, a língua, a tradição, cultura, educação e outros fatores. Segundo H.J. Koellreutter, "a compreensão de uma obra de arte, portanto, pode se dar de diferentes maneiras. Ouvintes com bagagem sócio-cultural diferente colocam-se de forma diversa frente a uma obra de arte, vivenciam esta de formas diferentes e a valorizam de formas diferentes" (Koellreutter 1997: 71)

Portanto, a música é um meio de comunicação que se utiliza de signos sonoros que visam transmitir idéias e pensamentos provenientes de pesquisas, descobertas ou invenções. Comunicação é transmissão de informação, de uma mensagem nova, de fatos, acontecimentos, processos, desconhecidos ou pouco conhecidos. Como exemplo, na obra "Ácronon" - para piano e orquestra - composta por H.J. Koellreutter em 1978-79, o objetivo é conscientizar o público-ouvinte a respeito do tempo qualitativo (tempo como forma de percepção), pela ausência de referenciais fixos, pela relatividade das ocorrências musicais e pela trocabilidade - em princípio - dos signos musicais, ou seja, livre do tempo do relógio, do metrônomo, do tempo medido. "Ácronon" significa ser independente. Com esta obra, Koellreutter transmitiu uma idéia nova, uma mensagem desconhecida - tais como o conceito som e silêncio, a ausência de hierarquia dentro do processo sonoro, a livre improvisação, - através de suas constantes pesquisas na área da Física Quântica e da cultura oriental, especialmente a música japonesa e a estética Zen.

Um comentário:

Nélio Tanios Porto disse...

Agradeço o texto que escrevi (por volta de 1999), e que já está no seu blog. O Conhecimento pode estar sempre compartilhado, pois devemos criar, e segundo Edgar Morin, o "conhecimento do conhecimento" sob novas estruturas do pensamento e complexidades. O futuro será diferente. Aguardemos.
Nélio T. Porto

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