quinta-feira, 2 de julho de 2009

Aspas para Christopher Walken

''Eu faço filmes que ninguém vai ver. Eu já fiz filmes que nem mesmo eu vi''. Mais do que uma sinceridade desconcertante, a declaração de Christopher Walken exprime sua perfeita compreensão acerca dos altos e baixo que uma carreira de mais de 50 anos lhe reservou. Ator intenso, difícil, freqüentemente subaproveitado em papéis de vilão que se beneficiam de seu olhar injetado e rosto encovado, Walken emergiu dos anos 1970 com seu primeiro Oscar na estante (por ''O Franco-Atirador'', de 1978) e o título de ''talento promissor'' que, aos poucos, foi se desgastando. Hoje, 25 anos depois, (como se ainda fosse necessário) Walken cumpre a jura, com sua segunda (e um tanto atrasada) chance de ganhar a estatueta da Academia. A nomeação foi emblemática. Walken, sempre vilanesco, foi reconhecido por uma atuação tocante e profunda em um filme despretensioso - ''Prenda-me se For Capaz'', de Steven Spielberg. Ele interpreta o carinhoso pai de Leonardo DiCaprio - um tanto parecido com a figura de seu próprio pai, um padeiro. Walken, porém, insiste que a maioria de suas criações não são inspiradas em pessoas que conhece. ''Tudo que interpreto, minha referência é completamente distante do planeta showbusiness. Eu não sei nada sobre ninguém, pessoas que eu conheci na minha vida - minha família, meus irmãos - eu não conheço... Só sei sobre mim'', diz.

Walken começou cedo no showbusiness. Reza a lenda que, aos 10 anos, ele conheceu o comediante Jerry Lewis como extra em seu programa ''The Colgate Comedy Hour'' e instantaneamente desejou imitar seu ídolo para o resto da vida. Aos 15 anos, com o nome artístico de Ronnie Walken, estreou em uma peça off-Broadway chamada ''J.B.''. Somente depois de sua ampla formação na Universidade Hofstra (onde tentou inicialmente se formar em dança, mas depois mudou de idéia) e de seu trabalho no musical ''Baker Street'', em 1965, é que ele mudou o pseudônimo para Christopher Walken. No ano seguinte, ganharia seu primeiro prêmio, por sua atuação em ''The Rose Tattoo'', e uma passagem garantida para a indústria cinematográfica. Em 1969, chegava às telas com ''Me and My Brother''. No mesmo ano, comemorou também seu casamento com Georgianne Walken - um matrimônio amoroso que dura até hoje.

Seguiram-se uma porção de filmes com pouca repercussão, como os dramas ''O Golpe de John Anderson'', com Sean Connery, e ''The Happiness Cage''; o horror ''The Sentinel'', com Ava Gardner; a comédia ''Next Stop, Greenwich Village'', com Jeff Goldblum; e os telefilmes ''The Three Musketeers'', ''Valley Forge'' e ''Barefoot in Athens''.


Foi somente em 1977 que Walken começou a ser notado, depois de roubar a cena como o irmão estranho e desequilibrado de Diane Keaton em ''Noivo Neurótico, Noiva Nervosa'', de Woody Allen. Confirmando a boa fase, no ano seguinte Walken obteve o papel que muitos consideram o melhor de sua vida: Nick, um traumatizado sobrevivente da guerra do Vietnã, em ''O Franco-Atirador''. Ao lado de Robert De Niro e Meryl Streep, Walken impressionou crítica e público mundo afora com seu retrato aguçado e enérgico de um homem incapaz de se recompor diante do horror que presenciou na guerra. Inesquecíveis suas cenas jogando roleta-russa.O filme lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante e uma enxurrada de propostas. Chegou a ser o segundo ator na lista dos favoritos de George Lucas para viver Han Solo em ''Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança''.

O critério de Walken para selecionar futuros papéis, no entanto, foi no mínimo impreciso. Em 1980, ao lado de Isabelle Huppert e Jeff Bridges, participou de ''O Portal do Paraíso'', faroeste megalômano do mesmo diretor de ''O Franco-Atirador'' que foi um fracasso retumbante e que eventualmente selou o destino financeiro da United Artists Productions. No mesmo ano revisitou a guerra no insosso ''Os Cães de Guerra''.Em 1981, Walken, eternamente apaixonado por dança, fez questão de interpretar o sapateador Tom em ''Pennies form Heaven'', ao lado de Steve Martin, mas o resultado foi tão apagado quanto seu projeto seguinte, ''Shoot the Sun Down''. Em 1983, porém, Walken flertaria pela primeira vez com a ficção científica, acrescentando mais figuras bizarras a sua galeria de personagens. Fez ''Projeto Brainstorm'' com Natalie Wood (foi uma das testemunhas do afogamento da atriz, em um acidente de iate) e o elogiadíssimo ''Na Hora da Zona Morta'', do diretor David Cronenberg. Neste último, no papel de um homem recém-despertado de um coma que descobre possuir poderes psíquicos, mostrou novamente porque merecia respeito como ator.

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