terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tristeza tem fim quando à felicidade se diz: Sim!, Cazzo Fontoura.

Minha cidade hoje acordou mais bonita: tricolor! Carros, fachadas, painéis de ônibus, ruas, vielas, avenidas refletiam sobre meus olhos rasos d’água a belíssima combinação de cores do Esporte Clube Bahia. Confesso que, ainda sob efeito da euforia das buzinas contentes e hinos tricolores que se manifestam por todos os cantos da cidade, chega a ser assustador, como se não me desse conta de que o Bahia está apenas de volta ao que fora seu lugar-comum tempos atrás. É que talvez quase sempre nos acostumamos com a dor, a humilhação.

Quando menino, eu colecionava figurinhas para completar álbum e ali estava a referência de uma elite do jogo de bola. De tal maneira que quando ouvia falar em times como Operário-MT, Avaí-SC e CRB era como se se abrisse um universo absolutamente fora de meu alcance, pois não estava entre eles o time do meu coração. Acontece que o mundo há algum tempo se nivela por baixo [lê-se mais Paulo Coelho do que Shakespeare] e o futebol sofre tanto desse mal que hoje há uma Série B com a mesma importância e quase a mesma equivalência da primeira divisão.

O reflexo mais bem acabado dessa constatação é que, durante esse doloroso tempo rebaixado, o Bahia e sua torcida em muito se acostumara a tão lastimável condição e com tamanha consistência que não cessam nem mesmo rumores na busca de se conquistar o título desta infame divisão do campeonato e, se conquistado, pasmem, transformá-lo em estrela no peito. Muitíssimos anos passados isso era algo impensável.

Importante é que a partir desse momento essas são águas passadas, a humilhação, contornada de uma suposta humildade, desfaz-se para o aparecimento de um super-homem além do mascote, bem perto de Nietzsche. Cheio de si o torcedor do Bahia canta e dança do jeito próprio que aqui se cultiva a fé: findo o espetáculo de três gols, antes da festa, um estádio inteiro ora o Pai-Nosso, num fervor de comover o mais convicto e raivoso ateu.

Agora, de fato, deve-se pensar no futuro, torcedores e dirigentes tem a chance de repensar planos, exterminar por completo o mau costume de viver à base de lucros a curto prazo. Pois o time que pulsa no coração de Lourinho, Maurício, Japinha, Tica, André e Marcelo, após tantos anos humilhado, retorna aos campos nas quartas-feiras e domingos e já não sofrerá a restrição de enfrentar tradicionais adversários apenas no mata-mata da Copa do Brasil.

O que outrora parecia inabalável andar curvado de quem se acostuma a dar quantas faces fosse necessário a tapas, em menos de um dia, passada uma só noite eufórica a propor, fora de época, novo circuito de carnaval, colunas eretas desfilam na cidade da Bahia, batendo forte o brilho de duas estrelas no peito – mais vale o símbolo do que o patrimônio –, numa visível e convincente auto-estima que há tempos não se vê por estas bandas.

Sim, o Bahia está de volta à sua origem, de volta ao grupo dos vinte maiores clubes de futebol deste país. Ontem, a definitiva certeza de que, embora seja fato que o sofrimento arrefece-nos o amor, nos acende firme a paixão, muito melhor é o estado de graça de sentir-se satisfeito, pois, quando se diz “sim” à felicidade, a tristeza, outrora senhora, chega ao desejado final.


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