terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ao Luar [Augusto dos Anjos]

Noite estrelada sobre o rio Rodano, Van Gogh.

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!



sábado, 4 de setembro de 2010

O que é Democracia?

Uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) indicou que, no Brasil, 59% dos entrevistados não sabem qual o significado da palavra democracia. Além disso, 4% não souberam responder. Outros 54% apoiariam um governo autoritário se isso resolvesse os problemas econômicos.

Os dados foram divulgados hoje no Encontro Internacional "Democracia, Governabilidade e os Partidos Políticos da América Latina", organizado pelo Parlamento Latino-Americano (Parlatino), em São Paulo. Os percentuais são mais elevados do que os encontrados em países como El Salvador, Colômbia e Guatemala.

O levantamento mostra que apenas 37% dos brasileiros apóiam a democracia. O percentual é o mais baixo da América Latina, até mesmo levando-se em conta o índice da Bolívia, onde existe um quadro de guerra civil. No Brasil, 56% da população acha que o desenvolvimento econômico é mais importante que a democracia.

Apesar dos baixos percentuais de apoio, a democracia continua sendo o melhor sistema de governo para 70% dos brasileiros. Em toda América Latina os que pensam desta maneira somam 68%. Em países como Nicarágua e Costa Rica, o percentual atinge 82%.

A pesquisa revelou outros dados preocupantes, na avaliação do presidente do Parlatino, deputado federal Ney Lopes (PFL-RN). Os brasileiros se mostram divididos quando ao retorno de um regime autoritário. Somam 42% os que repelem o autoritarismo político sob qualquer forma.

A descrença da população não se limita à forma de governo. A Presidência da República (25%), o Poder Judiciário (25%), o parlamento (23%) e os partidos políticos (14%) aparecem em último lugar em ranking das instituições mais confiáveis na América Latina. Puxando a fila estão: Igreja Católica (71%), a televisão (45%), as Forças Armadas (38%), os bancos (36%), a polícia (33%), as empresas privadas (32%) e os municípios (32%). O Brasil se destaca entre os países que mais confiança têm nas Forças Armadas (61%), à frente da Colômbia (57%) e Venezuela (54%).


Harold Bloom dentro dos Objetos Transcendentes

Por que ler?

Bloom – A informação está cada vez mais ao nosso alcance. Mas a sabedoria, que é o tipo mais precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrada nos grandes autores da literatura. Esse é o primeiro motivo por que devemos ler. O segundo motivo é que todo bom pensamento, como já diziam os filósofos e os psicólogos, depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural. Finalmente, e este motivo está relacionado ao anterior, eu diria que uma democracia depende de pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler.

Como ler?

Bloom – Tente ler sem considerações políticas, compromissos ideológicos ou preconceitos. Para o livro que estou escrevendo agora, por exemplo, estou relendo a Divina Comédia, de Dante Alighieri, em italiano. Há certos moralismos em Dante que me irritam. Além disso, há seu compromisso com a visão de mundo católica, e eu não confio em nenhum tipo de religião institucionalizada. Mas, ao lê-lo, procuro me manter aberto. O frescor da língua e a força das metáforas me obrigam a deixar todas as minhas opiniões de lado e me render à força daquele texto. É assim que se deve ler.

O livro Como e Por que Ler foi muito criticado na época do lançamento. Houve quem dissesse que o senhor simplificou demais a questão, outros o acusaram de posar de guardião da "alta cultura". Como responderia a seus críticos?

Bloom – A maior parte das críticas negativas é proveniente de acadêmicos anglo-americanos. Somos inimigos mortais. Há 25 anos venho denunciando esse pessoal. O ensino de literatura no mundo de língua inglesa foi para o inferno. É dominado por ideólogos, por integrantes daquilo que eu chamo de "escola do ressentimento". É gente comprometida com assuntos extraliterários, com mania de desconstruir e relativizar tudo. Eles não se importam com o valor estético. É o politicamente correto que interessa a eles. Por isso, não estou nem aí, nem leio as críticas. Se você tenta ser independente, se não adere a nenhum tipo de moda, se fala honestamente e emite opiniões próprias, se recusa ideologias, inevitavelmente será atacado. É como diz o escritor americano Ralph Waldo Emerson, um dos meus heróis: "O mundo tenta castigar os que não se conformam". Minha maneira de responder aos críticos é escrevendo outros livros.

Qual o papel da literatura num mundo dominado pelas mídias visuais?

Bloom – Há grandes autores, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Jane Austen e Charles Dickens, que conseguem sobreviver nas adaptações para as mídias visuais. Mas há outros, como Dante Alighieri, John Milton, James Joyce, Marcel Proust ou Franz Kafka, cujo futuro é completamente incerto. O grande autor português José Saramago é outro por quem eu temo. Somos amigos, escrevi um ensaio sobre o magnífico O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Ele é dos melhores romancistas que conheço, não deixa nada a dever aos grandes nomes da literatura. Mas, sinceramente, acho que num mundo dominado pela imagem livros difíceis como os dele poderão deixar de ser lidos em vinte ou trinta anos. As crianças estão crescendo cercadas por telas. A longo prazo, não sei qual pode ser o efeito disso sobre a capacidade das pessoas de ler para buscar não apenas informação, mas sabedoria e autoconhecimento.

Livros como os da série Harry Potter não são uma boa porta de entrada, um meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura?

Bloom – Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não. E um dos piores escritores da América, Stephen King (ele é terrível, não consigo ler nem dois parágrafos do que escreve), confirmou minhas suspeitas numa resenha que escreveu para o jornal The New York Times. Segundo ele, as crianças que aos 12 anos estão lendo Potter aos 16 estarão prontas para ler os seus livros. Preciso dizer mais? Os Estados Unidos são um país em que a televisão, o cinema, os videogames, os computadores e Stephen King destruíram a leitura.

Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?

Bloom – Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. Ninguém, por exemplo, "caminha" no livro. Os personagens "vão esticar as pernas", o que é obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas, de segunda mão. Escrevi uma resenha para o Wall Street Journal falando mal de Harry Potter. A polêmica foi imediata. Foram enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes. A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados – dos pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco saudável.

Em seu livro anterior, Shakespeare – A Invenção do Humano, o senhor afirma que o dramaturgo William Shakespeare "inventou o humano". Poderia explicar um pouco melhor essa idéia?

Bloom – Grande parte do que hoje consideramos uma personalidade humana foi invenção de Shakespeare. Há hábitos que desenvolvemos, como o de parar de repente e escutar a nós mesmos, que só passaram a existir depois dele. Preste atenção na literatura anterior, em forma de verso, prosa ou teatro. Você simplesmente não encontra monólogos interiores como os que vemos em Shakespeare. Aquilo que gostamos de chamar de nossas "emoções" surgiram pela primeira vez como pensamentos de Shakespeare. Nele, mais do que em qualquer outro escritor, parece que os personagens não foram inventados. É como se eles existissem desde sempre. Assistir a uma peça de Shakespeare na China, em termos de identificação do público com o que se passa no palco, não é muito diferente de assistir em Nova York ou Londres.

No século XX, tornaram-se muito comuns as leituras psicanalíticas de Shakespeare. O próprio Freud escreveu a respeito da peça Hamlet. Mas o senhor costuma fazer pouco dessas interpretações. Por quê?

Bloom – O romântico Percy Shelley costumava dizer que o demônio deve muito ao poeta John Milton, já que este o retratou de maneira magnífica no livro Paraíso Perdido. Pensaríamos no demônio de maneira diferente se não fosse Milton. Acho que o mesmo ocorre com Freud: ele deve tudo a Shakespeare. Freud é essencialmente Shakespeare em forma de prosa. Se você ler atentamente o que ele fala sobre complexo de Édipo, verá que no fundo não está falando de Édipo, mas de Hamlet. Por isso defendo uma leitura shakespeariana de Freud, e não uma leitura freudiana de Shakespeare. Não podemos negar a Freud, contudo, um lugar entre as quatro ou cinco maiores figuras intelectuais do século XX. E também entre os maiores escritores. Ele era um ótimo ensaísta. Foi o Montaigne de nossa era.

Num de seus livros mais famosos, A Angústia da Influência, de 1973, o senhor dizia que, para uma geração de autores se constituir, tinha de "matar" a anterior. Isso ainda vale para os autores contemporâneos?

Bloom – Sim. A menos, é claro, que a literatura passe por uma mudança radical, o que por enquanto acho muito difícil. Essa mania atual de cyberliteratura, cyberpoema, jogos verbais etc., tudo isso são erupções tardias do que os dadaístas e surrealistas fizeram, aliás muito melhor, 100 anos atrás. Saramago, por exemplo, parece estar sempre envolvido numa complexa competição com Eça de Queiroz e com Fernando Pessoa, os dois grandes autores portugueses que o precederam. Ainda acho que a literatura caminha por meio de um confronto direto com a produção da geração anterior. Isso não vai mudar. Arte é competição.

Crítica também?

Bloom – Acho que toda crítica equilibrada, mais do que competitiva, tem de ser pessoal e excêntrica. É o que Oscar Wilde, outro de meus heróis, costumava dizer: a crítica é a única forma civilizada de autobiografia. Não tenho pretensões de fazer crítica científica. Gostaria muito que meus livros, lidos em conjunto, fossem considerados minha autobiografia.

Em 1979, o senhor publicou The Flight to Lucifer – A Gnostic Fantasy (Vôo para Lucífer – Uma Fantasia Gnóstica), sua única tentativa de escrever ficção. Por que não voltou a ela?

Bloom – Foi um erro. Não devia ter publicado esse livro. Você o conhece? É uma ficção científica na qual o protagonista, uma espécie de Prometeu, vai em busca de seu destino num planeta chamado Lúcifer. Reli a obra numa noite dessas e vi que ela era realmente horrível, fria, sem vida. Os personagens eram todos sobrecarregados. Era pesado, não tinha nada da "vida local" que uma narrativa de verdade deve ter. E aí percebi que eu não era um contador de história, que não podia criar bons personagens. Gostaria que esse livro fosse esquecido de vez. Todo mundo tem a chance de errar uma vez. Essa foi a minha.

Temas religiosos, como a cabala e o gnosticismo, aparecem também em seus livros de ensaios. Onde termina o crítico e começa o místico?

Bloom – Cresci como judeu ortodoxo, mas continuo achando, e isso já irritou muita gente, que o judaísmo ortodoxo não é mais do que uma leitura equivocada da Bíblia hebraica, feita há 1.800 anos. Foi uma forma de adequar a religião à realidade dos judeus que viviam sob ocupação romana. Hoje não vejo por que agir da mesma forma que naquele tempo. Considero as tradições religiosas como produto de uma época – e a criação do universo como uma grande separação, o criador distanciando-se irremediavelmente de suas criaturas. Até imagino, para além do sistema solar, algo parecido com um deus de verdade. Mas ele, ou ela, certamente não pode nos ouvir. É como diz a máxima: se as preces do homem são uma doença da vontade, então seus credos são uma doença do intelecto.

O enfoque literário na leitura da Bíblia é mais interessante do que o religioso?

Bloom – Sem dúvida. O texto original do que hoje chamamos de Gênesis, Exodo e Números é trabalho de um narrador magnífico, certamente um dos maiores contadores de história do mundo ocidental. Aliás, em O Livro de J, observo que o autor desses textos foi uma mulher que viveu 3.000 anos atrás, na corte do rei Salomão, um lugar de alta cultura, ceticismo e muita sofisticação psicológica. Pense em figuras como José, Jacó e Jeová. São todos personagens maravilhosos. E os efeitos poéticos do texto são extraordinários, comparáveis a Píndaro. Os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel também eram grandes escritores, assim como os autores do Evangelho de Marcos e do Livro de Jó. A Bíblia é uma vasta antologia da literatura de toda uma cultura.

E hoje, há algo que preste nesse filão crescente de literatura religiosa e new age?

Bloom – Não. Não temos um grande místico. Haveria espaço para um, sem dúvida, e até clamo por isso em meu livro Presságios do Milênio, mas não há quem se salve. Só lixo, em qualquer língua que conheço. É preciso deixar claro que nos últimos trinta ou quarenta anos não surgiu nenhum autor religioso com alguma força ou originalidade.

Como o senhor situaria a literatura brasileira em relação à literatura mundial? Que nomes destacaria?

Bloom – Comecei a estudar português não faz muito tempo, e ainda não consegui me familiarizar direito com a língua. Não posso dizer que conheço a produção literária contemporânea do Brasil. Quanto aos autores mais antigos, como Machado de Assis, só agora começaram a aparecer boas versões de suas obras para o inglês. Foi por isso, também, que não o incluí em O Cânone Ocidental.

No fim desse livro, o senhor faz uma longa enumeração daqueles que seriam os autores mais importantes do Ocidente, em todas as épocas. Qual o sentido desse tipo de lista?

Bloom – Nenhum. Fiquei muito arrependido de incluir essa lista no livro. Ele ficaria melhor sem ela. Fiz sob protesto, por insistência do meu editor e da agente literária, que achavam que assim o livro venderia mais. Acho perniciosas todas as listas de "melhores livros". São baseadas em leituras apressadas, em premissas equivocadas e sempre acabam deixando de lado algo importante. Portanto, sou completamente contra listas. Inclusive a minha.

Revista Veja, 31/01/2001

Sobre Inglaterra e Irlanda do Norte.

Ainda que ingleses e irlandeses tenham se enfrentado desde o século XII, quando o monarca inglês Henrique II conquistou e anexou a ilha da Irlanda por um curto período de tempo, o atual conflito tem origem nos séculos XVI e XVII. Paralelamente ao seu rompimento com o Vaticano - que fundou o Anglicanismo - a dinastia Tudor lançou a Inglaterra a uma nova tentativa de conquista da Irlanda. O sucesso da empreitada submeteu os irlandeses - católicos desde sua origem - ao governo de ingleses protestantes. A partir daí, milhares de colonos ingleses estabeleceram-se na ilha - especialmente na província de Ulster, no norte do território - discriminando, perseguindo e expulsando os nativos. Nas primeiras décadas do século XX, revoltas sucessivas resultaram na divisão da ilha: os católicos conseguiram a independência da República da Irlanda (Eire) em 1921, mas alguns condados do norte, onde os protestantes eram - e ainda são - maioria, continuaram atrelados à Inglaterra.

A divisão do território irlandês não satisfez a população católica do Ulster, forçada a continuar sob domínio britânico. Os mais exaltados deste grupo nacionalista partiram para a luta armada, incluindo o terrorismo. Extremistas protestantes responderam à altura. Desde o fim dos anos 60 confinadas em bairros separados por muros e cercas de arame farpado - na capital Belfast e em outras cidades importantes -, as duas comunidades trocam tiros e bombas. Neste período, mais de 3.600 pessoas foram mortas.

Os católicos da Irlanda do Norte, também conhecidos como republicanos, desejam o mesmo que os seus vizinhos do sul conseguiram - independência do Reino Unido. Seu objetivo final é integrar os condados que permaneceram sob controle da coroa britânica ao resto da República da Irlanda, acabando com a divisão territorial da ilha. Até 1998, a própria Constituição da República da Irlanda estabelecia que era um dever do país lutar pela anexação do norte protestante. O catolicismo é visto como ponto essencial desta questão pois serviu como catalisador da identidade nacional irlandesa durante a resistência contra a ocupação e as lutas pela independência.

Ao contrário dos católicos, os protestantes, tradicionalmente chamados de unionistas por sua vontade de permanecerem unidos à Grã-Bretanha, desejam que a situação continue como está. Querem manter-se cidadãos britânicos. Mas não querem, para isso, deixar o território irlandês, onde, apesar de sua origem britânica, muitas famílias estão estabelecidas há séculos.


A organização terrorista mundialmente conhecida como IRA (Exército Republicano Irlandês, na sigla em inglês) surgiu no ano de 1969, reivindicando para si o legado do IRA original - o exército que lutou contra a Inglaterra e conquistou a independência do Eire em 1921. Ao dedicar-se a matar civis na Irlanda do Norte e na Inglaterra, com explosões ou ações armadas, o IRA deu um caráter extremista à causa dos católicos republicanos. Em 1984, num de seus atos mais ousados, o grupo explodiu um hotel na tentativa de assassinar a primeira-ministra Margaret Thatcher. Já em 1991, o primeiro-ministro John Major escapou de um morteiro atirado contra a residência oficial do chefe de governo inglês. A violência do IRA, que sempre contou com o apoio financeiro de americanos descendentes de irlandeses, fez surgir vários outros grupos paramilitares, na maioria protestantes, dispostos a vingar suas vítimas. Atualmente, o IRA abandonou a luta armada, tendo mantido-se ativo apenas por meio de seu braço político, o partido Sinn Féin, católico de orientação marxista.

O período de escalada da violência na Irlanda do Norte, que recebeu o nome de "The Troubles" (os problemas), teve início no fim dos anos 60, quando a Associação de Direitos Civis do país, organização majoritariamente católica, promoveu uma série de marchas de protesto em todo o território, reivindicando igualdade de condições políticas entre católicos e protestantes. Diversas destas marchas terminavam em quebra-quebra e confrontos entre manifestantes e a polícia, leal à coroa britânica. Uma destas marchas, na cidade de Derry, em 1972, terminou em tragédia quando soldados britânicos abriram fogo contra os civis católicos, matando 14 deles. A partir do episódio, conhecido como Domingo Sangrento, o Reino Unido suspendeu a autonomia do Ulster e fechou a Assembléia Nacional norte-irlandesa. Em resposta, o IRA iniciou uma série de ações terroristas que só terminariam em 1998. Em 1972, tendo matado já mais de 100 soldados britânicos, o grupo explodiu 22 bombas no centro de Belfast, no dia chamado por alguns de Sexta-Feira Sangrenta. Onze pessoas morreram e 130 ficaram feridas. Seguiram-se quase 30 anos de conflitos entre o IRA e grupos paramilitares protestantes. Entre os episódios famosos, destacaram-se ainda o bombardeio do Rememberance Day, em 1987; a explosão de um shopping em Londres em 1996, que matou duas pessoas e causou centenas de milhões de dólares de prejuízos; e a explosão de um carro-bomba na cidade de Omagh em 1998, por dissidentes do IRA que se opuseram a um cessar-fogo assumido pelo grupo meses antes - o ataque matou 29 civis e feriu mais 330.

Trecho das Memórias de Pedro Nava

A cozinha mineira, pouco abundante nos pratos de sal, que ficam nas variações em torno do porco, do toucinho, da couve, do feijão, do fubá e da farinha - é de uma riqueza extraordinária em matéria de sobrepastos. Hoje tudo mudou e minguou. Mas lembro-me bem da mesa de minha avó materna, em Juiz de Fora, onde a Inhá Luísa, da cabeceira, podia olhar a ponta dos meninos e das compoteiras, de que havia, ao jantar, umas quatro ou cinco repletas de doce. Menos, era penúria.

E que doces... Os de coco e todas as variedades, como a cocada preta e a cocada branca, a cocada ralada ou em fita, a açucarada no tacho, a seca ao sol. Baba-de-moça, quindim, pudim de coco. Compota de goiaba branca ou vermelha, como orelhas em calda. De pêssego maduro ou verde cujo caroço era como um espadarte no céu-da-boca. De abacaxi, cor de ouro; de figo, cor de musgo; de banana, cor de granada; de laranja, de cidra, de jaca, de ameixa, de marmelo, de manga, de cajá-mirim, jenipapo, turanja. De carambola, derramando estrelas nos pratos. De mamão maduro, de mamão verde - cortado em tiras ou passado na raspa. Tudo isto podia apresentar-se cristalizado - seco por fora, macio por dentro e tendo um núcleo de açúcar quase líquido.

Mais. Abóbora, batata roxa, batata doce em pasta vidrada ou pasta seca. Calda grossa de jamelão, amora, framboesa, araçá, abricó, pequiá, jaboticaba. Canjica de milho-verde tremendo como seio de moça e geléia de mocotó rebolando como bunda de negra. Mocotó batido, em espuma que se solidifica - para comer frio. Pamonha na palha - para comer quente, queimando os dedos. Melado. Tudo isto variando de casa para casa, segundo os segredos de suas donas e as invenções de suas negras - se desdobrando em outros pratos, se multiplicando em novos. Dos aristocráticos, com receitas pedindo logo de saída trinta e seis gemas, aos populares, como o cuscuz (só fubá, só açúcar, só vapor d'água e tempo certo) e como a "plasta" de São João del Rei (só fubá, só rapadura, só amendoim e ponto exato) - que tem esse nome pelo seu aspecto de bosta de boi, do emplastro que forma no tabuleiro quando cai da colher de pau.

E a abóbora da noite de São João? Era aberta por cima, esvaziada dos fiapos e caroços, cheia de rapadura partida, novamente tampada, embrulhada em folhas de bananeira e enterrada a dois palmos de fundo, debaixo das grandes fogueiras. Aí ficava duas, três horas e quando saía dessa moqueada, tinha cheiro de cana queimada e gosto ainda mais profundo que o das castanhas. Comia-se no fim das festas de junho bebendo crambambali e cantando até cair ao pé das brasas que morriam. O crambambali é bebida sagrada - um quentão legitimamente centro de Minas. A receita? Uma travessa cheia de pinga, rodelas de limão, lascas de canela e rapadura. Toca-se fogo na cachaça e deixa-se esquentar bastante. Apagar, coar e servir em canequinhas de gomo de bambu.

Solidão etc e tal.

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) afirma em 'Ser e Tempo' que estar só é a condição original de todo ser humano. Que cada um de nós é só no mundo. É como se o nascimento fosse uma espécie de lançamento da pessoa à sua própria sorte. Podemos nos conformar com isso ou não. Mas nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão e com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, dependendo do modo como interpretamos a origem de nossa existência. A partir daí podemos construir dois estilos de vida diferentes: o autêntico e o inautêntico.

O homem se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Desse modo não assume responsabilidade sobre as suas escolhas. Não aceita correr riscos para atingir seus objetivos, nem se sente responsável por sua existência, passando a buscar amparo e segurança nos outros. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história. Você já pensou nisso?

Sendo autêntico você assume a responsabilidade por todas as suas escolhas existenciais, aceita correr os riscos que forem necessários para atingir os seus objetivos, e passa a encontrar amparo e segurança em si mesmo. Com isso, apropria-se da existência, torna-se indivíduo, torna-se autônomo, torna-se dono da sua própria vida, dono da própria existência, torna-se senhor de si mesmo. Você se percebe sendo o senhor de si mesmo?


A angústia provocada pela solidão é o sentimento que muitas pessoas experimentam quando se conscientizam de estarem sós no mundo. É o mal-estar que o ser humano experimenta quando descobre a possibilidade da morte em sua vida, tanto a morte física quanto a morte de cada uma das possibilidades da existência, a morte de cada desejo, de cada vontade, de cada projeto.

Cada vez que você se frustra, que você não se supera, que você não consegue realizar seus próprios objetivos, você sente angústia. É como se você estivesse morrendo um pouco.

Muitas pessoas sentem dificuldade de estarem a sós consigo mesmas. Não conseguem viver intensamente a sua própria vida. Muitas vezes elas acreditam que o brilho e o encantamento da vida se encontram no outro e não nelas mesmas. Sua vida tem um encantamento, um brilho, algo de especial porque é sua, apenas sua. Independentemente do que você esteja fazendo, sua vida pode ser intensa, prazerosa, simplesmente pelo fato de ser sua e por você ser único. Cada um de nós pode ser uma pessoa especial para si mesmo.

A solidão é a condição do ser humano no mundo. Todo ser humano está só. Esta é a grande questão da existência, mas não significa uma coisa negativa, nem que precise de uma solução definitiva. Ou seja, a solução não é acabar com a solidão, não é deixar de sentir angústia, suprimindo este sentimento. A solução não é encontrar uma pessoa para preencher o vazio existencial, não é encontrar um hobby ou uma atividade. A solução não é se matar de trabalhar e se concentrar nisso para não se sentir sozinho. Também não é encontrar uma estratégia para driblar a solidão. A solução é aceitar que se está só no mundo. Simplesmente isso. E sabendo-se só no mundo, viver a própria vida, respeitar a própria vontade, expressar os próprios sentimentos, buscar a realização dos próprios desejos. Quando se faz isso, a vida se enche de significado, de um brilho especial.

O objetivo não é fingir que a solidão não existe, não é buscar a companhia dos outros, porque mesmo junto com os outros você está e sempre será solitário. O outro é muito importante para compartilhar, trocar. O outro é muito importante para a convivência, mas não para preencher a vida, não para dar sentido e significado à uma outra existência. A presença do outro nos ajuda, compartilhando, mostrando a parte dele, dando aquilo que não temos e recebendo aquilo que temos para dar, efetivando a troca. Mas o outro não é o elemento fundamental para saciar a angústia ou para minimizar a condição de solidão.

Cada um de nós nasceu só, vive só e vai morrer só.

A experiência de cada um de nós é única. O nascimento é uma experiência única, pois ninguém nasce pelo outro. Da mesma forma que a morte é uma experiência única, pois ninguém morre pelo outro. E a vida inteira, cada momento, cada segundo da existência, é uma experiência única pois ninguém vive pelo outro.

Texto de Jadir Lessa (Psicoterapeuta Existencial).

Jornal Apocalipse Now: “Mulher usa ‘arame farpado’ na coxa para inibir desejos sexuais”.



A britânica Sarah Cassidy, de 43 anos, usa um cilício (objeto usado sobre a pele para mortificação e penitência) na coxa toda a noite para reprimir seus desejos sexuais, segundo reportagem do jornal inglês "Daily Mail".

Solteira e sem filhos, Sarah destacou que não bebe, abomina drogas e nunca teve relações sexuais. Para continuar virgem, ela coloca o cilício em sua coxa durante duas horas por dia para inibir qualquer desejo sexual.

A mulher trabalha como diretora de uma escola primária no Reino Unido.


João Máximo conta Caymmi.



Era de Dorival Caymmi a explicação mais precisa, ainda que modesta, para a origem de suas canções praieiras: ‘Tratei desses motivos porque nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto também de Iemanjá, certo eu também de que estamos todos nós nas suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar de minha vida.’ [...]

Uma lentidão que, atribuída à proverbial preguiça baiana, acabou assumindo como se devesse a ela a excepcional qualidade de sua obra, na qual não se encontra uma só canção menor, mal acabada. Há história sobre isso, uma delas com Antonio Carlos Jobim. Visitando o amigo, Jobim ficou intrigado com um tema em que Caymmi vinha trabalhando havia tempos, não saindo da primeira frase musical. Pois, sem cerimônia, Jobim disse que ficaria com a frase para ele, como se a lentidão a tornasse de domínio público. Daí o Tema de amor de Gabriela, para o filme de Bruno Barreto. Finalmente concluída, a canção de Caymmi se intitularia A mãe d’água e a menina.

Lentamente ou não, Caymmi construiu uma obra pequena (pouco mais de cem títulos) mas preciosa. Ficou famoso, foi gravado no exterior, esteve no programa de TV de Andy Williams nos Estados Unidos (onde sua Das rosas… fez sucesso), atuou com Vinicius de Moraes e Baden Powell em Buenos Aires, foi a França, à Angola, teve sua obra regravada pelos maiores artistas brasileiros, inclusive os mais jovens.

O Poder Fálico da Mulher.



A aquisição de poder da mulher, neste momento histórico, não se dá somente em termos profissionais de sua inserção no mercado de trabalho. Esta conquista neonata se expande por todos os outros campos da sua existência, inclusive da sexualidade. E desenha contornos outrora jamais pensados para o que se configurou como feminino. Assim, a condição de gênero, praticamente, se nivela, e dar passagem aos desejos, prazeres e gozos plenos, deixando na irrelevância às marcas tradicionais e ostensivas as quais balizava. Agora, os papéis próprios de cada gênero se fundem no que não mais parece inscrever o masculino somente no público e ativo que incorpora o macho, e o feminino na exclusiva passividade, do privado familiarizado à fêmea, que eram pressionados a desempenhar ou a se conter.

De modo indubitável, “as sociedades humanas acrescentam infinitos detalhes para definir socialmente o que significa o homem e o que significa a mulher, as qualidades e o status respectivos que enraízam suas relações com o mundo e suas relações entre si” (Le BRETON, 2006, p.56). Agora, esses papéis se alternam, sem que isso, necessariamente, os descaracterizem dos convencionais territórios díspares em que foram forjados. Independente de ter na sua fisiologia pênis ou vagina se encarna a preposição de ser humano, e, assim, parcela significativa dos atores sociais prioriza como mais relevante à satisfação seja ela ou não sexual.

A mulher do século XIX, basicamente, se enquadrava em dois perfis, quando no melhor do sentido era tida como um enigma - frágil, sensível, dependente, assexuada e passiva - e, no pior a tinha como um diabo - representação de uma organização física e moral facilmente degenerável, dotada de excesso sexual que devia ser controlado (NUNES, 2000). Segundo a autora, para alguns pensadores, inclusive Freud, a visão da sexualidade feminina normal é aquela herdada do Iluminismo, isto é, passiva e doce, dotada de menor agressividade e debilidade sexual, com tendência masoquista. E isso, aos poucos, acabou por vincular essa dualidade, presente na economia libidinal da histérica, às mulheres de modo geral, e transformou a sexualidade feminina num enigma, e a mulher numa ameaça. Enfim, para Nunes (2000), o enigma a que se refere Freud, na verdade, se deve ao fato do homem imaginar a coexistência da feminilidade na mesma mulher como boa, passiva, amorosa, castrada, masoquista, de um lado; e seus componentes destruidor, potente, fálico, castrador, sádica, de outro.

É com base neste enfoque fálico da conduta feminina que o presente texto tenta dissertar até chegar ao feminino do homem. De acordo com Laplanche e Pontalis (2004), o falo na antiguidade greco-romana, é a representação do órgão sexual masculino. Na psicanálise este termo sublinha a função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetiva. Ou seja, “pênis” órgão masculino na sua realidade anatômica, e “falo”, sublinhando o seu valor simbólico. Ou ainda, o desejo de fluir do pênis real no momento do coito e o desejo de ter falo, como símbolo de virilidade. Para os autores, a expressão mulher fálica ou, para alguns outros, alfa designa a mulher que tem um falo, e não a imagem da mulher ou da menininha identificada com o falo. Uma linguagem aproximativa para qualificar uma mulher com traços de caráter pretensamente masculinos, autoritária, mas, sem saber quais são exatamente as suas fantasias subjacentes. Para Nasio (2007), o falo não é o pênis enquanto órgão, mas a sua fantasia, idealização, símbolo da onipotência e de seu avesso, a vulnerabilidade.

No entender de Freud (apud ASSOUN, 1993), a vida sexual da mulher adulta é um dark continent (um continente negro) para a psicologia. Até hoje, somente Jabor (2006), um aficionado pela psicanálise, foi capaz de contestar tal afirmativa: “É um preconceito essa mania de dizer que as mulheres são “incompreensíveis” (mesmo Freud)” (p.20 - grifos do autor). Esta dificuldade de entender a mulher não estaria ligada à questão fálica? A mulher, em geral, se faz indefesa, e leva a acreditarem nisto. Por conseguinte, estimula e fortalece o imaginário masculino, uma vez que, assim, não se constitui para ele uma ameaça. As fálicas têm o poder de sedução mesmo a partir do aparente frágil, ao passo que se mantém afiadas para castrar qualquer ação que vá de encontro as suas intenções.

As mulheres fálicas agem centradas no direito do seu próprio gozo, não abre mão do poder que usa sem pudor e culpa. Suas vontades são indiscutivelmente priorizadas. Atraem e seduzem pela aura de independência que não demanda do parceiro nenhum esforço ou compromisso para protegê-las. Bem como não se mostram, abertamente, contra os homens, a exemplo das feministas. Assim, como não se deixam castrar, não vêem os homens como inimigos. Até zombam da fragilidade dos mesmos. Para Baudrillard (2001), o feminino é o único gênero, que o masculino só existe por um esforço sobre-humano para se livrar dele, é a fortaleza fálica do homem apresenta todos os signos da fortaleza, ou seja, da fraqueza.

As mulheres fálicas, decerto, têm uma forte expressão de autenticidade. Mas, o poder fálico assumido exige muito da mulher. E essa condição, notadamente se dá pela aceitação de uma sexualidade mais livre de pré-conceito e tabu (o que não significa necessariamente promiscuidade). As fálicas, conectadas com a sua feminilidade, aceitam seu desejo sexual, e deixam transparecer um tipo mais tenaz de sensualidade. As mulheres reprimidas não conseguem externar, convencer desse potencial. Uma vez que, a sensualidade não se sustenta apenas na macaquice de “caras” e “bocas”, pois logo termina revelando a falseta ou descambando para o apelo explícito da vulgaridade.
Contudo, tem mulheres e homens de sensualidade primitiva (o que não quer dizer bruta), que não fazem o menor esforço para que assim pareça, sua sensualidade está à “flor” da pele, e muitos, às vezes, nem se dão conta disto. Eles têm um sex appeal natural.A profissional do sexo com ou sem sensualidade, por exemplo, é o tipo de mulher que sabe lidar com o seu poder fálico, e por isto mesmo não assusta e nem constrange o homem. Ela é, em termo simbólico, a “grande mãe” que aconchega, e eleva a auto-estima do cliente. Portanto, não compete, não tem sentimento de inferioridade (mas isto não a impede de sentir-se socialmente marginalizada). Ela não precisa da figura masculina, sabe da sua superioridade de gênero, mas apenas do seu dinheiro, e por isso faz qualquer um se imaginar o mais poderoso dos homens. Bataille (2004) diz que não existe uma prostituta em potencial em cada mulher, mas a prostituição é a conseqüência da atitude feminina (p.204). Uma vez que, segundo o autor, na medida de seus atrativos, está sempre exposta ao desejo do homem.

Nietzsche entende que a mulher perfeita é um tipo de ser humano mais elevado que o homem perfeito; e também algo muito mais raro (p.219). A parte este exagero, afinal de contas não existe ser humano perfeito. Entretanto, é possível reconhecer um potencial humano na mulher, não necessariamente mais intenso, porém mais explícito. O homem, por uma questão cultural é mais contido, reservado ou tímido, tem medo ou lhe falta permissividade aos afetos. Por vezes, ingenuamente, isto o faz se pensar mais forte do que a mulher. Esta pode chorar, gritar, xingar, ficar histérica que é aceita. Ou seja, extravasa as emoções, e, assim, suporta melhor as tensões na medida em que se “enche”, e se “esvazia” com relativa facilidade. Ao passo que o homem as retém, e somente lhe é permitido externar as emoções agressivas (físicas), mas não as suas demais modalidades.

Todavia, entre seus pares os homens são tão curtidores uns com os outros quanto afetivos. Simulam lutas como desculpas para, na verdade, se tocarem, nessas brincadeiras que tem muito do seu carinho manifesto. Na realidade, os homens são menos bloqueados do que se propaga. Diria que seus afetos parecem mais restritos, específicos e ocasionais. Basta observar os jogadores e torcedores em comemoração de gol. O quanto eles se permitem à proximidade. Embora as pesquisas atuais apontem que “os homens são tão fofoqueiros quanto as mulheres - ou até mais que elas”2 (ZAKABI, 2007, p.104). Porém, se não compartilham seus amores ou pendências amorosas, diferente das transas que as suas predileções, no entanto estabelecem condutas respeitosas de exemplar fidelidade canina, no sentido literal da expressão, os homens são mais verdadeiramente amigos.

Esta estrutura de amizade, em geral, é rara entre mulheres e homens homossexuais, porque estão, em virtude de sua vulnerabilidade, sempre invejando e competindo entre si. São conhecidos como classes desunidas, nas quais quase não existe corporativismo. E, às vezes, muitos não têm escrúpulos de tirar de modo politicamente incorreto ou desonesto, vantagem sobre um (a) colega. Um segmento da Teoria de Campo de Kurt Lewin (apud MINICUCCI, 1987) denominado Atmosfera Social, diz que um conjunto de personalidades fortes forma grupo de gestalt fraca, e vice-versa. Aplicada a este contexto, poderia se dizer que os homens heterossexuais formam grupos fortes em razão da sua constituição de personalidades possivelmente fracas ou socialmente privilegiadas. Logo, os grupos de mulheres e homens homossexuais, apesar da sensibilidade que lhe são permitidos, formam gestalts fracas em decorrência de um provável potencial de personalidades fortes ou conflituosas. Talvez porque, recaem sobre estes últimos sujeitos uma carga maior de exigências, e menos ou quase nenhuma regalia e benefícios sociais.

A sexualidade não revolucionou as relações de gênero nem modificou radicalmente os lugares de cada um (BOZON, 2004, p.93). Embora, se esperasse a partir do movimento feminista uma reação mais simétrica na relação de gênero (HEILBORN, 2004). Esta autora conclui que, de fato, a sexualidade se alterou no que diz respeito à família, mas não produziu um panorama de liberdade. Embora ainda haja repressão, porém, no ensejo da contemporaneidade a mulher tem disputado quinhões de liberdade sexual muito próximo ao do homem. Se ainda não chegou a uma horizontalidade irrestrita, entretanto não desmerece o fato de que, a sua atual posição, em termos comparativos com um passado, até recente, é razoavelmente confortável.

As mulheres fálicas ao assumirem seu poder, com isso afirmam seu direito de igualdade, ao passo que as outras se debatem na armação ou engodo de que são frágeis. Ameno (2001) diz que a maioria das fêmeas é farsante, interpreta um papel para o qual não tem a menor vocação, apenas por interesse financeiro ou para “segurar” o companheiro. Os homens que não são tolos, não abrem mão do seu prazer. Para a autora, “o homem é um ser biologicamente livre e a sociedade transferiu para o mundo social a mesma liberdade de que ele goza” (AMENO, 2000, p.63). Porém, os únicos pontos de vulnerabilidade que, de fato, deixa a mulher numa certa desvantagem em relação ao homem, são a sua dependência hormonal que resulta na oscilação de humor na TPM (Tensão pré-menstrual), um apego acentuado aos detalhes, e o medo, segundo Nasio (2007), de ser abandonada pelo homem amado.

Se os homens têm a iniciativa, as mulheres têm o poder de provocar o desejo dos homens. Seria injustificado dizer que as mulheres são mais bonitas ou mesmo mais desejáveis que os homens [...] Elas não são mais desejáveis, mas elas se propõem ao desejo (BATAILLE, 2004, p.203). Antes da revolução feminista, a mulher era pressionada a fingir prazer sexual e esconder seus desejos eróticos, o máximo que o social lhe permitia era provocar, se colocar na posição do desejável, do proibido que instigava o homem a conquistá-la e a desvendá-la. Ainda existe muito do ranço dessa repressão, e não é à toa que, facilmente, procura-se destratar as mulheres usando como recurso a sexualidade devassa, o oposto para o qual a mulher foi educada ou castrada. Prostituta e vadia estão entre os adjetivos mais soletrados para ofender a sua moral.

Revista O Cruzeiro, 17 de Outubro de 1959: Orlando Silva.


Fiz o teste mais gozado do mundo para ser cantor: dentro do carro de Francisco Alves – diz Orlando Silva.. Faz, agora, 25 anos, no meu jubileu de prata, mas lembro bem: era um “Pontiac” grená, de pára-lamas pretos, chapa 4678. O compositor Bororó me levou ao Café Nice para ser apresentado ao Rei da Voz, que pôs a mão no meu ombro: “Como é, menino, V. canta mesmo, eh?” Eu tremia. “Perto do Sr., “seu” Chico, como é que eu vou dizer que canto?” Depois entramos no carro, na Rua Chile: cantei cinco vêzes, e êle me aprovou.
Meu pai foi o Celeste, José Celestino da Silva, violonista que formou no famoso conjunto “8 Batutas”, de Pixinguinha e outros ases: dêle sei que existe o violão que alguém prometeu de presente mais ainda não trouxe – informa Orlando Silva. Pixinguinha é uma grande criatura humana e um grande criador musical: durante êsses meus 25 anos como cantor popular, o número mais solicitado tem sido “Rosa” (tu és divina e graciosa) do nosso querido Alfredo da Rocha Viana. Desde que Francisco Alves me lançou na Rádio Cajuti, em 23 de junho de 1934, eu tenho vivido de atuações e gravações – tudo o que possuo foi ganho com as cordas vocais. Posso dizer que essa coisa de afluência de cantor e público, isto é, contato direto, começou comigo. Quando em 1937, em São Paulo, o povo se aglomerava na rua para me ouvir cantar, Oduvaldo Cozzi me crismou: “Êle – O Cantor das Multidões”. Talvez o mais admirado com a longa carreira do filho de D. Balbina seja eu mesmo: em 1948 diziam que eu estava acabado, fui para o interior, passei três anos cantando por lá e arrumei minha vida – voltei para ser eleito o melhor de 52. Vou cantando para o povo e para os presidentes. Getúlio gostava de “A Jardineira”. No último “réveillon” do grande presidente, êle me disse: “Orlandô, mê cantê A Jardê-nêira” – e me acompanhou batendo com o talher no prato. Agora o presidente JK prefere “A Sertaneja”. Ao fim de uma festa, êle fêz sinal para que eu ficasse, e, com pessoas da família em volta, sentando-se à vontade, meteu o bico do pé direito no calcanhar do esquerdo arrancando o sapato, folgou satisfeito. “Bem, Orlando, já atendeu todo o mundo, não? Agora, a minha”. E eu: “Sertaneja, se eu pudesse, se Papai do Céu me desse o espaço para voar”.
Nasci no Engenho de Dentro – relata Orlando Silva – na Rua Augusta, 25, hoje General Clarindo, 45 – aliás, se Deus quiser e o Prefeito do meu querido Rio de Janeiro, a melhor cidade do mundo, sancionar o Projeto-de-Lei n.° 570-57, de 11 de junho dêste ano, emenda n.° 28, de autoria do Vereador Paulo Areal, aquela linda rua arborizada vai receber o meu nome. Quando é que um órfão suburbano, filho da viúva D. Balbina Garcia, neto de D. Maria das Ilhas Canárias, podia esperar por isso? Mas está acontecendo. E tem mais: os moradores da rua recebem com simpatia a iniciativa da homenagem. Hoje eu moro no Pôsto 2, ao lado do Copacabana Palace, e D. Balbina, no Pôsto 5: mas nós nos conhecemos como ninguém. Moramos no Méier, Todos os Santos e Pilares. Foi num quintal da Avenida Suburbana que comecei a cantarolar no alto de uma amoreira – arte de menino – atraindo sem querer o interêsse de uma vizinha, D. Elvira, mãe de Renato, um companheiro de pelada. Minha primeira fã gritava de lá: “Orlandinho, canta aquela”. Eu atendia: “Cai a tarde tristonha e serena” (Ave Maria). Minha avó, na máquina de costura, também fazia seu pedido com sotaque espanhol, e eu fazia questão de agradá-la cantando: “Era uma tarde em Sevilha quando uma dama formosa eu vi”. Na casa defronte morava a espôsa de um tenente do Exército, D. Dejanira, minha segunda fã. Por essa época, eu cantava êxitos de Augusto Calheiros, que fazia sucesso no Teatro Lírico, segundo eu ouvia dizer: porque, vir à cidade, eu nem sonhava. Minha mãe estava viúva pela segunda vez, e quem tomava conta das crianças era eu. Logo fui para o trabalho: no comércio, na indústria, estafeta da Western, trocador de ônibus. Em 1930, perto da Central, fui vítima de um acidente de bonde que me deixou com uma lesão no pé esquerdo.
Eu tinha pavor de cantar em público: o que é o destino – tenho passado a vida enfrentando platéias. Um vizinho da Avenida Suburbana, Luís Pimentel, amigo do famoso Luís Barbosa, do chapéu de palha, foi quem primeiro me sugeriu cantar no rádio. Por êsse tempo fiz minha primeira apresentação em público. D. Alice, uma atriz que organizava “troupes” de amadores, me convidou para um festival no Cine Pilares, e tremendo, feito vara verde, cantei o tango-canção “Volta” – espera, vou ver se me lembro de um pedacinho, não, não me lembro – e “Único amor”, sucesso de Gastão Formenti: ganhei palmas e, principalmente, muitas piadas dos conhecidos. Meus companheiros queriam me ver era no pião, na bola de gude, empinando pipa. Mas o Luís Pimentel me levou ao Luís Barbosa – camarada formidável, muito vivaz, cheio de bossa – que me levou a um diretor da Rádio Cajuti e me pôs ao banho-maria dizendo que era preciso verificar se minha voz era microfônica. Morando em Pilares, vir à cidade em hora de folga não era brinquedo: estive na rádio três vezes e me aprontando para a quarta, disse para minha mãe: “Hoje é a última vez que eu vou lá”.
À espera do técnico de som (pelo que se dizia), eu cantarolava numa das salas, na Avenida 13 de Maio, com o violonista Henrique Brito quando entra – eu vim a saber depois – o compositor Bororó, autor do “Curare”, e fica me ouvindo, em seguida pergunta: “Menino, V. canta aqui? Não? Onde? Na Rádio Clube? Na Guanabara?” E eu, muito tímido, franzino, pesando 53 quilos: “Não Sr., eu estou tentando”. “Ora, vem cá, vou apresentar você ao Chico Alves”. Ficamos em pé, na calçada do Café Nice, até que o Chico apareceu, e foi logo. Dentro do carro – êle mesmo é que escolheu o lugar para o teste, sentado na frente junto ao volante, e eu no banco de trás – veja a minha ingenuidade: com acanhamento e sem acompanhamento, comecei a cantar números do repertório dêle, “Por Teu Amor”, “A Voz do Violão”, “Palhaço do Luar”. “Agora canta um samba”, êle disse. Ia começando quando Chico fazendo sinal: “Espera, espera aí”. Sai do carro, abre a mala, retira um violão, senta ao meu lado – já vi que estava sendo aprovado – e me acompanha “Quem vai ao samba em Mangueira chorando o pinho a noite inteira”. “Sabe, Mimi?” – indaga Chico. E eu: “Dentro dalma dolorida eu guardo um riso teu”. No final, disse: “Muito bem”.
Saímos e fomos ao Café Nice, o “Phanteon” da música popular: e o garôto suburbano celebrou a vitória com um cafèzinho. Chico me recomendou, voz empostada, leve pigarro: “Vai pra casa, não faz farra para não ficar rouco, vem domingo, 23”. Cheguei a casa exultando: “Mamãe, eu vou cantar no rádio”. Na estréia, ao fim de dois números, o locutor disse: “Acabaram de ouvir Orlando Novarro”. E eu, enérgico: “É Garcia da Silva”. E Chico: “Pst! Microfone aberto”. Em Pilares me interpelam: “Como é, Orlando, V. mudou de nome?” E eu: “Domingo que vem, vai ser Orlando Silva”. E tem sido até hoje.
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