quarta-feira, 23 de junho de 2010

João, capítulo 7, versículos 1-27.



Depois disso, Jesus percorria a Galiléia; não queria andar pela Judéia, porque os judeus procuravam matá-lo.

Estava próxima a festa dos judeus, chamada das Tendas.

Os irmãos de Jesus disseram-lhe: “Sai daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes.

Ninguém faz algo em segredo quando procura ser publicamente conhecido. Já que fazes essas coisas, manifesta-te ao mundo”.

Pois nem os seus irmãos acreditavam nele.

Jesus, então, disse a eles: “Ainda não chegou o tempo certo para mim. Para vós, ao contrário, é sempre o tempo certo.

A vós, o mundo não pode odiar, mas a mim odeia, porque eu dou testemunho dele, mostrando que suas obras são más.

Vós podeis subir para a festa. Eu não subo para esta festa, porque meu tempo ainda não se cumpriu”.

Dito isso, permaneceu na Galiléia.

Depois que seus irmãos subiram para a festa, Jesus subiu também, não publicamente, mas em segredo.

Os judeus, no entanto, o procuravam na festa e perguntavam: “Onde está ele?”

Muito se murmurava a seu respeito no meio do povo. Uns diziam: “Ele é bom!”, outros: “Não, ele engana a multidão!”

Ninguém, entretanto, falava dele publicamente, por medo dos judeus.

Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao templo e começou a ensinar.

Os judeus comentavam admirados: “Como ele é tão letrado, sem nunca ter recebido instrução?”
Jesus respondeu: “O meu ensinamento não vem de mim mesmo, mas daquele que me enviou.

Se alguém quiser fazer-lhe a vontade, saberá se meu ensinamento é de Deus ou se falo por mim mesmo.

Quem fala por si mesmo procura a sua própria glória; mas quem procura a glória daquele que o enviou é verdadeiro e nele não há falsidade.

Moisés não vos deu a Lei? No entanto, nenhum de vós cumpre a Lei. Por que procurais matar-me?”

A multidão respondeu: “Tu tens um demônio! Quem é que te quer matar?”

Jesus replicou: “Fiz uma obra só, e vós todos ficastes espantados.

Moisés vos deu a circuncisão ( embora ela não venha de Moisés, mas dos patriarcas ); por isso, fazeis a circuncisão mesmo no dia de sábado.

Então, se alguém pode receber a circuncisão num dia de sábado, para não faltar com a Lei de Moisés, por que estais indignados comigo por ter curado um homem todo em dia de sábado?

Não julgueis pelas aparências; julgai de acordo com a justiça”.

Alguns de Jerusalém diziam: “Não é este a quem procuram matar?

Olha, ele fala publicamente e ninguém lhe diz nada. Será que os chefes reconheceram que realmente ele é o Cristo?

Sevilha em Casa, João Cabral de Melo Neto.

O carnaval do arlequim, Joan Miró.
Tenho Sevilha em minha casa.
Não sou eu que está chez Sevilha.
É Sevilha em mim, minha sala.
Sevilha e tudo o que ela afia.

Sevilha veio a Pernambuco
porque Aloísio lhe dizia
que o Capibaribe e o Guadalquivir
são de uma só maçonaria.

Eis que agora Sevilha cobra
onde a irmandade que haveria:
faço vir as pressas ao Porto
Sevilhana além de Sevilha.

Sevilhana que além do Atlântico
vivia o trópico na sombra
fugindo os sóis Copacabana
traz grossas cortinas de lona.

João Alexandre Barbosa explica José Saramago.



Vejo agora que venho lendo a obra de José Saramago há muito tempo. A prova está na mistura de edições em que tenho os seus textos publicados por duas ou três editoras portuguesas e, a partir de uma certa época, a brasileira Companhia das Letras, que, para quem lê no Brasil, seguindo aquilo que é feito, do lado de Portugal, pela Editorial Caminho, veio dar uma certa ordem no caos editorial que costumam sofrer os escritores de língua portuguesa.

E por aí se vê que, embora tenha começado como romancista desde 1947 com "Terra do Pecado", publicado pela Editorial Minerva, somente em 1977, com "Manual de Pintura e Caligrafia, da Edição Moraes, assume a identidade de romancista que, para o público mais amplo, atinge a sua plenitude com a publicação, em 1982 e já pela Caminho, do "Memorial do Convento". Duas consequências para a reflexão: durante 30 anos entregou-se ao jornalismo e à poesia (de que dão notícias os livros "A Bagagem do Viajante", "Os Apontamentos" e "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e "O Ano de 1993", respectivamente) e somente há 21 anos vem escrevendo os romances que lhe conferem, sem qualquer sombra de dúvida, a posição de um dos melhores prosadores de língua portuguesa deste século que vamos terminando -e, para dizer a verdade, o plural só está aí pela existência anterior de João Guimarães Rosa. São dez romances: além dos já citados "Terra do Pecado", "Manual de Pintura e Caligrafia" e "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "A História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". E não é muito difícil estabelecer, desde logo, uma marca narrativa que, por assim dizer, articula a variedade ficcional de cada um: a presença forte de um narrador, quase sempre no limiar da dicção autobiográfica, que busca fixar, no patamar mais objetivo da história e da realidade circunstancial, as dissonâncias das experiências subjetivas de que a linguagem tem dificuldades em dar conta.

Neste sentido, o chamado romance histórico sofre, com Saramago, um desvio fundamental: a história circunstancial não lhe serve apenas para alimentar a imaginação, mas esta, por meio de pequenos e substanciais erros de leitura, como vai estar explícito naquele "não" introduzido pelo revisor de "A História do Cerco de Lisboa", cria uma complexidade de maior realidade, pois inclui no real histórico as dissonâncias da própria linguagem que é utilizada para a sua apreensão. O que, por outro lado, permite ou mesmo imanta a presença contínua de uma desconfiança de base para com os dados históricos, freqüentemente embaralhados pelo imaginário da linguagem. E como este, no caso de um romancista, está constituído, sobretudo, pelas fontes próprias da tradição narrativa, o chamado romance histórico, em Saramago, inclui necessariamente, e de modo solidário, a história do próprio gênero. Por isso, é possível dizer que, na esteira do que há de mais inovador na narrativa moderna e pós-moderna, o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional.

Quando, portanto, o próprio Saramago apontava Pessoa, Borges e Kafka como, para ele, os mais importantes escritores do século, estava sinalizando para aquilo de que a sua própria obra dá testemunho, isto é, quer para a multiplicidade de vozes ficcionais que está em Pessoa, quer para a realidade da ficção, como está em Borges, quer para a precisão do sonho e do imaginário de Kafka, tudo, no entanto, por assim dizer, sob a tensão de uma consciência dilacerante da linguagem. Veja-se, por exemplo, o modo pelo qual, no seu último romance, "Todos os Nomes", transmite ao leitor lugares e tarefas que constituem o espaço da grande sala da Conservatória Geral do Registro Civil e que serve de pórtico à narrativa:

"A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender ao público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá no fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos oficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato cotidiano.

A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato".

Eis, portanto, um traço estilístico de Saramago em sua essência: os dados da realidade objetiva são expostos até os seus últimos limites, não obstante as interferências irônicas, para que então possa surgir o elemento de dissonância que se introduz pela movimentação final do trecho citado e que é sua decorrente: o erro, o abuso, a irregularidade ou a falsificação que transformam a rasura do nome num motivo de procura pelo nome que é o romance e que por aí faz o leitor retornar, mesmo que não o saiba, às fontes primordiais do gênero narrativo. Mas a busca pelo nome, que é também a da identidade, tudo envolve, desde aquele que busca até o objeto que se busca e, por isso, a história se confunde com as histórias individuais, sejam as do personagem Sr. José, sejam as deste romance que dialoga com as suas origens. Nascimento e morte, fichas hierárquicas da Conservatória, diapasões pelos quais se mede o pulsar da realidade, é o espaço e o tempo que são alterados e renomeados pela presença do erro que somente o imaginário da ficção foi capaz de provocar.

Endymion, John Keats (trecho).


Tradução: Augusto de Campos.


O que é belo há de ser eternamente

Uma alegria, e há de seguir presente.

Não morre; onde quer que a vida breve

Nos leve, há de nos dar um sono leve,

Cheio de sonhos e de calmo alento.

Assim, cabe tecer cada momento

Nessa grinalda que nos entretece

À terra, apesar da pouca messe

De nobres naturezas, das agruras,

Das nossas tristes aflições escuras,

Das duras dores. Sim, ainda que rara,

Alguma forma de beleza aclara

As névoas da alma. O sol e a lua estão

Luzindo e há sempre uma árvore onde vão

Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos

De uvas num mundo verde; riachos

Que refrescam, e o bálsamo da aragem

Que ameniza o calor; musgo, folhagem,

Campos, aromas, flores, grãos, sementes,

E a grandeza do fim que aos imponentes

Mortos pensamos recobrir de glória,

E os contos encantados na memória:

Fonte sem fim dessa imortal bebida

Que vem do céus e alenta a nossa vida.




No tempo do livro, João Ubaldo Ribeiro.

Ah, nem conto a vocês como era, fico com medo de acharem que estou mentindo. Mas sei que não estou, quando lembro o dia começando a se esgueirar por entre as frestas dos grandes janelões do casarão térreo em que morávamos, e eu, menino de oito ou nove anos, pulando afobado da cama, para mais uma vez me embarafustar pelo meio dos livros. Quase febril, ansioso como se o mundo fosse acabar daí a pouco, eu nem sabia com quem ia me encontrar e aonde viajaria, em nova manhã encantada. Não havia problemas para eu me embolar com os livros, porque eles não só estavam junto à minha cama, mas espalhados da cozinha ao banheiro, em estantes para mim altas como torres, algumas das quais tão pejadas que volta e meia estouravam, viravam cachoeiras de papel e vinham abaixo, dando a impressão de que as paredes e o chão se dissolviam em livros.

Problema havia na escolha, porque nenhum deles era proibido por meu pai, a não ser, como muito depois ele me contou, os que ele queria que eu lesse, me escondendo sem saber que tinha caído num ardil. Podia ser mais um volume da coleção de Tarzan que eu já tinha lido praticamente toda e não acabava nunca, porque repetia os favoritos. Não, talvez o Dom Quixote, em dois tomos imponentes que eu mal conseguia sopesar e cheio de palavras portentosas que eu não compreendia e não ousava me esclarecer com o velho, porque já conhecia a resposta.

- Dicionário, jumento bípede – respondia ele. – E copie o verbete para me mostrar depois.
- O que é verbete?

- Dicionário, miolo ralo. E copie esse também.

As gravuras de Gustave Doré que ilustravam as desditas do engenhoso fidalgo, em imagens cheias de sombras e figuras desconhecidas, me metiam medo mas eram irresistíveis e, mesmo sem entender direito o que aquele livro tremendo me contava, eu sempre voltava a ele e muitas vezes me pilhei devaneando em meio a um descampado e diante de cata-ventos, na companhia de um magrelo em seu cavalo ainda mais magro e de um gordo em seu burrico. Mas eu podia preferir ingressar na Legião Estrangeira, relendo Beau Geste ou Beau Sabreur, que me deixavam com sonhos de me alistar assim que completasse vinte anos, para ir viver entre os lendários tuaregues e conquistar o amor da mais linda princesa do deserto.

Ou podia ir para o Sítio do Picapau Amarelo. Quando Monteiro Lobato, ainda hoje, para mim, um dos maiores escritores de todos os tempos, em qualquer lugar, morreu e seu enterro foi mostrado pela revista O Cruzeiro, demorei muito para acreditar. O sítio continuou a existir, do mesmo jeito que o pó de pirlimpimpim, a viagem ao céu, o saci-pererê e toda a mágica que o grande Lobato criou. Tanto assim que peguei um caderno e comecei a escrever novas aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho, até que meu pai olhou minha produção, disse que estava mal escrita, me chamou de plagiário e me mandou ver no dicionário o que isso queria dizer.

Desisti da empreitada, mas persisti em escrever, para desgosto do velho, que até morrer lamentou que eu não fosse tabelião, como ele com toda a razão queria.

Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha), brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis, organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos outros, contanto que acreditassem nas nossas – era tudo a verdade de nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós, afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os livros, não precisávamos de mais que eles.

Mas isso era naquele tempo. Hoje, como nos informam a toda hora, os livros estão mudando, aperfeiçoam-se cada vez mais. Para ler modernamente, dever-se-á usar um dos muitos leitores eletrônicos que já existem no mercado e que ainda vão surgir. Segundo uma notícia, um desses aparelhos possibilita que seu usuário (não é mais leitor, é usuário) interaja com as chamadas redes sociais na Internet. Suponho que se lê um pedacinho e se manda um comentário via Twitter. Também estarão disponíveis, em breve, livros com trilha sonora e com trechos narrados por voz. Os romances e peças virão com clipes dos cenários descritos pela narrativa, entrevistas com o autor, facilidade em substituir palavras difíceis por sinônimos acessíveis, interatividade com o usuário (“faça seu final, case Romeu com Julieta”) – o céu é o limite.

Acredito que, em relação a isso, vale uma comparação com o celular, o qual começou como telefone, mas hoje é máquina fotográfica, batedeira de bolos e ferro de passar e desconfio que está substituindo o(a) parceiro(a) sexual. Admirável livro novo, que faz uma maravilha atrás da outra e nem puxa pela imaginação, tudo já vem imaginado para você. Espero que, tão famosamente equipado, o usuário ainda encontre um tempinho para ler.



Intervalo Comercial: Vale do Rio Doce.

A Pintura das Ruas, João do Rio.

Há duas coisas no mundo verdadeiramente fatigantes: ouvir um tenor célebre e conversar com pessoas notáveis. Eu tenho medo de pessoas notáveis. Se a notabilidade reside num cavalheiro dado à poesia, ele e Lecomte de Lisle, ele e Baudelaire, ele e Apolonius de Rodes desprezam a crítica e o Sr. José Veríssimo; se o sucesso acompanha o indivíduo dado à crítica, este país é uma cavalariça sem palafreneiros; e se por acaso a fama, que os romanos sábios confundiam com o falso boato, louva os trabalhos de um pintor, ele como Mantegna, ele como Leonardo Da Vinci, ele como todos os grandes, tem uma vida de tormentos, de sacrifícios, de ataque aos seus processos; e jamais se julga recompensado pelo governo, pelo país, pelos contemporâneos, de ter nascido numa terra de bugres e numa época de revoltante mercantilismo. É fatigante e talvez pouco útil. Um homem absoluta, totalmente notável só é aceitável através do cartão-postal – porque afinal fala de si, mas fala pouco. Foi, pois, com susto que ontem, domingo, recebi a proposta de um amigo:

– Vamos ver as grandes decorações dos pintores da cidade?

– Heim? Estás decididamente desvairando. As grandes decorações? Uma visita aos ateliers?

– Não; a outros locais.

– E havemos de encontrar celebridades?

– Pois está claro. Não há cidade no mundo onde haja mais gente célebre que a cidade de S. Sebastião. Mas não penses que te arrasto a ver algum Vítor Meireles, alguns Castagnetto apócrifos ou os trabalhos aclamados pelos jornais. Não! Não é isso. Vamos ver, levemente e sem custo, os pintores anônimos, os pintores da rua, os heróis da tabuleta, os artistas da arte prática. É curiosíssimo. Há lições de filosofia nos borrões sem perspectiva e nas "botas" sem desenho. Encontrarás a confusão da populaça, os germes de todos os gêneros, todas as escolas e, por fim, muito menos vaidade que na arte privilegiada.

Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão cerebral e de encanto. Quantos pintores pensa a cidade que possui? A estatística da Escola é falsíssima. Em cada canto de rua depara a gente com a obra de um pintor, cuja existência é ignorada por toda a gente.

O meu amigo começou por pequenas amostras da arte popular, que eu vira sempre sem prestar atenção: os macacos trepados em pipas de parati, homens de olho esbugalhado mostrando, sob o verde das parreiras, a excelência de um quinto de vinho, umas mulheres com molhos de trigo na mão apainelando interiores de padarias e talvez recordando Ceres, a fecunda. Depois iniciou a parte segunda:

– Vamos entrar agora nas composições das marinhas. Os pintores populares afirmam a sua individualidade pintando a Guanabara e a praia de Icaraí. Por essas pinturas é que se vê quanto o "ponto de vista" influi. Há o Pão de Açúcar redondo como uma bola, no Estácio; há o Pão de Açúcar do feitio de uma valise no Andaraí; e encontras o mesmo Pão, comprido e fino, em S. Cristóvão. O povo tem uma alta noção dos nossos destinos navais; a sua opinião é exatamente a mesma que a do ministro da marinha – rumo ao mar! Por isso, não há Guanabara pintada pelos cenógrafos da calçada que não tenha à entrada da barra um vaso de guerra. A parreira como o bêbado tem uma conclusão fatal: carga ao mar!

– E depois?

– Depois entramos nas grandes telas, as grandes telas que a cidade ignora.

Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar num botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram na parede da casa, alheio ao ruído, ao vozear, ao estrépito da gente que entrava e saía. Eu estava diante de uma grande pintura mural comemorativa. O pintor, naturalmente agitado pelo orgulho que se apossou de todos nós ao vermos a Avenida Central, resolveu pintá-la, torná-la imorredoura, da Rua do Ouvidor à Prainha. A concepção era grandiosa, o assunto era vasto–o advento do nosso progresso estatelava-se ali para todo o sempre, enquanto não se demolir a Rua do Núncio. Reparei que a Casa Colombo e o Primeiro Barateiro eram de uma nitidez de primeiro plano e que aos poucos, em tal arejamento, os prédios iam fugindo numa confusão precipitada.

Talvez esse grande trabalho tivesse defeitos. Os dos "salões" de toda a parte do mundo também os têm. Mas quantos artigos admiráveis um crítico poderia escrever a respeito! Havia decerto naquele deboche de casaria o início da pintura moral, da pintura intuitiva, da pintura política, da pintura alegórica... Indaguei, rouco:

– Quem fez isto?

– O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os colegas.

Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes fatos. Na parede fronteira, entre ondas tremendas de um mar muito cinzento rendado de branco, alguns destroyers rasgavam o azul denso do céu com projeções de holofotes colossais.

– Há coisas piores nos museus.

– Mas isto é digno de uma pinacoteca naval.

O amador, que é o dono do botequim, e o artista cheio de imaginação, que é o Paiva, não se haviam contentado, porém, com essas duas visões do progresso: a avenida e o holofote. Na outra parede havia mais uma verdadeira orgia de paisagem: grutas, cascatas, rios marginados de flores vermelhas, palmas emaranhadas, um pandemônio de cores.

Quando me viu inteiramente assombrado, esse excelente amigo levou-me ao café Paraíso, na Avenida Floriano.

– Já viste a arte-reclamo, a arte social. Vamos ver a arte patriótica.

– E depois?

– Depois ainda hás de ver os artistas que se repetem, a arte romântica e infernal.

A arte patriótica, ou antes regional, dos pintores da calçada é o desejo, aliás louvável, de reproduzir nas paredes trechos de aldeia, trechos do estado, trechos da terra em que o proprietário da casa, ou o pintor, viu a luz. No café Paraíso, o artista, que se chama Viana, pintou a cidade de Lourenço Marques, vista em conjunto, mas, como qualquer sentimento de amor naquela elaboração difícil brotasse de súbito no seu coração, Viana colocou à entrada de Lourenço Marques um couraçado desfraldando ao vento africano o pavilhão do Brasil. Dessas pinturas há uma infinidade – e eu vi não sei quantas pontes metálicas do Douro ao atravessar algumas ruas.

– Entremos neste botequim, aqui à esquina da Rua da Conceição. Vais conhecer o Colon, pintor espanhol. Colon tem estilo: este painel é um exemplo. Que vês? Uma paisagem campestre, arvoredo muito verde, e lá ao fundo um castelo com a bandeira da nacionalidade do dono da casa. É sempre assim. Há outros mais curiosos. O Oliveira completa os trabalhos sempre com cortinas iguais às que se usavam nos antigos panos de boca dos teatros. O trabalho é o abuso do azul, desde o azul claro ao azul negro.

– Mas estás a contar os tiques de grandes pintores.

– São parecidos. Eu conheço muitos mais: o velho Marcelino, que tem a especialidade de pintar os homens no pifão; o Henrique da Gama, o primeiro dos nossos fingidores, que faz um metro de mármore em cada cinco minutos; o Francisco de Paula, que adora os papagaios e faz caricaturas; o Malheiros, que reúne gatos, cachorros, cascatas e caboclos em cada tela. É o ideal da arte! São eles os autores dos estandartes dos cordões; são eles que enriquecem! Já entraste num desses ateliers, no Cunha dos PP, no Garcia Fernandes da Rua do Senhor dos Passos? Pois é como um desses studios da Flandres antiga, em que os grandes artistas assinavam os trabalhos dos discípulos, é como se entrasse na grande manufatura da pintura assinada. Vamos ao Cunha.

– Não, não, por hoje basta.

– Mas pelo menos vem admirar na Rua Frei Caneca 1660 famoso trabalho do Xavier.

– O famoso trabalho?

Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso. Precipitei-me num bonde, saltei comovido como se me assegurassem que eu iria ver a Joconda de Da Vinci, e, quando os meus olhos sôfregos pousaram na criação do pintor, uma exclamação abriu-me os lábios e os braços. Era simplesmente um incêndio, o incêndio de uma cidade inteira, a chama ardente, o fogo queimando, torcendo, destruindo, desmoronando a cidade do vício. Tudo desaparecia numa violentação rubra de fornalha candente. Seria o fogo sagrado, a purificar como em Gomorra, ou o fogo da luxúria, o símbolo devastador das paixões carnais, a reprodução alegórica de como a licença dos instintos devora e queima a vida?

Xavier fora mais longe. Aquele mar de incêndio, aquele braseiro desesperado e perene era a fixação do fogo maldito da luxúria, era o fogo de Satanás, porque Satanás, em pessoa, no primeiro plano, completamente cor de pitanga, com as pernas tortas e o ar furioso, abatia a seus pés, vestida de azul celeste, uma pobre senhora.

Esse último painel punha-me inteiramente tonto. Mas não é uma das grandes preocupações da Arte comover os mortais, comovê-los até mais não poder? Xavier comovia, eu estava comovido. Nem sempre é possível obter tanta coisa nas exposições anuais. O meu amigo levou o excesso a apresentar-me o ilustre artista.

– Aqui está o Xavier.

Voltei-me.

– Os meus sinceros cumprimentos. Há sopro romântico, há imaginação, há ardência nesta decoração, fiz com o ar dogmático dos críticos ignorantes de pintura.

Ingenuamente, Xavier olhou para mim e, primeiro homem que não se julga célebre neste país, balbuciou:

– Eu não sei nada...Isso está para aí...Se soubesse fazer alguma coisa de valor até ficava triste – só com a idéia de que um dia talvez a levassem do meu país...

Playboy entrevista John Lennon [trecho – 1975]



Playboy: Falemos dos "irmãozinhos". Por que é tão impensável a idéia de que os Beatles voltem a fazer música juntos?

Lennon: Você quer voltar ao ginásio? Por que eu haveria de recuar dez anos só para dar a ilusão de uma coisa que não existe mais?

Playboy: Esqueçamos a ilusão. Por que não fazer apenas bela música juntos?Você admite que os Beatles fizeram bela música?

Lennon: Por que os Beatles teriam de oferecer mais? Não deram tudo nessa bendita terra, por dez anos? Não 'se' deram? Você é do tipo do fã amor-e-ódio, que diz: "Obrigado por tudo - mas não daria mais? Só um milagre?"

Playboy: Não estamos falando de milagres - só de boa música.

Lennon: Dean Martin e Jerry Lewis tinham de ficar juntos só porque 'eu' gostava deles juntos? Por que fazer as coisas só porque os outros querem? A própria ideologia dos Beatles era: faça o que bem quiser - assumir sua própria responsabilidade.

Playboy: Perfeito. Mas você não acha que os Beatles criaram o melhor rock jamais produzido?

Lennon: Não. Os Beatles - veja bem, estou muito envolvido com eles, não consigo vê-los com objetividade. Mas não me satisfaz nenhuma porra de álbum que os Beatles fizeram. Não haveria 'um' só que eu fizesse de novo. Fizemos coisa boa, mas fizemos coisa ruim.

Playboy: Muita gente acha que nenhuma das canções que Paul fez sózinho se compara às que ele fez como Beatle. Você acredita que 'suas' canções terão a perenidade de "Eleanor Rigby" ou "Strawberry Fields"?

Lennon: "Imagine", "Love" e aquelas músicas da 'Plastic Ono Band' estão no mesmo nível de 'qualquer' música que eu fiz como Beatle. Pode até ser que se leve vinte, trinta anos para apreciá-las.

Playboy: Parece que você está querendo dizer:"Era apenas boa música". Mas o mundo inteiro diz: "Não era só boa música, era 'a melhor'.

Lennon: Bem, e daí? 'Não será mais'! todo mundo fala de uma coisa boa que acaba como se a vida estivesse no fim. Mas, veja, eu já terei 40 anos quando esta entrevista for publicada. Paul tem 38. Elton John, Bob Dylan...Somos relativamente jovens. O jogo não acabou. Se Deus quiser, ainda haverá quarenta anos de produtividade pela frente.

Playboy: Não acha que seria interessante - nada transcendental, só 'interessante' - vocês se reunirem e promoverem esse cruzamento de talentos?

Lennon: Não seria 'interessante' trazer Elvis de volta para os seus anos iniciais? Mas não quero tirá-lo do túmulo. Os Beatles não existem e não podem existir de novo. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Richard Starkey podem fazer um concerto, mas não serão mais os Beatles, porque não temos mais 20 anos. Não podemos ser o que não somos. Teremos de ser crucificados de novo? De andar sobre ás águas de novo, só porque um bando de idiotas não assistiu à cena na época, ou não acreditou no que via? Nunca. Não dá para voltar para uma casa que não existe mais.

João Gilberto - "Há Tanta Coisa Bonita a Ser Consertada", por Mario Sérgio Conti.

O início de uma vida artística é definidor. Por mais que a arte e a vida venham a mudar, e a negar as suas origens, o começo permanece como referência. No caso de João Gilberto, mais de meio século depois, o início de sua obra é um atestado de coerência.

O disco que inicia a bossa nova é um compacto simples que ele gravou em julho de 1958. De um lado, havia Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Do outro, Bim Bom, dele mesmo. Não era nem a primeira gravação de João Gilberto nem o primeiro disco de bossa nova. Ele já havia gravado dois compactos com os Garotos da Lua, em 1951, e outro, solo, no ano seguinte.

A batida da bossa nova, por sua vez, aparecera no LP Canção do Amor Demais, gravado em abril de 1958 por Elizeth Cardoso. Nele, João Gilberto tocava violão em Chega de Saudade e Outra Vez. Apesar das treze faixas serem todas de Jobim e Vinicius, o LP não é de bossa nova. A "Divina" era uma cantora presa ao samba-canção, com suas ênfases óbvias e gastas.

A cápsula da invenção surge mesmo no compacto de 1958. A criação se dá em dois planos. Chega de Saudade havia sido composta por Jobim como um chorinho. Pois João Gilberto o transformou num samba enxuto, no qual o violão deixa de ser um mero acompanhante para dividir o primeiro plano com a voz. A letra é interpretada como quem fala, de modo íntimo. A melodia (de fundamento europeu) se amalgama à harmonia (com inspiração do jazz americano) e ao ritmo (que vem da África e se condensa no samba) para dar origem a outra coisa: um som que é uma arte.

No outro lado do disco está o segundo plano inventivo, o do João Gilberto compositor, autor de Bim Bom, a canção que não tem nada de baião. Alternando os sons "bim" e "bom", a letra diz:

É só isso o meu baião
E não tem mais nada não
O meu coração pediu assim, só.

A letra oscila entre a negativa absoluta e a afirmação de um resíduo solitário: "só isso", "não", nada", "não" de novo, e outra vez "só". O que resta, de concreto, são duas palavras, "baião" e "coração". Mas o que elas significam?

Antes de tentar responder, cabe outra questão: em qual instância o criador se manifesta mais: na interpretação que transforma Chega de Saudade de chorinho em samba, ou na autoria de Bim Bom? Desde 1958, João Gilberto segue as duas estratégias, mas dá preferência à primeira delas. Ele recompõe músicas tradicionais e contemporâneas. Trabalha com tudo, de sambas a boleros. Em português, inglês, italiano ou francês. Subtrai notas, altera o andamento, introduz silêncios, junta versos e muda as letras.

tirando os andaimes

O que resulta é algo bem distante do original. João Gilberto retira os andaimes da música-matriz para torná-la mais direta, objetiva e clara. Em Lígia, podou o próprio nome da moça do título, para evitar o derramamento de chamá-la em altos brados. Em Sampa, repetiu a palavra "alguma" logo no início: "alguma, alguma coisa acontece no meu coração" e mudou "a força da grana que ergue e destrói coisas belas" para "a força da grana que faz e destrói coisas belas".

Quando se pergunta a João Gilberto por que não compõe mais, sua explicação é singela e generosa: "Mas há tanta coisa bonita a ser consertada!". Ele prefere o trabalho modesto de polir a beleza que já existe a satisfazer o seu "eu" autoral. É um trabalho árduo. Em 1971, num show que fez na TV Tupi, ele interpretou Largo da Lapa, de Wilson Batista e Marino Pinto. A interpretação é maravilhosa. Mas ele acha que o encaixe entre a primeira e a segunda estrofes ainda não está bom. Por isso, quase quarenta anos depois, ainda não há registro em disco.

Com isso, o João Gilberto compositor ficou em segundo plano. Mas o panorama está mudando. Agora mesmo, foram lançados três CDs com Bim Bom. Bebel Gilberto, a filha do cantor, gravou-a sem violão em All In One. Adriana Calcanhoto cantou-a, com percussão do Olodum, em Partimpim Dois. E Ithamara Koorax interpretou-a em The Complete João Gilberto Songbook.

Antes delas, a música já fora gravada por Lena Horne, cantora americana de jazz. Ela fez uma temporada, em 1960, no Golden Room do Copacabana Palace. Chegou ao Rio sabendo a música e convidou João Gilberto a visitá-la na sua suite - cobriu-o de elogios e avisou que Bim Bom seria a única canção em português que interpretaria no show. Percebera a sua beleza antes de muitos brasileiros. Caso de Sérgio Porto, que, com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, era o cronista mais famoso da cidade. Ele publicou uma coluna dizendo que Lena Horne não deveria ter escolhido Bim Bom porque a canção não era em português...

Bim Bom também foi gravada por Charlie Byrd, Sergio Mendes, Ornella Vanoni, Stan Getz e Astrud Gilberto. As interpretações atestam a vitalidade de Bim Bom. Uma vitalidade que foi analisada em profundidade em Bim Bom - A Contradição Sem Conflitos de João Gilberto, o belo livro que Walter Garcia publicou em 1999. João Gilberto compôs Bim Bom em meados dos anos 50. Antes, portanto, de sair do Rio para a peregrinação que o levou a Porto Alegre, a Diamantina, a Juazeiro, a Salvador, e de volta ao Rio. Foi nesse percurso, descrito com brio por Ruy Castro em Chega de Saudade, que ele inventou a sua arte - e burilou Bim Bom.

canção em quatro línguas

Voltando à pergunta: o que significam "baião" e "coração", o que quer dizer "bim bom"? É do compositor Ronaldo Bôscoli a informação de que João Gilberto buscou mimetizar o balanço de lavadeiras, com bacias de roupas na cabeça, a caminho do rio São Francisco. De Bôscoli ao livro de Ruy Castro, e dele ao de Walter Garcia, a informação virou realidade. A mim, no entanto, João Gilberto disse mais de uma vez que essa história é folclore, que não aconteceu. A Edinha Diniz, a autora de Chiquinha Gonzaga: Uma História de Vida, ele contou que usou "baião" como sinônimo de "troço", "treco" ou, como dizem os mineiros, "trem". "Bim bom" seria então o espaço entre a sua "coisa" e o coração, entre a realidade e a afetividade, entre o objetivo e o subjetivo: a canção, o som, a arte.

Em Hô-Ba-Lá-Lá, João Gilberto também segue o caminho que vai e vem do coração à realidade e se materializa na canção:

É amor o hô-bá-lá-lá
Hô-bá-lá-lá uma canção
Quem ouvir o hô-bá-lá-lá
Terá feliz o coração
O amor encontrará
Ouvindo esta canção
Alguém compreenderá
Seu coração
Vem ouvir o hô-bá-lá-lá
Hô-bá-lá-lá
Esta canção

As canções de João Gilberto estão por ser descobertas. The Complete João Gilberto Songbook registra a existência de onze músicas de autoria dele. Mas não dá a letra de Undiú nem informa quem a escreveu. A canção é uma coautoria de João Gilberto com Jorge Amado. O romancista era amigo do compositor. Foi padrinho do casamento dele com Astrud Gilberto. Jorge Amado depois disse a Sergio Buarque de Holanda para receber João Gilberto, que queria pedir a mão da filha do autor de Raízes do Brasil, Miúcha, com quem veio de fato a se casar.

O título original de Undiú é Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, em Juazeiro. Foi composta no final dos anos 50 para integrar a trilha-sonora Seara Vermelha. O filme, baseado no romance de mesmo título de Jorge Amado, foi dirigido por Alberto D'Aversa em 1963. D'Aversa, um italiano que se radicou em São Paulo e trabalhou no Teatro Brasileiro de Comédia, chamou o maestro Moacir Santos para fazer a trilha-sonora. Ele pôs Lamento da Morte de Dalva no filme, mas esqueceu de colocar nos créditos que Jorge Amado fizera a letra. João Gilberto a gravou, com o título de Undiú, no seu álbum de 1973. Dos versos de Jorge Amado, restou uma palavra: "undiú".

The Complete João Gilberto Songbook também não traz a mais recente composição dele, Japão. Ela vem sendo trabalhada por João Gilberto desde 2004, depois de sua primeira turnê no Japão - e foi aplaudido em cena aberta durante 25 minutos, contados no relógio. Na turnê seguinte, uma das salvas de palmas se estendeu por 38 minutos ininterruptos. A canção, quadrilíngue (o verso em japonês quer dizer "Eu te amo Japão") está assim:

Je t´aime beaucoup, Japão
I love you
E te amo por que
O teu coração é cheio de amor
Anata ga suki Nipon
Je t´aime Japão
Te amo
I love you.
É só isso o seu baião.

Trechinho de Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa.

“Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delem que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida.

Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim.

Se ele estava com as mangas arregaçadas, eu olhava para os braços dele – tão bonitos, braços alvos, em bem feitos...

De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele. Que mesmo no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.”


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