terça-feira, 29 de setembro de 2009

PEÇA QUE A GENTE PASSA: JONH FRUSCIANTE

A canção Going inside foi gravada no disco solo “Ten record only water for ten days”, do talentoso guitarrista do Red Hot Chili Peppers, quando de sua aventura fora da banda. Jonh Frusciante (nascido no Queens, Nova York, no ano de 1970) escreveu uma letra marcada pela introspecção, pelo conflito diante da transitoriedade da vida. O guitarrista vivia, à época em que compôs a canção, um de seus momentos mais difíceis, quando se viu dominado pela heroína – consta que chegou a passar fome e nem mesmo tinha onde morar –, repetindo a experiência infeliz de Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot, e, sobretudo, a morte trágica por overdose de heroína de um dos primeiros integrantes da banda, Hillel Slovak. Frusciante resolveu usar da tecnologia para tornar sua voz apocalipticamente metálica ou eletrônica, assim como a música inteira tem um capeamento “mecânico”, apontando para a distopia, comum em obras de ficção científica como “Crash”, de J.G. Ballard, “1984”, de George Orwell, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley e “Do androids dream of eletric sheen?”, título pobremente traduzido para o português como “Blade Runner, O Caçador de Andróides”, dentre outros; contraria-se, portanto, a utopia de Thomas Morus. Um dos versos que melhor representam o estado de espírito do compositor, à época da composição de Going Inside é: “You don’t throw your time away sitting still/ I’m in a chain of memories”. Frusciante voltou ao Red Hot Chili Peppers depois de passar por um tratamento de desintoxicação. Mas continua o mesmo. Ou seja, “continua melhor”.
(Henrique Wagner)


ASSIM SE DIZ AXÉ: MÃE HILDA

Axé - Que volte a encerrar as nossas bênçãos, as nossas preces, que aquele que ouvir a palavra Ase sinta-se abençoado e pleno de graça. Que um homem de Ase seja um Sacerdote e não um símbolo sexual.

Para o yorùbá, o verbo mais importante é realizar. Um homem vem a Ilu Aiye, o Planeta Terra, para realizar, para fazer algo, para deixar sua marca e sua lembrança.

É assim que ele será recordado por sua descendência, através de suas realizações. Nada é feito sem o apoio dos Òrìsà, porque é através da força que flui deles para nós que esta realização ocorre.


Ase significa isso: Awa - nós / se - realizar. Ase, nós realizamos, com a ajuda, a força e o poder de nossa crença nos Òrìsà e nos nossos Ancestrais. Hoje esta nossa palavra de significado mágico se banalizou, virou música chula, de bom ritmo e de forte apelo sexual.

É uma palavra sagrada, tão importante quanto Amem, Inshallah, Maktub, Aleluia, Salam, Shalon, Om Shanti, Assim Seja e tantas outras, em tantas línguas, está por aí desvirtuada, destituída de seu significado religioso, servindo de apelo comercial e chamariz sexual.

Conclamamos os Sacerdotes afro descendentes a sair em campo esclarecendo, defendendo, e se reapossando de nosso Ase! Asé, palavra yorubá, significa: Nós realizamos, e não podemos mudar a semântica da palavra, alterar a semiótica do idioma yorubá apenas para agradar teimosos que insistem em discutir publicamente seu significado. Que o Axé dos orixás atinja a alma de cada um buscador de verdades absolutas.


A multa municipal para o lirismo sentimental [Eça de Queiroz]


No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher.Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) — e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim à larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura!


Começa por dizer:

— Que é bom amar no campo, à tarde e a sós!

Depois continua:

— Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!....

Por fim acrescenta:

— Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase, longe de quanto é vil...

(Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as ocupações domésticas, etc.).

Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas.

Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações:

Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa;

Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras;

Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las.

Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade. Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das ruas — porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranqüilidade virgem?

Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar idéias desonestas?

Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinqüenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelével, uma série de desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura!

Pedimos pois:

Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades;

Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos — e que tanto o ébrio que não sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 réis à Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.


sábado, 19 de setembro de 2009

Alguns Toureiros [João Cabral de Melo Neto]



A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.



WIKIPEDIA EXPLICA ARROCHA

Bordel (Di Cavalcanti)

O arrocha é um gênero musical e dança brasileiro originário da Bahia. Ele veio proveniente da seresta, influenciado pela música brega e o estilo romântico, com modificações que o tornaram, segundo seus adeptos, mais sensual. Estilo musical originário da Bahia, nasceu na cidade de Candeias. Não é necessário ser tocado por uma banda completa. Normalmente são usados: um teclado arranjador, um saxofone e uma guitarra.


Trata-se de um movimento social focado nas classes inferiores. Assim como no Rio, os bailes de Arrocha acontecem geralmente em clubes sociais de bairros mais humildes de Salvador e das cidades do interior da Bahia e de outros estados do nordeste. Atualmente esse movimento começa a se espalhar também para o centro-sul do 
Brasil.

Por tratar-se de um estilo musical apreciado pela população da periferia, começou logo a ser recriminado pela parte elitizada da sociedade, que marginalizou o Arrocha rebaixando o ritmo/movimento restrito ao povo "ignorante das feiras populares". Esse foi o começo do Arrocha. Com sua popularização e, principalmente após um grande canal de TV do estado da Bahia ter realizado um festival nominado "Reino do Arrocha"[1], no Parque de Exposições de Salvador, muitas emissoras de rádio chamadas "de elite" passaram a incluir em suas programações a "nova onda", como também é conhecido o ritmo musical. Muitos cantores se destacaram cantando Arrocha, como Nara Costa "[2], Silvano Salles, Márcio Moreno, Asas Livres, Grupo Arrocha, Tayrone Cigano, Toque Novo, Sandro Lúcio, Latitude 10, Bonde do Maluco, Trio da Huanna, entre outros.


Hoje, assim também como o Funk no Rio, o Arrocha já conseguiu mais espaço na mídia e vem ganhando mais adeptos em outras classes sociais principalmente por se tratar de um produto que vende e que faz muito sucesso.


Minha Boêmia [Arthur Rimbaud]

Eu caminhava, as mãos nos bolsos desgastados;
também meu paletó fazia-se ideal;
ía sob o céu, Musa! e era o amante leal!
Ah que esplêndido amor que então foi sonhado!

Meus únicos calções tinham um grande furo.
- Pequeno Polegar que entre rimas discursa,
via minha taverna às margens da Grande Ursa,
no escuro!

Sentado eu escutava, à beira dos caminhos,
as meigas noites de setembro; e tinha o vinho
do orvalho sobre a fronte – ó tônico perfeito!

E ali rimas tecia entre vultos fantásticos,
com a minha lira – meu sapato e seus elásticos
que eu fazia vibrar, tendo um pé contra o peito.



O Intelectual Anônimo [Milton Santos]

Por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam.O intelectual verdadeiro é o homem que procura, incansavelmente, a verdade, mas não apenas para festejar intimamente, dizê-la, escrevê-la e sustentá-la publicamente.


É um fato conhecido que, em épocas de obscuridade, os mandões do momento o proíbam ou o inibam de fazê-lo, gerando como conseqüência a listagem daqueles que se tornam mártires do seu próprio pensamento, como Unamuno, durante a Guerra Civil Espanhola, e dos que não renunciam ao dever da verdade, ainda que deixando para pronunciá-la quando retornam os regimes de liberdade. Mas é isso mesmo o que distinguiu a universidade de outras instituições. Por isso, a atividade intelectual jamais é cômoda e a exigência de inconformismo, que a acompanha, faz com que a sociedade reconheça os seus portadores como porta-vozes das suas mais profundas aspirações e como arautos do futuro. Por isso mesmo, observadores da universidade, no passado e no presente, temem por seu destino atual, já que são raras as manifestações de protesto oriundas de suas práticas, deixando, às vezes, a impressão de que a academia pode preferir a situação de mera testemunha da história, em lugar de assumir um papel de guia em busca de melhores caminhos para a sociedade.Quando os intelectuais renunciam a esse dever - sejam quais forem as circunstâncias -, um manto de trevas acaba por cobrir a vida social, uma vez que o debate possível torna-se, por natureza, falso.

Essa poderia também ser a definição mais desejada da vida acadêmica em todos os lugares. Mas a verdade é que a forma como, nos últimos tempos, se está organizando a convivência universitária acaba por reduzir dentro dela o número de verdadeiros intelectuais, mesmo se aumenta o de cientistas e de letrados de todo tipo. A vida universitária é cada vez mais representativa de uma busca de poder sem relação obrigatória com a procura do saber. E isso corrompe, de alto a baixo, as mais diversas funções da academia, inclusive ou a começar pela trilogia agora ambicionada pelas atividades de ensinar, pesquisar e transmitir à sociedade o trabalho intelectual.

Um primeiro resultado é, sem dúvida, o encolhimento do espaço destinado aos que desejam produzir o saber, e não é raro que esse movimento seja acompanhado por uma verdadeira hostilização, da parte dos que mandam, em relação aos que teimam em colocar em primeiro plano a busca da verdade. Constata-se, desse modo, uma separação, cada vez maior, entre estes e o conjunto de docentes viciados em poder e que a ele se agarram por longos e longos anos, formando um grupo com tendência ao isolamento e à auto-satisfação, bem mais preocupado com as perspectivas de manter esse poder do que com a construção de uma universidade realmente independente e sábia. A esses colegas preferimos chamar de buroprofessores. Na medida em que a noção de poder se arraiga como algo normal, tais comportamentos parecem banalizar-se, tomando diferentes feições no processo de reduzir as possibilidades de um trabalho independente e de convocar, até mesmo, espíritos promissores para a aceitação de um trabalho viciado, exatamente pela ingerência cada vez mais generalizada das lógicas de poder. Não sabemos em que medida será útil buscar a relação entre as ações acima enumeradas e incluí-las no conjunto das realidades que atualmente produzem o grande mal-estar ressentido nas universidades brasileiras. O certo é que esse conjunto de fatos conduz, com mais ou menos força, segundo os lugares, ao enfraquecimento do espírito acadêmico, e isso acaba por contaminar o ensino, a pesquisa, as relações entre colegas e as relações das faculdades frente à sociedade. A força autêntica da universidade vem do espírito acadêmico partilhado por professores e alunos e cuja preservação seria de esperar que as autoridades universitárias sejam capazes de conduzir. É essa fortaleza da instituição acadêmica o garante da autonomia na produção do saber, assegurada através da liberdade de cátedra e da liberdade acadêmica efetiva, conferida a cada professor, a despeito da vocação, às vezes, autoritária dos colegiados e da prática de falsificação da democracia acadêmica. A força exterior da universidade deriva de sua força interior e esta é ferida de morte sempre que a idéia e a prática do espírito acadêmico são abandonadas em favor de considerações pragmáticas. Na grande crise em que o país agora se confronta, torna-se evidente e clamorosa a ausência de uma discussão mais intensa e mais profunda, partindo da academia, em suas diversas instâncias, e que, como em outras ocasiões na vida de todos os povos, mostra o papel pioneiro da universidade na construção dos grandes debates nacionais. A apatia ainda está presente na maior parte do corpo professoral e estudantil, o que é sinal nada animador do estado de saúde cívico dessa camada social cuja primeira obrigação é constituir, como porta-voz, a vanguarda de uma atitude de inconformismo com os rumos atuais da vida pública.

ALEGRIA!

A alegria é a exteriorização de um sentimento, que pode ser verdadeiro ou falso. É verdadeiro quando o que se manifesta corresponde ao que se sente. Quando nos sentimos felizes e satisfeitos e exteriorizamos essa satisfação com alegria que contagia os outros. E é falso quando o que se manifesta não corresponde ao que se sente. Quando nos sentimos deprimidos ou preocupados, mas na presença dos outros exprimimos alegria.

A alegria é então uma manifestação social, um modo de ser ou de estar permanente — conforme as características psicológicas de cada um — ou ocasional — conforme as circunstâncias do momento —, que se opõe à tristeza, e que se considera apenas na relação de uma pessoa perante as outras.

A alegria íntima, individual e pessoal, não é alegria, mas sim felicidade, da mesma forma que a igual tristeza não é tristeza, mas sim infelicidade.

Mas existe diferença entre o que nós sentimos e aquilo que queremos que os outros pensem que sentimos. Por isso falsificamos a exteriorização e podemos estar felizes e expressar tristeza ou estar infelizes e expressar alegria. Esta falsificação pessoal dos sentimentos é tão comum e em algumas pessoas tão intensa que elas próprias acabam por serem influenciadas pela mentira criadas por elas mesmas. E ficam sem saber se estão felizes ou infelizes, nem tristes ou alegres.

Existem momentos — raros — em que a nossa felicidade é tanta que não nos preocupamos com o que a nossa alegria possa causar nos outros. E existem — também raros — momentos em que inversamente é a nossa infelicidade que nos preenche a ponto de esquecermos os outros. O excesso de alegria, quando real, causada pela felicidade, provoca inveja, pois todos desejam ser mais felizes que os outros, e quando falsa causa dó, pois ninguém tem muito apreço por alguém que está excessivamente alegre. O excesso de tristeza, quando provocado por uma infelicidade, causa compaixão, porque ninguém gosta de ver os outros sofrerem, mas quando falsa, causa ódio, porque ninguém gosta de ver os outros apelarem ao sentimentalismo para alcançarem os seus fins.

Como os sentimentos e emoções estão na nossa natureza física também os sentimentos humanos estão na nossa natureza humana, e por isso, todos nós, uns mais outros menos, temos momentos de felicidade e momentos de infelicidade que podemos exteriorizar, ou não, com alegria ou com tristeza, porque vivemos em sociedade e sabemos que tal como nós, os outros também sentem inveja, dó, compaixão, ódio e muitos outros sentimentos que nos poderão ser benéficos ou maléficos, e que por isso os usamos de uma forma interessada dentro das nossas capacidades, sem esquecer que todos eles existem naturalmente, mas em contraposição à razão.

Trecho: Sermões, Antônio Vieira.

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda.


Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses, a quem nos princípios as destes, e bastava dizer a quem as destes, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando dais, não vos arrependeis: Sine poenitentia enim sunt dona Dei? Mas, deixado isto a parte, tirais estas terras àqueles mesmos portugueses, a quem escolhestes, entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. — E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo (Jos. 7,9)? E que fareis — como dizia Josué — ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra
: Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!
Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros: Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus — que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis — queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvene dormiam, et si mane me quoesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quoesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. — O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.

TOM ZÉ EXPLICA O BERIMBAU


O coordenador do curso de medicina da UFBA declarou que...


Tom Zé - Fale devagar que eu ouço mal. 

O curso de medicina da UFBA teve um resultado ruim no Enade. O coordenador do curso, Antônio Dantas, atribuiu isso ao "baixo QI" dos baianos. O que o senhor acha disso? 

Tom Zé - (às gargalhadas) Que maravilha. E ele não é baiano, não? 

É baiano. 

Tom Zé - Essa declaração não merece nem...é uma coisa inocente, completamente sem base em coisa nenhuma. Nenhuma população de nenhum canto do Brasil pode ser avaliado como (tendo) baixo QI. O que acontece é que em alguns momentos alguns grupos são particularmente influenciados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos. Mas aí pode aparecer na Bahia, em qualquer lugar; isso é bobagem. 

Ele também disse que o baiano só toca o berimbau porque tem um corda só; se tivesse mais de uma, não conseguiria tocar. O senhor ao que parece toca outros instrumentos além do berimbau, não? 

Tom Zé - (risos) É...naturalmente. Não é só isso. Primeiro que o berimbau que compõe uma....tá gravando? 

Sim, estamos. 

Tom Zé - Deixa eu dizer editado pra você botar aí: o berimbau faz parte de uma cultura que enriquece a Bahia e o fato dele ter uma corda só é um dado complicador que fala bem dos que tocam esse instrumento ao invés de falar mal. É uma exigência maior de sensibilidade para tocar o berimbau, é uma exigência maior de sensibilidade e adequação. Precisa compreender qual é a função dele dentro da mítica da capoeira porque o berimbau tem uma microtonalidade especialmente difícil para pessoas educadas na escala diatônica ocidental. O berimbau é uma coisa muito mais complexa do que essa coisa de uma corda só. A riqueza timbrística dele e a funcionalidade dele...o berimbau não foi feito para tocar música ocidental, foi feito para outra concepção de mundo. É isso que se precisa compreender. 

Há um certo preconceito ao dizer isso, que o baiano toca o berimbau só porque tem uma corda? 

Tom Zé - Não, tem uma falta de entendimento da delicadeza da matéria (risos).



Powered By Blogger