sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Poesia do Cupido, Estrela Ruiz Leminski.






Tirar o pé do chão
esquecer o que é certo
A minha coragem
é a minha falta de ação


Olho o teu peito e sinto o deserto
Fugir e ter medo de você
cometer o erro de te querer
Sem querer eu vejo o meu
medo de mim em você






This is Amy Winehouse!

Amy Jade Winehouse (Londres, 14 de setembro de 1983) é uma cantora e compositora de soul, jazz e R&B do Reino Unido. O primeiro álbum de Amy, Frank, foi muito bem recebido, comercial e criticamente. O segundo álbum, de 2006, Back to Black, deu a ela seis indicações ao Grammy awards, das quais ela venceu cinco.

Os problemas de Amy com drogas e álcool têm sido noticiados pelos meios de comunicação ao redor do mundo em 2008. Em junho de 2008 o pai de Amy revelou aos jornalistas que ela estava com uma possível arritmia cardíaca devido a ser usuária de cigarro e cocaína.

Em 2009 Amy Winehouse garantiu estar se recuperando. Nesse ano afirmou pretender lançar um album cujo nome será Stronger Than Me; de namorado novo, declarou-se muito feliz e confirmou ter largado as drogas.

Infância e adolescência

Amy Winehouse nasceu em uma área suburbana de Southgate, bairro de Londres, numa família judia de quatro elementos com tradição musical ligada ao jazz. Seu pai, Mitchell Winehouse, era motorista de táxi e sua mãe, Janis, farmacêutica. Amy tem ainda um irmão mais velho, Alex Winehouse. Cresceu no subúrbio de Southgate e fez os estudos na instituição de ensino Ashmole School.

Amy passou a infância e parte de sua adolescência presenciando os abusos de seu pai perante sua mãe. Numa entrevista a uma rede de televisão inglesa, o pai da cantora revelou que em 1983 iniciou um caso com uma colega de trabalho, que se tornou sua esposa em 1996. "Amy e seu irmão sabiam disso e presenciavam o sofrimento da mãe. Eles chamavam-na de 'a mulher do papai no trabalho'", afirmou ele em entrevista. Na canção “What It Is About Men” a cantora se refere a o que sua mãe teve de passar e ao comportamento de "homem de família" do próprio pai.


Início da carreira


Por volta dos dez anos, Winehouse fundou uma banda amadora - e de curta vida útil - de rap chamada Sweet 'n' Sour, as Sour. Ela descreveu a banda como sendo "the little white Jewish Salt 'n' Pepa" ("a pequena Salt 'n' Pepa judaica").

Ganhou a sua primeira guitarra elétrica aos 13 anos de idade e por volta dos 16 anos já cantava profissionalmente ao lado de um amigo (depois namorado), o cantor de soul Tyler James. Estréia
O seu álbum de estréia, "Frank", lançado em outubro de 2003, foi produzido por Salaam Remi. Diversas canções do álbum possuem influências do jazz e, exceto por duas, todas as canções foram co-escritas por Winehouse. O álbum foi bem recebido pela crítica e sua voz foi comparada à de Sarah Vaughan, Macy Gray, entre outras. Frank foi indicado para o Mercury Music Prize 2004.

Back to Black

O seu segundo álbum, "Back to Black", recebeu 6 indicações para o Grammy 2008, das quais venceu 5: melhor canção, melhor gravação, artista revelação, melhor álbum pop, melhor interpretação feminina.[4][5] Back to Black atingiu grande sucesso comercial, sendo o disco mais vendido de 2007(mais de 5 milhões de cópias no ano) e com mais de 10 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro até o primeiro semestre de 2008.

Durante o EMA 2007, Amy recebeu um prêmio surpresa: foi feita uma votação entre os artistas de mais destaque nesse ano para saber qual o artista que merecia ganhar, tendo sido Amy a mais votada. Artistas como Rihanna, Chris Brown e Fergie disseram que ela merece uma vez que é original, tem uma voz incrível e um ritmo único.

Outras premiações

Em 14 de fevereiro de 2007 ganhou um Brit Award por Melhor Artista Feminina Britânica entregue pela Baby Spice, Emma Bunton. Quatro meses depois, Winehouse, recebe o Mojo Awards pela melhor canção do ano.



O vibrafone brilhante e ultra cool de Bobby Hutcherson. [por Ed Motta]



O vibrafonista norte-americano Bobby Hutcherson em ação: compositor inspiradoAo lado do genial pianista de avant-garde jazz Cecil Taylor, a atração de jazz mais interessante do festival Tim no final desse mês é o vibrafonista norte-americano Bobby Hutcherson. Apesar de uma carreira coerente e sólida no mundo do jazz, vários discos importantes, Hutcherson vem como convidado do organista Joey De Francesco, que é cheio de técnica, tudo certinho, limpinho, como manda o figurino do jazz atual, que tecnicamente "evolui" quase para o esporte, uma ginástica tecnicista e clean. Não é exatamente minha xícara de chá o jazz atual...Bobby Hutcherson começou como sideman em discos de músicos que na linguagem jazzística procuravam novos horizontes, música livre. Dois encontros que colocam o vibrafone de Hutcherson entre as cabeças do chamado "new thing", mais tarde post-bob, free jazz, etc: o pianista Andrew Hill e o saxofonista Eric Dolphy. Em 1964, Bobby empresta seu talento a um disco que se equivale no cinema ao Acossado, de Godard - o divisor de águas Out To Lunch, de Eric Dolphy.

Em 1964, empresta seu talento para o disco Out To Lunch, de Eric Dolphy. No ano seguinte grava seu primeiro disco, Dialogue, pelo selo Blue Note, tendo Andrew Hill como braço direito e grandes músicos como o trompetista Freddie Hubbard e o saxofonista Sam Rivers, um dos meus favoritos.

Hutcherson tem forte base nos conceitos do free jazz, mas é um compositor inspirado em temas doces como seu grande clássico Little B´s Poem que anos depois teve versão com letra do organista Doug Carn e sua mulher, a diva soul jazz Jean Carn. Bobby tem trânsito livre no lirismo e no abstracionismo assim como o saxofonista Jackie McLean, ou mesmo o famoso Freddie Hubbard que gravou obras mais densas e outras mais comerciais.

Seguiu nos anos 60 e 70 gravando grandes discos como Oblique (67), Total Eclipse (68) e Montara (75), usando efeitos no vibrafone, flertando com a música latina e o soul, e participando de discos antológicos como os do saxofonista Harold Land para o selo Mainstream, nunca lançados em CD.

Bobby Hutcherson é dos jazzistas que optaram pelo caminho verdadeiramente artístico, quase sempre interpretando seus próprios temas e idéias, e não a enésima versão de Body and Soul ou Stella by Starlight. É triste perceber que freqüentando os parcos espetáculos de jazz no Brasil, o público dito jazzófilo (terrível isso, jazzófilo) tem grande conivência com essa obviedade que assola mesmo os músicos brasileiros dedicados ao gênero. Nos poucos lugares que existem para se tocar jazz, a regra é interpretar as manjadas, as mesmas. Ninguém quer ouvir o novo, o autoral. É muita preguiça mental, não?


Perfil do Orkut: Angélica Santos.



aniversário: 12 abril

idade: 21

idiomas que falo: Espanhol

interesses no orkut: amigos, companheiros para atividades, contatos profissionais

quem sou eu:

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Autor: Oswaldo Montenegro

filhos: não

etnia: afro-brasileiro (negro)

religião: Tenho um lado espiritual independente de religiões

visão política: esquerda-liberal

humor: extrovertido/extravagante, inteligente/sagaz, simpático

orientação sexual: heterossexual

estilo: alternativo, casual, na moda, urbano

fumo: não

bebo: de vez em quando

cidade natal: Salvador - Bahia

paixões: MInha Família!!!

esportes: Futebol, Voleibol,...

atividades: Academia, Dança, andar de bicicleta, assistir filmes e ler de tudooo...

livros: Memorial do Convento, Raízes do Brasil, Nação Hip HOp, Cara, CadÊ o meu país?, Mujer en Guerra, Quien soy yo?...

música: Ouço tudo mas me identifico com poucas... Para cada momento uma música.

programas de tv: CQC, Programa do Jô, A grande Família, Jornais, adoroo filmes...

filmes: Filhos do Paraíso(um filme do país Irã), A Cor Púrpura, O jardineiro Fiel, Hotel Ruanda, Farenhait, Efeito Borboleta I e II; Crash; A vida de Davig Guiller, Documentário Olhos Azuis, ônibus 157, O diabo Veste Prada, Em Busca da Felicidade, Mandela: Luta pela Liberdade, Ensaio sobre a Cegueira, LULA O filho de Brasil, Un Soño Posible, Muito Bem Acompanhada, Ciudadano Ejemplar, Origem, COMER REZAR e AMAR.

cozinhas: Adoro fazer doces, musses, pudim, torta... amo as comidas de D. Nalva e Pirão da minha mãe... Haa adorooo o Acarajé do Extra da Paralela...Tudo de BOm! rsrs

estado: Bahia

país: Brasil

A Liga da Justiça.

Antes mesmo da Liga foi criada a Sociedade da Jusiça da América, formada pelos precursores dos grandes heróis da DC: o primeiro Lanterna Verde (Alan Scott), Joel Ciclone (Flash original), Falcão da Noite, Starman (primeiro), Dr. Meia-Noite, Pantera e outros. Batman e Superman eram apenas membros reservas e faziam participações especiais nas histórias da equipe, porque já estavam estabilizados no gosto do público e iriam ofuscar os outros membros. Tudo isso lá pelos anos 40, a chamada "Era de Ouro". Quando se deu início a "Era de Prata" dos quadrinhos, os heróis que conhecemos melhor começaram a surgir, Flash (Barry Allen), Lanterna Verde (Hal Jordan), Ajax, etc. Neste momento a Sociedade da Justiça foi jogada para uma Terra Paralela, como se nada tivesse relação com as origens dos novos personagens. Isso ficou assim, até a mega-saga que pôs ordem nessa bagunça toda: Crise nas Infinitas Terras.

A primeira formação da Liga da Justiça contava com Lanterna Verde (Hal Jordan), Flash (Barry Allen), Ajax o marciano, Canário Negro e recém chegado Aquaman. A tônica das histórias baseiam-se nas primeiras aventuras da equipe, suas diferenças, o lado humano dos personagens, que está sendo bastante enfocado. Mais tarde, a Liga começa a receber novos membros, como Nuclear, Falcão da Noite e Arqueiro Verde, que acabam deixando a equipe um tempo depois. É justamente quando os personagens mais expressivos e sérios abandonam o grupo, que a Liga entra em sua fase cômica, como ficou conhecida. alguns personagens desconhecidos, histórias voltadas completamente para o humor, onde prevaleciam disputas internas e a falta de organização da equipe, renderam situações inusitadas e muito engraçadas. Porém, muitos não entenderam a proposta e a Liga da Justiça perdeu muito do seu público. Mas a virada veio há algum tempo, com o grupo sendo novamente reunida com o que tem de melhor, os mais poderosos heróis da DC: Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Ajax, Aquaman, Flash (Wally West) e Lanterna Verde (Kyle Rayner). Os justiceiros receberam novos membros, mas sem perder os antigos, como: Aço, Homem-Borracha, Caçadora, Órion, Grande Barda, Zauriel e Oráculo. Tudo isso graças a boa equipe de roteiristas e desenhistas, que colocaram novamente o nome da Liga da Justiça entre os grandes supergrupos dos quadrinhos.



sábado, 1 de janeiro de 2011

Triste Bahia, Ildásio Tavares.



Tenho andado, trafegado pelas ruas favelizadas de Salvador; pelo asfalto esburacado; pela solidão babelizada de não nos vermos mais a não ser em enterros ou efemérides significativas. Tenho assistido ao esboroar-se de uma das cidades mais amenas que já conheci e presenciado o embrutecimento de uma gente antes doce e cordial, envolvida pela violência; atolada em condições subhumanas de existência; uma gente que já foi unida e solidária e de Itapuã a Paripe falava mais ou menos a mesma língua, terra da felicidade.

Todo mundo se conhecia em Salvador. Numa geografia aprazível os bairros se distribuíam pelas colinas, cada uma com uma infra-estrutura própria. Onde eu morava, por exemplo, no Boulevard América, havia uma cocheira de onde vinha o leite, os vendedores passavam com a verdura, o peixe, cavala, peixe, a gorda negra de manhã, mungunzá, lelê, a camionete da Sorveteria Primavera passava no horário certo, os meninos vendendo taboca, o amolador de facas com seu realejo e na esquina da entrada o Armazém de Mendes vendia tudo na base do caderninho para pagar no fim do mês.

Os bondes rolavam nos trilhos, 1 Nazaré, 2 Barra, 7 Federação, 14 Amaralina. Havia as opções perfeitas para tudo. De refrigerante o famoso Guaraná Fratelli Vita que ainda oferecia a gasosa de maçã e a de limão que eu bebia escondido em casa, enchendo as garrafas de água até que um dia uma visita refugou e tomei uma bela surra depois.

As lojas do comércio eram personalizadas. A gente ficava amigo dos donos da loja. A Ernesto, por exemplo. Fiz meus primeiros óculos ali na Piedade, receitados por Dr. Marback, um monumento da oftalmologia, 1949. E nunca mais deixei de fazer óculos na Ernesto. Griffe de boa qualidade, seu Ernesto sério, austero, ele mesmo atendendo a freguesia; ele mesmo garantindo o nível do produto.

Mais tarde eu iria conhecer Bubba e Willy, lá mesmo na loja e Liselotte na ACBEU, vistosamente bela, toda de negro, do alto de uma varanda, fumando um cigarro, vejam. Lise foi a primeira menina que eu vi fumando em público na minha vida, 1956, e sua imagem, loura do alto da varanda, cigarro nos dedos, nunca saiu de minha cabeça. A Ernesto não era uma ótica despersonalizada. Como não era A Suprema Móveis do meu amigo Leão, a Foto Jonas de meu tio Vivaldo que era presidente do Ipiranga e botava os sobrinhos todos pra jogar no juvenil. Me lembro que eu ia pra Fonte Nova e dizia ao cara da entrada no campo, vou ficar com meu Tio Vivaldo, ele abria o portão e eu via o jogo do banco, era uma glória.

Lojas como as Duas Américas, A Florensilva de seu Florentino, O Adamastor do pai de Glauber, a Civilização Brasileira de Dmeval Chaves.Jornais como os Diários Associados de Odorico Tavares, A Tarde de Jorge Calmon. O dusty miller da Cubana? Ou o carnaval no Bahiano, Associação e Yacht e de botar cadeira na rua na Av. Sete pra assistir as batucadas, os Filhos de Ghandy, Mercadores de Bagdá, os caretas. As matinés do Excelsior, Glória, Guarany. A cidade era proporcional a si mesma. Desgovernou-se. Desandou. Assusta.

Pílulas da Clínica Psico-Farmacêutica do Paulo Coelho.


Assim devem fazer vocês: manterem-se loucos, mas comportados como pessoas normais. Corram o risco de ser diferentes, mas aprendam a fazê-lo sem chamar a atenção.

Algumas vezes temos que decidir entre uma coisa à que se está acostumado e outra que nos agradaria conhecer.

Quando todos os dias resultam iguais é porque o homem deixou de perceber as coisas boas que surgem em sua vida cada vez que o sol cruza o céu.

Quando cresceres, descobrirás que já defendeste mentiras, enganaste-te a ti mesmo ou sofreste por tolices. Se és um bom guerreiro, não te culparás por isso, mas também não deixarás que teus erros se repitam.

Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo o que nos faz infelizes. O instante mágico é o momento em si que pode ou não mudar toda nossa existência.

Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.

A culpa feminina, por Márcia Tilburi.


À famosa pergunta de Freud “o que quer uma mulher?” podemos responder: livrar-se da culpa. Mas vamos devagar: o que eu, em pleno século 21, livre financeira e sexualmente, dona do meu corpo, autora do meu projeto de vida, fiz pra me sentir culpada? Embora nossa cultura já viva certa democracia entre gêneros, a culpa continua sendo característica da subjetividade das mulheres muito mais do que dos homens. Dizer “sou mulher” é quase o mesmo que dizer “a culpa é minha”.


A culpa feminina não existiu desde sempre e jamais foi essencial. Não é impossível que tenha sido inventada para que as mulheres soubessem bem qual o seu lugar em uma sociedade de homens. A filosofia não se ocupou muito da questão até que F. Nietzsche, filósofo morto na virada do século 19 para o 20, sustentou uma contundente crítica da moral vigente como análise do sentimento de culpa. Ele entende a culpa como o ressentimento que em vez de ser lançado para o outro, é dirigido a si mesmo. Ela nasce de uma obrigação de fazer promessas que se transforma em incapacidade de cumpri-las e daí passa a valer como dívida que, impagável, se volta contra quem a contrai.


O ressentimento é uma espécie de peso morto que carregamos nos ombros sem que sirva a nada além de pesar. Ora, o que carregamos é o passado que não conseguimos esquecer nas camadas mais profundas da linguagem. Mulheres contemporâneas são herdeiras de uma vasta tradição simbólica que inclui mitos como Eva, a culpada da expulsão do paraíso que implica o ditado de que por trás de um grande homem há uma grande mulher, e Pandora que se assemelha à mãe onipotente culpada dos sofrimentos de seus filhos.


Mas a coisa não para por aí. Mesmo sem ser esposa ou mãe, uma mulher que deseje ser, por exemplo, amante, pode se sentir culpada em relação ao desamor do marido ou namorado por não ter, por exemplo, o corpo que ele deseja. Perguntar a si mesma se, ao contrário, “ele a agrada” não é possível para quem sente culpa. Já que o culpado precisa sempre pagar alguma coisa que ele não está devendo. Mas o que, tão livres, tão independentes, as mulheres de hoje ainda podem dever? Por trás das armadilhas dos mitos está a idéia greco-medieval de que a mulher é um macho falido. A natureza quando não tem força pra fazer um homem faz uma mulher. Culpa de quem?


A culpa aparece assim como um artifício infinito. Uma máquina poderosa de produzir dívidas inexistentes, pois se existissem realmente bastaria pagá-las ou pedir mais prazo, responsabilizando-se pelo que, de fato, se deve. No entanto, há certo prazer na culpa, justamente o da irresponsabilidade que afasta da convivência com o desejo e coloca a pessoa no lugar de uma vítima dos desejos alheios.


Percebemos que a estrutura da culpa é paradoxal. Nos tempos da liberdade feminina, uma mulher pode se sentir culpada de não querer ser esposa, mãe ou amante, ou por simplesmente ser bem sucedida. Como se seu sucesso a tornasse devedora de marido e filhos que muitas vezes ela não tem. A culpa pode aparecer ao assumir um desejo que não lhe foi autorizado. Acontece que a culpa surge exatamente para eliminar o desejo. Está, assim, na contramão da responsabilidade.


Pode, no entanto, parecer que as mulheres se sintam culpadas por serem excessivamente responsabilizadas. Mas não é verdade. Se a responsabilidade é um valor ético objetivo que pode ser juridicamente medido, a culpa é apenas um sentimento de quem, não tendo porque carregá-lo, o faz por aceitar a posição de vítima que pode ser bem mais confortável do que a de quem se responsabiliza por seus desejos. Artificial, a culpa aparece como algo que eu lanço sobre o outro para disfarçar aquilo de que eu mesmo não posso ser responsável. O culpado culpa o outro e a si mesmo. O culpado é, assim, um covarde que se disfarça de vítima e que encontra sua comunidade de culpados, deprimidos e entristecidos contra um mundo supostamente hostil. Fica mais fácil culpabilizar os outros do que responsabilizar-se. Mais fácil endividar o outro e a si mesmo do que pagar os custos da própria vida.


Culpados aqui e ali exigem que ajudemos a carregar seus fardos. Jogam seu peso sobre os ombros próprios e os dos outros. Bem que podiam trocar tudo isso pelas asas do desejo que, em nós, estão prontas a se abrir, deixando tudo mais leve e permitindo voar e ver mais longe.

O impulso pro vôo vem da coragem da responsabilização.


A importância do ato de ler, Paulo Freire.

A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia – e até onde não sou traído pela memória –, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, e re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores.

A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber – se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros – o do sanhaço, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; ás águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos, na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas, dos jasmins –, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada; o amarelo-esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. (...)


Daquele contexto – o do meu mundo imediato – fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar. (...)


Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do meu mundo imediato que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra.


A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz.

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