sábado, 1 de janeiro de 2011

Triste Bahia, Ildásio Tavares.



Tenho andado, trafegado pelas ruas favelizadas de Salvador; pelo asfalto esburacado; pela solidão babelizada de não nos vermos mais a não ser em enterros ou efemérides significativas. Tenho assistido ao esboroar-se de uma das cidades mais amenas que já conheci e presenciado o embrutecimento de uma gente antes doce e cordial, envolvida pela violência; atolada em condições subhumanas de existência; uma gente que já foi unida e solidária e de Itapuã a Paripe falava mais ou menos a mesma língua, terra da felicidade.

Todo mundo se conhecia em Salvador. Numa geografia aprazível os bairros se distribuíam pelas colinas, cada uma com uma infra-estrutura própria. Onde eu morava, por exemplo, no Boulevard América, havia uma cocheira de onde vinha o leite, os vendedores passavam com a verdura, o peixe, cavala, peixe, a gorda negra de manhã, mungunzá, lelê, a camionete da Sorveteria Primavera passava no horário certo, os meninos vendendo taboca, o amolador de facas com seu realejo e na esquina da entrada o Armazém de Mendes vendia tudo na base do caderninho para pagar no fim do mês.

Os bondes rolavam nos trilhos, 1 Nazaré, 2 Barra, 7 Federação, 14 Amaralina. Havia as opções perfeitas para tudo. De refrigerante o famoso Guaraná Fratelli Vita que ainda oferecia a gasosa de maçã e a de limão que eu bebia escondido em casa, enchendo as garrafas de água até que um dia uma visita refugou e tomei uma bela surra depois.

As lojas do comércio eram personalizadas. A gente ficava amigo dos donos da loja. A Ernesto, por exemplo. Fiz meus primeiros óculos ali na Piedade, receitados por Dr. Marback, um monumento da oftalmologia, 1949. E nunca mais deixei de fazer óculos na Ernesto. Griffe de boa qualidade, seu Ernesto sério, austero, ele mesmo atendendo a freguesia; ele mesmo garantindo o nível do produto.

Mais tarde eu iria conhecer Bubba e Willy, lá mesmo na loja e Liselotte na ACBEU, vistosamente bela, toda de negro, do alto de uma varanda, fumando um cigarro, vejam. Lise foi a primeira menina que eu vi fumando em público na minha vida, 1956, e sua imagem, loura do alto da varanda, cigarro nos dedos, nunca saiu de minha cabeça. A Ernesto não era uma ótica despersonalizada. Como não era A Suprema Móveis do meu amigo Leão, a Foto Jonas de meu tio Vivaldo que era presidente do Ipiranga e botava os sobrinhos todos pra jogar no juvenil. Me lembro que eu ia pra Fonte Nova e dizia ao cara da entrada no campo, vou ficar com meu Tio Vivaldo, ele abria o portão e eu via o jogo do banco, era uma glória.

Lojas como as Duas Américas, A Florensilva de seu Florentino, O Adamastor do pai de Glauber, a Civilização Brasileira de Dmeval Chaves.Jornais como os Diários Associados de Odorico Tavares, A Tarde de Jorge Calmon. O dusty miller da Cubana? Ou o carnaval no Bahiano, Associação e Yacht e de botar cadeira na rua na Av. Sete pra assistir as batucadas, os Filhos de Ghandy, Mercadores de Bagdá, os caretas. As matinés do Excelsior, Glória, Guarany. A cidade era proporcional a si mesma. Desgovernou-se. Desandou. Assusta.

Pílulas da Clínica Psico-Farmacêutica do Paulo Coelho.


Assim devem fazer vocês: manterem-se loucos, mas comportados como pessoas normais. Corram o risco de ser diferentes, mas aprendam a fazê-lo sem chamar a atenção.

Algumas vezes temos que decidir entre uma coisa à que se está acostumado e outra que nos agradaria conhecer.

Quando todos os dias resultam iguais é porque o homem deixou de perceber as coisas boas que surgem em sua vida cada vez que o sol cruza o céu.

Quando cresceres, descobrirás que já defendeste mentiras, enganaste-te a ti mesmo ou sofreste por tolices. Se és um bom guerreiro, não te culparás por isso, mas também não deixarás que teus erros se repitam.

Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo o que nos faz infelizes. O instante mágico é o momento em si que pode ou não mudar toda nossa existência.

Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.

A culpa feminina, por Márcia Tilburi.


À famosa pergunta de Freud “o que quer uma mulher?” podemos responder: livrar-se da culpa. Mas vamos devagar: o que eu, em pleno século 21, livre financeira e sexualmente, dona do meu corpo, autora do meu projeto de vida, fiz pra me sentir culpada? Embora nossa cultura já viva certa democracia entre gêneros, a culpa continua sendo característica da subjetividade das mulheres muito mais do que dos homens. Dizer “sou mulher” é quase o mesmo que dizer “a culpa é minha”.


A culpa feminina não existiu desde sempre e jamais foi essencial. Não é impossível que tenha sido inventada para que as mulheres soubessem bem qual o seu lugar em uma sociedade de homens. A filosofia não se ocupou muito da questão até que F. Nietzsche, filósofo morto na virada do século 19 para o 20, sustentou uma contundente crítica da moral vigente como análise do sentimento de culpa. Ele entende a culpa como o ressentimento que em vez de ser lançado para o outro, é dirigido a si mesmo. Ela nasce de uma obrigação de fazer promessas que se transforma em incapacidade de cumpri-las e daí passa a valer como dívida que, impagável, se volta contra quem a contrai.


O ressentimento é uma espécie de peso morto que carregamos nos ombros sem que sirva a nada além de pesar. Ora, o que carregamos é o passado que não conseguimos esquecer nas camadas mais profundas da linguagem. Mulheres contemporâneas são herdeiras de uma vasta tradição simbólica que inclui mitos como Eva, a culpada da expulsão do paraíso que implica o ditado de que por trás de um grande homem há uma grande mulher, e Pandora que se assemelha à mãe onipotente culpada dos sofrimentos de seus filhos.


Mas a coisa não para por aí. Mesmo sem ser esposa ou mãe, uma mulher que deseje ser, por exemplo, amante, pode se sentir culpada em relação ao desamor do marido ou namorado por não ter, por exemplo, o corpo que ele deseja. Perguntar a si mesma se, ao contrário, “ele a agrada” não é possível para quem sente culpa. Já que o culpado precisa sempre pagar alguma coisa que ele não está devendo. Mas o que, tão livres, tão independentes, as mulheres de hoje ainda podem dever? Por trás das armadilhas dos mitos está a idéia greco-medieval de que a mulher é um macho falido. A natureza quando não tem força pra fazer um homem faz uma mulher. Culpa de quem?


A culpa aparece assim como um artifício infinito. Uma máquina poderosa de produzir dívidas inexistentes, pois se existissem realmente bastaria pagá-las ou pedir mais prazo, responsabilizando-se pelo que, de fato, se deve. No entanto, há certo prazer na culpa, justamente o da irresponsabilidade que afasta da convivência com o desejo e coloca a pessoa no lugar de uma vítima dos desejos alheios.


Percebemos que a estrutura da culpa é paradoxal. Nos tempos da liberdade feminina, uma mulher pode se sentir culpada de não querer ser esposa, mãe ou amante, ou por simplesmente ser bem sucedida. Como se seu sucesso a tornasse devedora de marido e filhos que muitas vezes ela não tem. A culpa pode aparecer ao assumir um desejo que não lhe foi autorizado. Acontece que a culpa surge exatamente para eliminar o desejo. Está, assim, na contramão da responsabilidade.


Pode, no entanto, parecer que as mulheres se sintam culpadas por serem excessivamente responsabilizadas. Mas não é verdade. Se a responsabilidade é um valor ético objetivo que pode ser juridicamente medido, a culpa é apenas um sentimento de quem, não tendo porque carregá-lo, o faz por aceitar a posição de vítima que pode ser bem mais confortável do que a de quem se responsabiliza por seus desejos. Artificial, a culpa aparece como algo que eu lanço sobre o outro para disfarçar aquilo de que eu mesmo não posso ser responsável. O culpado culpa o outro e a si mesmo. O culpado é, assim, um covarde que se disfarça de vítima e que encontra sua comunidade de culpados, deprimidos e entristecidos contra um mundo supostamente hostil. Fica mais fácil culpabilizar os outros do que responsabilizar-se. Mais fácil endividar o outro e a si mesmo do que pagar os custos da própria vida.


Culpados aqui e ali exigem que ajudemos a carregar seus fardos. Jogam seu peso sobre os ombros próprios e os dos outros. Bem que podiam trocar tudo isso pelas asas do desejo que, em nós, estão prontas a se abrir, deixando tudo mais leve e permitindo voar e ver mais longe.

O impulso pro vôo vem da coragem da responsabilização.


A importância do ato de ler, Paulo Freire.

A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia – e até onde não sou traído pela memória –, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, e re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores.

A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber – se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros – o do sanhaço, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; ás águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos.


Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos, na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas, dos jasmins –, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada; o amarelo-esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. (...)


Daquele contexto – o do meu mundo imediato – fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar. (...)


Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do meu mundo imediato que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra.


A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Osho canta Solidão


Solidão é uma flor, um lótus florescente em teu coração. Solidão é positiva, solidão é saúde.

É a alegria de seres tu mesmo.

É a alegria de teres teu próprio espaço.

Meditação significa: bênção em estando só.

Só se está realmente vivo quando tornamo-nos capazes disso, quando não mais existe dependência em relação a ninguém, a nenhuma situação, a nenhuma condição. E por ser tua, podes permanecer nela de manhã, à tarde e à noite, na mocidade e na velhice, na saúde e na doença.Na vida, na morte também, pode ela permanecer, por não ser algo que está acontecendo a ti vindo do exterior. É algo que aflora de ti. É tua natureza verdadeira, É tua natureza ela-mesma...Uma jornada interior é uma jornada em direção à solidão absoluta; não tens como levar alguém a ela contigo. É impossível que compartilhes teu centro com quem quer que seja; nem mesmo com teu amado. Esta é tua natureza, e não há o que possa ser feito para mudá-la. No momento em que te diriges ao interior, quebram-se todas as comunicações com o mundoexterno. Na verdade, o mundo inteiro desaparece.

Eis porque os místicos têm dito que o mundo é ilusório, é 'maya'.... não que ele não exista, mas para quem medita é quase como se o mundo não existisse.

O silêncio é de tal modo profundo... nenhum ruído o penetra. A solidão vai tão fundo que é necessária a coragem. Mas dessa mesma solidão irrompe a bênção! Dessa solidão - a experiência de Deus. Não há outro modo; nunca houve, nunca haverá.

Celebrai a solidão, celebrai vosso espaço puro e um grande cântico há de brotar em vosso coração.

Um cântico de consciência, um cântico de meditação. Será um cântico de pássaro solitário chamando à distância - não chamando por alguém em particular, mas apenas chamando; por seu coração estar repleto ele sente o ímpeto de chamar; como a nuvem, estando repleta, tem o ímpeto de chover; como a flor, ao estar repleta, faz com que suas pétalas se abram e sua fragrância se liberte..... sem direcioná-la.

Deixai vossa solidão tornar-se uma extasiada dança.




‘Nollywood’ conquista a África.

Um acadêmico africano está bebendo café em um aeroporto de Gana quando percebe o filme nigeriano exibido em uma das telas do saguão. “Uma palhaçada! Um crime! Essas imagens imbecis nunca deveriam ser exibidas nesse país. Elas estão envenenando nossa cultura”, ele protesta. É difícil evitar os filmes nigerianos na África. Os ônibus públicos os exibem, assim como os restaurantes e hotéis. Nollywood, como o setor cinematográfico é conhecido produz cerca de 50 longas-metragens toda semana, fazendo dela a segunda indústria cinematográfica mais prolífica do mundo, atrás apenas de Bollywood, a gigantesca indústria indiana.

Comenta-se que Lagos, a capital nigeriana dos negócios, produziu mais filmes do que as estrelas que estão no céu. As ruas estão lotadas de equipes cinematográficas realizando filmagens. Apenas o governo emprega mais gente que o setor cinematográfico. Filmes nigerianos são tão populares no exterior quanto no país. Rebeldes da Costa do Marfim interrompem suas lutas nas florestas quando os carregamentos de DVDs nigerianos chegam. Mães na Zâmbia afirmam que suas crianças crescem aprendendo a falar com os sotaques da TV nigeriana. Quando o presidente de Serra Leoa convidou Genevieve Nnaji, uma estrela televisiva de Lagos, para se juntar à sua campanha, ele atraiu um público recorde aos seus comícios. Milhões de africanos assistem a filmes nigerianos todos os dias, um número muito maior do que os que assistem a filmes norte-americanos. E ainda assim, os africanos têm opiniões conflitantes com relação a Nollywood.

Entre as elites africanas, a hostilidade é comum. Jean Rouch, que promove a arte indígena no Níger, comparou Nollywood ao vírus da AIDS. Críticos culturais reclamam de “cenas macabras repletas de bruxaria” nos filmes. Os mais alarmistas descrevem os diretores e produtores como sacerdotes de vodu que enfeitiçam platéias em outros países. Eles reclamam da “nigerianização” da África, preocupados com a possibilidade de que todo o continente passe a “estalar os dedos como os nigerianos”. Os governos também têm seus momentos de hostilidade, e vários deles passaram a adotar medidas protecionistas, incluindo taxas astronômicas de produção. Em julho, Gana passou a cobrar mil dólares dos atores visitantes e US$ 5 mil de produtores e diretores. A República Democrática do Congo tentou banir os filmes nigerianos. Cinco décadas após a maior parte da África declarar independência, as elites do continente temem uma nova colonização, dessa vez, vinda de dentro. ”Os nigerianos devorarão tudo o que temos”, diz um ex-membro do governo de Gana.

Os magnatas de Nollywood não tentam negar sua influência sobre o continente – apenas a encaram como algo positivo. “Damos desenvolvimento e conhecimento à África”, diz Ernest Obi, chefe do sindicato dos atores de Lagos, durante um intervalo nos testes de elenco de uma legião de garotas adolescentes vestidas com roupas de baile. “Ensinamos coisas às pessoas. Se nos chamam de mestres colonialistas, é uma pena”.


Reconheça: Mario Reis.



Mario da Silveira Meirelles Reis nasceu no Rio de Janeiro em 31 de dezembro de 1907. “O mais carioca dos cantores” vinha de família rica, primo dos Silveira, donos da Bangu, famosa fábrica de tecidos da época. Freqüentador de Country Club e Jockey Club, os clubes elegantes da cidade, freqüentava também os morros, onde travou amizade com os grandes compositores negros como Sinhô e Donga.

Sua carreira foi curta, começou em 1928 com um 78 rotações com dois sambas de Sinhô. No início dos anos 30 formou dupla com Francisco Alves, com quem fez mais de vinte gravações, muitas delas históricas. Em 1936 afastou-se da carreira, voltando em 1939. De 1940 a 1951 afastou-se novamente. Em 1960 gravou seu primeiro LP, realizando a primeira gravação de duas composições de Tom Jobim.

Segundo os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, ao romper com a tradição do bel canto italiano, que imperava até então, ele inaugurou um novo período na história do canto popular no Brasil, que passou a ser mais natural e espontâneo. Muitos o apontam como a grande influência de João Gilberto na criação da Bossa Nova, embora este cite Orlando Silva como sua grande inspiração.

Mario gravou 82 discos de 78 rpm entre 1928 e 1951. Posteriormente, 3 LPs com um total de 36 faixas. Muitas dessas gravações mais modernas foram regravações de seus sucessos antigos.
Mario Reis morreu no Rio em 5 de outubro de 1981.

A infinidade de amores na dor de existir [Nadiá Paulo Ferreira]

O discurso psicanalítico, ao investigar os fundamentos do amor, apresenta, de forma sistematizada, o que os poetas já sabiam: o encontro da verdade com o saber não decifra toda a verdade.

O desejo de saber o que o amor é esbarra com algo indizível. Assim, o que não pode ser dito e escrito converte o amor em “um mal, que mata e não se vê”, em “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê” (Camões). Amar e saber o que é amar são coisas diferentes. Amar é um acontecimento que nunca se esquece; é inventar sentidos para a existência no mundo. Saber o que é amar é impossível, porque “quem ama nunca sabe o que ama; nem sabe por que ama, nem o que é amar” (Fernando Pessoa).

Diante da impossibilidade de saber toda a verdade, fala-se de amor. Isso é o que vem sendo feito há séculos. Platão, em O Banquete, retrata os lugares do discurso: o do amante e o do amado. Jacques Lacan (1901-1981) baseia-se no amor grego para articular o par amante-amado com a estrutura do amor. Aquele que experimenta a sensação de que alguma coisa lhe falta, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de sujeito do desejo (amante); aquele que sente que tem alguma coisa, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de objeto (amado). O paradoxo do amor reside justamente no fato de que o que falta ao amante é precisamente o que o amado não tem. Se Eros nasce de uma aspiração impossível, que é de dois fazer um, o ser humano inventa o mito do amor, sustentado na promessa de felicidade. E, enquanto isso não vem, o bem se transforma em mal, inaugurando uma escola de amor infeliz.

Freud e a teoria da sexualidade humana

Em O Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud (1856-1939) adota a versão do amor que se encontra no poema “Sobre a Natureza”, do filósofo grego Empédocles (490-430 a.C.): Eros é uma força que tende para a unificação. Em As Pulsões e Suas Vicissitudes (traduzido em português por Os Instintos e Suas Vicissitudes), Freud cria o conceito de pulsão para construir uma teoria da sexualidade humana: as pulsões são os representantes psíquicos de estímulos internos, situando-se no limite entre o psíquico e o somático, e apresentam-se divididas em pulsões sexuais e pulsões do eu (pulsões de autoconservação).

As pulsões sexuais (oral, anal e genital), constituídas por quatro elementos (impulso, fonte, alvo e objeto), passam por quatro processos de transformação: reversão a seu oposto, retorno em direção ao próprio eu, recalque e sublimação. A reversão a seu oposto caracteriza-se pela transformação do amor em ódio. Essa metamorfose se refere a um tempo arcaico, regido pelo autoerotismo (narcisismo primário), o qual é dividido em duas fases. Na primeira fase, as pulsões do eu e as pulsões sexuais têm o mesmo alvo, porque ainda não se separaram: é a satisfação autoerótica. Sob o domínio do princípio de prazer, constitui-se um eu primitivo, interessado pelo que lhe dá prazer e desinteressado do que lhe dá desprazer. Essa indiferença, nomeada de “repúdio primordial do eu narcísico”, inaugura o ódio.

Na segunda fase, o eu da realidade, transformado em eu do prazer purificado, realiza a distinção entre o fora e o dentro pela via da fantasia: o que causava desprazer e era odiado é expulso do próprio corpo, passando a constituir, então, o campo dos objetos; o que causava prazer passa a ser amado e, como tal, incorporado ao próprio corpo (eu do prazer). É importante ressaltar que a precedência do ódio sobre o amor está diretamente ligada às suas fontes: o ódio nasce sob o domínio do princípio de prazer e o amor inaugura-se no momento em que se constitui a pulsão. Do acoplamento do amor ao ódio resulta a marca primordial do amor, a ambivalência (amor/ódio).

Em Sobre o Narcisismo: uma Introdução, Freud aborda o amor a partir da escolha de objeto. Todo ser humano tem dois objetos sexuais: ele mesmo e aqueles que desempenham as funções de alimentação e de proteção. Em função disso, temos duas escolhas: narcísica e anaclítica. Na escolha narcísica, ama-se o que se é, o que se foi ou o que se gostaria de ser. Aqui, o objeto é amado com a mesma intensidade que outrora o eu do prazer fora amado no autoerotismo. Na escolha anaclítica, ama-se a parte do eu que foi renunciada e transferida para o objeto, fazendo com que o objeto seja revestido das funções materna e paterna: a mulher que alimenta ou o homem que protege.

Freud retoma, em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, a escolha do objeto amado pelos mecanismos de idealização e de identificação. A idealização caracteriza-se pelo engrandecimento do objeto e a identificação pela forma mais arcaica de laços afetivos com o objeto. Na idealização, o intenso investimento do eu no objeto implica não só o empobrecimento desse eu, mas também a sua ligação com o objeto, mesmo depois da perda ou do abandono.

A separação é vivida como dilaceração, fazendo com que o eu experimente a dolorosa sensação de que uma parte de si mesmo foi arrancada para sempre. Por sua vez, na identificação, a perda ou o abandono do objeto conduz à incorporação de suas propriedades pelo eu. Assim, na idealização, o objeto é colocado no lugar do ideal do eu, e, na identificação, o objeto é colocado no lugar do eu. Na idealização, ingressamos no reino da paixão, onde o amante, encantado pelo objeto amado, é levado à servidão sem limite. Na cegueira da paixão, o enamorado pode inclusive ser arrastado ao impulso do crime. A perda do objeto da paixão converte o amor em ódio, fazendo com que o desejo de posse se transforme em desejo de destruição.


Lacan e o amor como paixão e dom ativo

Lacan, em seu projeto de retorno à obra de Freud, faz questão de enfatizar que é preciso distinguir entre o amor como sentimento da paixão e o amor como dom ativo. O amor como paixão inscreve-se no plano das relações imaginárias, nível das relações especulares, em que as imagens do eu e do outro se confundem. O amor como dom ativo inscreve-se no plano das relações simbólicas, dimensão da palavra, cujo registro é o da verdade, da mentira, da equivocação e do erro. A paixão visa ao outro como objeto e o amor visa ao outro como sujeito.

Na paixão, exigem-se provas de amor. Mesmo que as provas sejam dadas, nunca o apaixonado se dá por satisfeito, porque não se trata de ser amado, mas, sim, de querer ser amado do modo pelo qual se imagina que se deva ser amado. Qualquer particularidade do outro amado tem de ser apagada para que se mantenha a fantasia de que de dois se faz um. Lágrimas são derramadas pelo que deveria ter sido e não foi. O fracasso de um sonho torna-se a causa do sofrimento de amor, o qual se transforma em ódio de si mesmo e do outro. Na paixão, amar é querer enviscar-se no objeto, capturando-o; odiar é querer desvencilhar-se do objeto, aviltando-o. Lacan afirma inclusive que “o ódio não se satisfaz com o desaparecimento do adversário”.

Não basta o exílio, a prisão, o assassinato; é preciso a injúria para denegrir o ser do outro odiado. Se não se pode eliminar a existência do outro odiado na linguagem, o caminho da difamação é a via pela qual se tenta associar um nome à indignidade e à vilania. Um terceiro elemento é acrescentado ao par amor-ódio: a ignorância. O desejo de não querer saber está para a paixão assim como o desejo de querer saber está para o amor. O amor como dom ativo está para além da fascinação imaginária, porque se dirige ao ser do outro em sua particularidade. Trata-se de um amor que se inscreve no regime da diferença, onde dois não fazem um, mas dois.

No Seminário 4: a Relação de Objeto, Lacan aborda outra modalidade do amor, aquele concebido como recusa do dom e situado em torno do que o objeto amado não tem. Três elementos entram em cena: amante, objeto amado e para além do objeto. O que se ama está para além do objeto. E o que estaria nesse além senão a própria falta? Justamente por isso, Lacan diz que o dom dado em troca não é nada: “o nada por nada é o princípio da troca”. Na dialética da recusa do dom, o sujeito sacrifica-se para além daquilo que tem. Então, amar é dar o que não se tem, e o acento está no amor, não no objeto amado. Esse acento comparece no amor cortês (o trovadorismo dos séculos 12 e 13), na concepção barroca de amor, em Fernando Pessoa etc. O que se ama é o próprio amor.

Lacan introduz, ainda, no Seminário 11, o conceito de sujeito-suposto-saber (SsS) no amor de transferência: “Desde que haja em algum lugar o sujeito-suposto-saber, há transferência”. A introdução de um sujeito-suposto-saber no amor de transferência não modifica a sua estrutura, que é a mesma da paixão. Por isso, ao amar alguém, suponho um saber; ao odiar a alguém, suponho um não saber (o saber que está em jogo é um saber sobre o desejo).

Há uma infinidade de amores. Mesmo assim, o amor não é a panaceia para a dor de existir, inclusive porque, como nos ensina um poema do século 16 atribuído a Camões (“Amor É Fogo que Arde sem Se Ver”), como se pode esperar paz, harmonia e felicidade nos corações humanos, “se tão contrário a si é o mesmo amor”?



A patriota, Glauco Mattoso.

Ela é bem gostosa. Tem trinta e tantos mas passa por vinte e poucos, com boa vontade. Não falta nada pra quem gosta de redondezas e fofuras. Sobra um pouco pra quem gosta de peito que cabe na mão. Pra dona da butique do Itaim Bibi, ela não tem classe nem a 50 metros. Pros donos de botecos do Itaim Paulista, a meio quilômetro ela é mais que classuda, é comível. E mora no pedaço.


Mas tem dono. É casada com um cara fechado, que os outros respeitam mais pelo que ameaça calado que pelo que faz ou diz. Quem diz é a vizinhança, agora que a situação arrochou e ela teve que começar a trabalhar fora, pra reforçar o orçamento. Juram que ela foi avistada em outras companhias, na ida ou na volta do trampo. Na verdade a companhia é um só, aliás mais feio que o marido traído, embora regule com ele em tudo o mais, altura, peso, idade e tamanho do pau. Mais feio por causa dum bigode mal aparado, caído nos cantos. A traição até que é discreta pros padrões suburbanos. O outro a acompanha até em casa na volta do trampo, fica um pouco e cai fora antes da volta do marido. Este já desconfia desde o começo, não por causa de avisos ou fofocas, mas pelo comportamento dela na cama e pelos papos daquela hora.

Agora vamos ao dilema do cara. O qual tem muito mais a esconder que a mulher. Já foi bandido, e perigoso. Matou, roubou, quase chefiou quadrilha, mas foi único sobrevivente de guerra com a polícia, capturado, torturado, preso, foragido, procurado. Tudo isso noutro Estado e noutra década. Resolveu começar vida nova, mudar a identidade. Conseguiu despistar todo mundo com documentos falsos, cara diferente (sem bigode), nome de paz. Acha que compensou. Agora é só não se meter em encrenca, não ser fichado de novo, que o velho delinqüente fica esquecido.

Mas nessa de apagar o passado ele vai fermentando uma paranóia, fruto dum cagaço subterrâneo, germinado desde o tempo de assaltante. Matou, é verdade, mas morrendo de medo de morrer. Sempre foi assim. O que pros outros parecia coragem era desespero. Agora o medo vem da lembrança somada com a esperança de que ninguém descubra, a começar pela mulher. Pra isso ele a trata com respeito, não faz tudo que gostaria na cama, ou pelo menos não do jeito que gostaria.

Mete por trás e põe pra chupar, mas com modos, pedindo em vez de mandar, tomando cuidado pra não machucar. Ela corresponde ao tratamento, mas com o tempo a coisa vai ficando meio indiferente. Falta entusiasmo. Isso aparece nos papos, justamente agora que ela começa a trabalhar fora. Não demora e a relação vai pro brejo. Ele deixa claro que desconfia e ela não esconde que não tá satisfeita. Mas falta o flagra.

Pra precipitar as coisas, o outro se insinua como amigo do casal, a pretexto de ser colega de trabalho da mulher. O marido assina atestado de corno manso quando concorda tacitamente que o outro a traga até em casa. A partir daí, é questão de tempo pro desfecho. Ou ele vira corno berrante e lava a honra ou perde a mulher pro outro.

O estopim é algo que ela diz pro marido, tipo "Você não chega aos pés do Fulano, não serve pra engraxar o sapato dele." e algo que o outro disse pra ela e ela repete pro marido: "Ele falou que você não é homem pra mim...". Ele reage, é claro, mas só de boca, com ameaças. Ela faz pouco caso. A essa altura a cama tinha ido pro espaço.

Ele já começa a se apavorar com o rumo da situação, mas pra não entregar tudo de bandeja resolve tirar satisfação com o outro. Ainda trabalha com a chance de que ela esteja inventando pra lhe fazer ciúme, ou que seja verdade mas o outro recue se for chamado às falas. Mas não só não recua como confirma descaradamente: "Falei pra ela e repito na tua cara: Tu não é homem pra ela.". E acrescenta mais: "Ela mesma já confessou que tu não serve pra me engraxar o sapato..." -- e mostra o sapato usado, mas permanentemente lustroso, sua segunda mania (a primeira era o bigode torto). O marido tenta retrucar na base da ironia, depois se faz de sério e parte pra mais um pouco de ameaça. Mas essa de "da próxima vez vai ter" não cola, a moral já era.

Passa a noite em claro (enquanto ela ronca) equacionando o dilema. Se chama o cara pra briga, vai apanhar e fugir da raia, o vexame vai ser pior. Se atirar na mulher, no outro, ou nos dois, vai ser fichado de novo, e nem a honra poderá livrá-lo da cadeia pelos outros crimes que virão à tona. Além disso, vai ser fogo. Ter que abrir mão da sua privacidade pra dar entrevista pro Gil Gomes no "Aqui Agora". Que fazer? De duas uma: ou larga tudo e some, ou se sujeita. Sumir significa ter que começar de novo, e talvez ser pego. Se sujeitar pode ser barra, mas dá tempo de pensar em outra solução, ou de esperar que a sorte mude e o cara resolva deixá-los em paz, ou ela se arrependa. Uma alternativa se desdobra em outras. É só excluir as piores hipóteses. Isso na cabeça dele. Pois na dela a última coisa que passa é voltar atrás. Pra ela a aventura tá começando, as perspectivas são excitantes, e o marido merece mesmo uma lição.Afinal, ela sempre quis que seu homem fosse mandão, exigente, convencido, sacana. O outro era tudo isso, e ela gozava como nunca. A humilhação do marido é um tempero a mais nessa gororoba: sabor de desforra pelo tempo que esperou pra ter prazer total. Isso ela fala na cara do marido, quando ele, no dia seguinte, antes de sair pro trabalho, dá o braço a torcer e admite que ia propor ao outro um acordo.

Quando volta do trabalho (faz cagada no serviço, leva chupada do superior), a mulher e o outro já estão em casa jantando. O outro nem espera que ele participe do rango. Vai se antecipando e impondo condições: "Tua mulher não é mais tua, cara. Ela já me contou que tu tá pedindo arrego. Pra mim não faz diferença. Se tu quisesse engrossar, ia ser pior. A gente já tinha combinado até acabar com a tua vida, se precisasse. Se tu prefere facilitar as coisas, melhor pra todo mundo.
Fica aí no teu canto e não chia, que a gente fica numa boa. Senão, conheço gente que pode ajustar umas continhas com a tua pessoa, cara."

Ele já tá arrasado e ainda leva um susto. "Que contas? Tem mais gente nisso?"

O outro: Por enquanto não tem, mas tenho amigo aí nas bocas que pode me dar uma mão. Uma mão branca, sabe como é? (Ele nem ousa perguntar se os amigos são da lei ou fora. Não faz mesmo diferença. Pode ser blefe, mas o caldo já entornou. Sem querer (querendo), o outro lhe pôs o dedo na ferida da paranóia. Ele atira a toalha.)

Ele: Tudo bem, cara. Não precisa nada disso. Se eu não sirvo mais pra ela, não vou ficar no caminho de vocês. Se eu tivesse pronde ir, saía já. Mas não posso largar tudo, emprego, casa...

O outro: Problema seu. A casa agora é nossa, e ela não vai ficar cozinhando e lavando pra você.
(Antes era tu, agora é você)

Ele: Não, não, eu faço tudo, eu sei me virar.

O outro: É, mas se quiser ficar vai ter que fazer também pra ela e pra mim. Isso ela já me falou que faz questão.

Ela: É isso aí, pra ficar vai ter que trabalhar pra nós. (Aparteia pra mostrar que tá sintonizada com o amante. Ele abaixa a cabeça e seu olhar vai cair bem no sapato lustroso do outro.)

Ele: Tudo bem, vai ser do jeito que vocês quiserem. (O outro ri com um lado do bigode, balança a perna cruzada, mexe o pé dum lado pro outro. E dá o golpe de misericórdia.)

O outro: E tem mais. A partir de agora durmo aqui quantas vezes quiser. Hoje, por exemplo, vou passar a noite com ela, e não quero você por perto, tá entendendo?

Ele: Eu posso dormir na sala...

Ela interrompe: Nada disso. Na sala pode atrapalhar. Vai dormir no quartinho! (Ele não discute. O quartinho fica no quintal, é uma edícula ridícula que serve de despejo. Vai ter que mudar uns troços de lugar, desenrolar um colchonete. Mas antes de trancar por dentro a porta da cozinha/dos fundos (lhe deram tempo de mastigar umas sobras e lavar a louça), ela se empolga com o próprio sadismo. Tem uma idéia, e vem trazendo o par de sapatos do outro, que já tava de chinelo (o chinelo do marido) vendo televisão.)

Ela: Toma, pega esse sapato e devolve amanhã, en-gra-xa-do, tá ouvindo? Assim você mostra que serve pralguma coisa. É bom pra passar o tempo. E não pensa em sacanagem, viu? (Ela ri, mas a gargalhada do outro se escuta mais alto lá da sala. Ele se fecha no quartinho, passado de vergonha. O pior não foi eles se trancarem. O pior é que ela falou sério, porque é no quartinho que fica o material de limpeza, inclusive graxa e flanela. Tudo bem, ele não vai mesmo conseguir dormir. O jeito é não contrariar os dois. Trata de passar a graxa, a escova, o pano. Enquanto segura um pé de sapato, examina bem o tipo, o tamanho, a cor. É um modelo social barato, preto, já deformado pelo uso, mas conservando algum brilho. Tamanho 41, o mesmo seu. Põe-se a divagar: se é verdade que o pé é proporcional ao pau, então o do outro é igual. Não dá pra entender o que foi que ela viu naquele vagabundo. Não tem nada que ele não tenha. Lembra como foi bom no começo, como ela gostava que ele lhe lambesse o peitão, chupasse os bicos que nem neném. Será que o outro podia fazer melhor? Ou será que não é pelo que se faz, mas pelo que se diz enquanto faz? O cara deve ser um desbocado, um sujo, e ela, se não era puta, tinha vocação e tá se revelando agora. Tudo isso ele rumina mais com dor que com ódio, e sem tirar o olho do sapato, enquanto esfrega devagar, apalpando o contorno do solado. Uma lágrima cai no couro e ele de repente vislumbra uma hipótese a mais: se matar. Mas pisca, deixa o olho clarear, encara o sapato em suas mãos e resiste ao pensamento mórbido: não, esse cafajeste não merece mais esse presente, e ela não vale tanto. Vamos viver e ver no que dá. Tem que ter um jeito. Mesmo porque, depois desta, o cara vai se esbaldar às custas dele, cada vez mais. A solução não pode demorar.

E não dá outra. Na manhã seguinte não há maiores incidentes. O marido faz o café, os outros se servem, o cara pega o sapato de volta, checa, faz cara de "dá pro gasto", calça e sai com a mulher. Ele também se manda antes que se atrase e complique sua situação na firma. Mas à noite, quando regressa, os outros ainda estão fora. Ele vai até o quarto. Olha a cama de casal desarrumada, confere os cheiros do ambiente, mas o cigarro do outro é mais forte e predomina.
Volta pra cozinha, prepara algo pra comer, janta só (faz tempo que não), depois fica andando pela casa sem conseguir se sentar nem pra mudar de roupa. Nisso eles chegam. Estão animados, bem humorados, e nem lhe dão atenção. Ele se dispõe a sair pro quartinho quando o outro bate palma.)

O outro: Ei, ei, onde pensa que vai?

Ele: Desculpa, eu não queria atrapalhar. Quer comer alguma coisa?

O outro: Comer, nós já comemos lá fora, e eu vou comer mais lá dentro daqui a pouco, né paixão?

Ela: Só. Que tal uma limonada? Tá calor. Ele faz pra nós.

O outro: Não, faz você. Enquanto isso ele vai dar um lustro no meu sapato, que pegou poeira. (Ela ri da idéia de ver o marido ainda mais humilhado, mas sobra uma pontinha de dúvida: o outro não podia mandá-lo fazer as duas coisas? O amante já ligou a TV e está acomodado no sofá, uma perna esticada e o outro pé apoiado na mesinha de centro, o degrau do salto encaixado na borda da mesa. O marido, calado, vem com a flanela, se abaixa e começa a passar no pé apoiado. Não ajoelhou, só apoiou um joelho no chão e o braço no outro joelho. Mas sua posição não agrada o amante.)

O outro: Sai da frente da tela. Abaixa essa cabeça. Tá com vergonha de ajoelhar? Agacha aí, porra. (Ele sente a cara esquentar de vergonha, chega bem perto do sapato, evita olhar na direção do outro pra não ver aquele bigode rindo. Mas ouve a risada da mulher, que acompanha a cena da cozinha, sem parar de espremer o limão.)

Ela: Puta, meu, que cena! Nunca imaginei meu marido se rebaixando tanto. Conta pra ele o que a gente fez na cama ontem!

O outro: Pra quê? Ele deve imaginar. Vai ver que nem dormiu pra ficar batendo punheta, fala a verdade! (O marido calado. Pra não ter que responder nada, ele se concentra mais na tarefa, procura mostrar afinco, não desvia o olho do sapato.)

Ela: É, vai ver que ele ficou com vontade de participar. Já pensou?

O outro: Nem pensar. Não faço suruba com corno.

Ela: Nem pra fazer ele de viado? Põe ele pra chupar a gente, faz ele assistir enquanto eu te chupo...

O outro: Nada disso. Corno e viado comigo não tem vez. Deixa isso de lado, que nós dois já temos muito que fazer. Se ele quiser virar viado, que se vire sozinho. Chupa o meu sapato, se quiser. (O marido quer sumir pelo chão adentro. Torce pra que os dois parem com aquilo/aquela tortura, e pra sua sorte a mulher já vem com a limonada. O outro se endireita no sofá, dispensa o marido, faz mulher sentar junto e o marido é convidado a se retirar pro quartinho. Já ia saindo, quando o outro se lembra.)

O outro: Antes, traz o chinelo e me tira o sapato e a meia. (Ele desata os cadarços com cuidado, desajeitado, encabulado com a cara de riso da mulher. Descalça um pé, depois a meia, põe dentro do sapato. Faz o mesmo no outro pé. Então percebe que a mania de lustro do cara não confere muito com o cheiro forte do pé suado, que o cigarro tinha disfarçado no quarto. Calça o chinelo no pé do cara e se levanta.)

Ele: Posso ir agora?

O outro: Pode. E leva o sapato pra passar mais graxa. Vê se tapa esse branco do bico. Acho que tá na hora de comprar um pisante novo. (O marido leva o par pro quartinho. Sua por todos os poros. Tira a roupa, se abana com a camisa, ajoelha no colchonete. Lhe vem um ódio da mulher, aquela abusada, um ímpeto de fazê-la engolir aquela arrogância fodendo-lhe a boca. Chega a ficar de pau duro imaginando se na posição do outro, enfiando-lhe o caralho até a garganta, aquela vaca, merece o macho que arranjou. Cai de bruços no colchonete, o sapato está no lugar do travesseiro. Ele desafia a própria desonra. Manda o desmando às favas. Mostra pra si mesmo que tira aquilo de letra, é a única saída. Olha o sapato bem de perto, cheira a meia, cheira de novo, mais fundo. Xinga-se a si mesmo. Corno. Viado. Foi isso que você conseguiu, panaca. Pega no sapato pelo calcanhar, aproxima o bico da boca, abre os lábios e deixa entrar o mais que pode, até a sola doer na língua. Depois tira fora, ofegante, olha com raiva, decidido a se vingar pelo novo e pelo velho, foda-se o futuro. Ele não sabe, mas ela costumava segredar pruma amiga: sua maior frustração é que nunca tinha tido o gostinho de ver dois homens brigando por sua causa.

O ano de 2011, por Maggy Harrison.

29 de dezembro - Marte quadrado Saturno

Esse quadrado aponta para um período em que aquilo que você deseja (Marte) se defronta com as regras do mundo ou pessoas em posição de autoridade (Saturno). Você pode seguir com seus objetivos ou simplesmente escolher outra opção. Não importa, o que vale é ficar alerta, pois esses atrasos podem ser benéficos para revisar suas intenções originais. Trabalhar duro é muito importante nesse período. No final da semana as coisas começam a se mover novamente.

29 de dezembro - Mercúrio retoma seu movimento direto

O último movimento retrógrado de Mercúrio chega ao fim justamente no final do ano! Desde que Mercúrio ficou retrógrado no dia 10 de dezembro você deve ter mudado de opinião sobre vários assuntos um milhão de vezes. Tomara que nesse período você tenha revisto velhos conceitos (Sagitário) e antigas ambições (Capricórnio), signos pelos quais ele transitou nesse movimento. Se você aproveitou o período, uma visão mais realista das coisas pode emergir e os próximos passos têm mais chance de serem bem sucedidos!

Feliz 2011

Segundo a numerologia pitagórica, 2011 é o número 4. Este número é ligado ao trabalho e às coisas materiais e concretas.Trata-se de um bom ano para quem busca estabilidade no relacionamento, pois fidelidade e comprometimento estarão presentes. Mas cuidado com a monotonia! Em termos profissionais e financeiros, o progresso deverá vir por meio da disciplina. Evite ousar ou fazer mudanças radicais!

A partir de 3 de fevereiro de 2011 começa, no Horóscopo Chinês, o ano da Lebre de Metal. O ano promete ser de equilíbrio e harmonia. A Lebre é pequena, não gosta de enfrentamentos, mas é muito ágil. O elemento metal dá energia e prosperidade. Atitudes com base no respeito entre as pessoas e busca por bem estar devem predominar.

O ano de 2011 será regido por Mercúrio, o planeta mais rápido do zodíaco, indicando um ano favorável a mudanças e para o dinamismo intelectual. No ano que se inicia, serão beneficiados o comércio, a comunicação e a rede viária. Os jovens terão seu espaço favorecido, assim como nossa capacidade de fazer amizades e trocar ideias e experiências. A educação básica poderá ser um tema de investimento maior nos países e também a discussão do papel dos meios de comunicação e a mídia livre.

Júpiter, o planeta da abundância, entra no signo de Áries em 22 de janeiro, exaltando a busca pela autoridade e pelo centramento.

Saturno permanece no signo de Libra, pedindo por justiça e respeito a todos os seres humanos. Continuam as cobranças por um compromisso maior com o outro e pela honestidade nos relacionamentos. Muitos podem se acabar e os iniciados nesse ano, assim como em 2010, exigem seriedade e aprofundamento.

A partir de 11 de março, Urano ingressa definitivamente no signo de Áries, permanecendo nesse signo até 2018. Em termos individuais, poderemos perceber que eventos inesperados poderão forçar-nos a mudar o rumo das coisas e de nossas escolhas e poderemos abandonar velhos padrões de comportamento que já não funcionam em nossas vidas.


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