quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Descanse em paz, Captain Beefheart.



Morreu, na semana do dia 17 de dezembro, Van Vilet, o Captain Beefheart. Van, Beefheart ou Don – chame-o como preferir – liderou, nos anos 60, a Magic Band e com ela lançou alguns dos discos mais influentes do rock daqueles anos de psicodelia, LSD, quebra de paradigmas e barreiras. O músico que mais tarde se dedicou a pintura, sofria de esclerose múltipla há aproximadamente duas décadas.


Entre os 12 discos que lançou entre 1967 e 1982, está Trout Mask Replica, de 1969, resultado de uma viagem em que Don viu uma menina na plateia transformar-se em um peixe. O disco, produzido pelo amigo de longa data Frank Zappa, ficou em 58º lugar na lista da Rolling Stone de maiores álbuns de todos os tempos. Sendo sabidas as excentricidades e saídas da linha de Beefheart, que enlouquecia os parceiros de banda com torturas psicológicas e comportamento errático, é irônico que Trout Mask Replica tenha saído pelo selo Straight (“careta”) de Zappa.

Palmas para Geraldo Pereira!



Geraldo Pereira (Geraldo Teodoro Pereira), compositor e cantor, nasceu em Juiz de Fora MG, em 23/4/1918, e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 8/5/1955. Chegou ao Rio de Janeiro em 1930, indo morar com o irmão mais velho no morro de Santo Antônio, na zona central da cidade. Terminou o curso primário e, adolescente ainda, já compunha sambas para a escola Unidos de Mangueira, hoje extinta. Logo fez amizades com os bambas do morro e aprendeu violão com Cartola e Aloísio Dias.

Aos 18 anos, deixou o morro para viver no subúrbio de Engenho de Dentro. Logo mudou-se para a Lapa, empregando-se na Prefeitura do Rio de Janeiro como motorista de caminhão de limpeza urbana, emprego que manteve por toda a vida. Passou a freqüentar os bares da cidade, inclusive o Café Nice, ponto de encontro de sambistas e da boêmia carioca. Com parceria de Nelson Teixeira, compôs o samba Se você sair chorando, gravado em 1939 em disco Odeon pelo cantor Roberto Paiva. Inscrita no concurso carnavalesco promovido em 1940 pelo D.l.P., a música classificou-se entre as finalistas.

Ainda em 1940, compôs, de parceria com Wilson Batista, o samba de breque Acertei no milhar, gravado na Odeon por Moreira da Silva. Por essa época vivia com Isabel, inspiradora de muitos de seus sambas, entre eles Acabou a sopa (com Augusto Garcez). Gravado em 1940 na Victor, marcou o início de sua amizade com Ciro Monteiro, que se tornaria um de seus mais fiéis interpretes e o principal divulgador de suas obras. Nos anos seguintes, diversas músicas suas foram gravadas por cantores de destaque: os sambas Falta de sorte e Pode ser? (ambos com Marino Pinto), foram gravados respectivamente por Araci de Almeida e Isaura Garoa, em 1941. Nos anos de 1942-1943, Odete Amaral, Moreira da Silva e o grupo Quatro Ases e Um Curinga lançaram composições suas. Em 1943 apresentou-se no programa Vesperal das Moças, na Rádio Tamoio do Rio de Janeiro. Durante essa época, fez amizade com Valdir Machado, que o incentivava a cantar e que se tornou seu parceiro. Fez algumas apresentações esporádicas na Rádio Nacional. Em 1944 participou do filme Berlim na batucada, de Luís de Barros, interpretando o papel do cabo Laurindo. Foi também em 1944 que conseguiu seu primeiro grande sucesso, com a gravação de Falsa baiana, por Ciro Monteiro. Inspirado na esposa do compositor Roberto Martins, incapaz de sambar com sua fantasia de baiana no Carnaval, o samba deu-lhe renome nacional.
Bolinha de papel, gravado pelos Anjos do Inferno em 1945, repetiu o êxito do ano anterior. Ainda em 1945, depois de aprovado num teste da Continental, o sambista estreou como cantor, interpretando os dois lados de um 78 rpm: Mais um milagre e Bonde de Piedade (com Ari Monteiro). O disco não alcançou sucesso e ele preferiu lançar suas criações seguintes por meio de outros cantores.

Em 1949, Blecaute gravou Que samba bom, um dos maiores sucessos de venda da década. Em 1950, o próprio compositor gravou Pedro do pedregulho, lançando-se definitivamente como intérprete de suas composições a partir de 1951, quando Ciro Monteiro se encontrava impossibilitado de gravar, por doença nos pulmões. Gravou o samba Escurinha (com Arnaldo Passos) na Sinter. Ainda no mesmo ano, tornou a compor em parceria com Wilson Batista, saindo pela Continental o samba Cego de amor, na voz de Deo.

Em 1952 participou do filme O rei do samba, de Luís de Barros. Interpretado por ele, a Victor lançou, em 1953, Cabritada malsucedida (com Jorge Gebara). O ano de 1954 marcou seu último grande sucesso: Escurinho, gravado na Todamérica por Ciro Monteiro. Participou ainda do espetáculo Clarins em fá, na boato Esplanada, em São Paulo, fazendo muito sucesso com seu samba Pau peroba (com Buci Moreira e Albertina Rocha). Nesse ano, registrou na Columbia suas últimas produções: Maior desacerto (com Silva Júnior e Ari Garcia) e Eu vou partir, título que parecia prever o fim prematuro de sua vida atribulada.

Em maio de 1954, aos 37 anos, encerrava uma carreira de grande sambista, e em muitos pontos inovadora. Após sua morte, diversas composições suas foram regravadas. Nos anos de 1960, João Gilberto regravou Bolinha de papel. Em 1971, Paulinho da Viola regravou Você está sumindo. Em 1980 foi lançado o disco Wilson, Geraldo e Noel, no qual João Nogueira interpreta composições de Geraldo Pereira, Noel Rosa e Wilson Batista, com Escurinha e Você está sumindo.
Em 1981, a gravadora Eldorado lançou o LP Evocação V, inteiramente dedicado ao compositor, interpretado por Elton Medeiros, Monarco e Jackson do Pandeiro entre outros. Sua música Se você sair chorando foi regravada nesse disco por um coro de oito cantores. No Carnaval de 1982, o compositor foi homenageado no enredo Geraldo Pereira, eterna glória do samba (de João Ramos Pacheco), da Escola de Samba Unidos do Jacarezinho.

Em 1990, Chico Buarque regravou Sem compromisso (com Nelson Trigueiro). Em 1995 foi lançado o livro Um escurinho direitinho: A vida e a obra de Geraldo Pereira, de autoria de Luís Fernando Vieira, Luís Pimentel e Suetônio Valença (Relume-Dumará, Rio de Janeiro). Em 1996, Zizi Possi cantou Escurinha em seu show e, em 1997, Gal Costa regravou com grande sucesso o samba Falsa baiana, em seu CD Acústico MTV (BMG/RCA).

Renata Brant comenta: “Megh Stock ou Luxúria?”


Assisti ontem a entrevista da Megh Stock e Luciano Dragão, no programa Domínio MTV, apresentado pela Luisa. Para minha surpresa, a Luxúria não vai ser mais Luxúria. E era exatamente essa questão, que a VJ colocava para os entrevistados.

Segundo a Megh, a banda passou por um “amadurecimento”, que soa até um pouco clichê, por isso uso as aspas, e em conseqüência disso, as composições também mudam, mas a identidade é a mesma. A cantora, ainda afirma, que a formação continua igual, tanto que o Dragão, baixista da banda, estava presente no programa. Ele, inclusive, é o produtor do próximo disco do Luxúria. Ops! Agora, é Megh Stock.

Diante dessa novidade, que a Luxúria deixa de ser Luxúria, para virar Megh Stock, me pergunto: porque mudar o nome? Se a banda, a identidade e a sonoridade são as mesmas! É certo, que em um segundo disco, o amadurecimento surge, vide o disco “Bloco do Eu Sozinho”dos Los Hermanos. Não quero comparar Luxúria com os Hermanos, até porque são bandas com sonoridades extremamente opostas. Mas, o que quero observar é o fato da troca do nome Luxúria para Megh Stock.
Já pensou, que daqui pra frente, todas as bandas que amadureçam, troquem de nome? Daí Arctic Monkeys deveria ser chamar Alex Turner, Radiohead deveria ser Thom Yorke, ou ainda, OASIS deveria ser Gallagher Brothers.

Quanto ao segundo disco da Luxúria, confesso que ainda não digeri bem essa repentina mudança, estou ansiosa para ouvir! Aliás, uma banda que se chama Luxúria, com certeza, tem muito há dizer. Ops! Agora, é Megh Stock! Que pena, pois Luxúria era um tanto que provocativo.

Constituindo: Julio Medaglia.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Natal: ver com os olhos do coração, Leonardo Boff.

Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus - cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu:”Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato”. Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonadas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.



O dinamismo das cores em Joan Miró.

Em uma produção completa de vanguarda, o pintor espanhol Joan Miró conseguiu unir o sofisticado e o primitivo, a complexidade das formas e a simplicidade da natureza representada, em um conjunto artístico que teve sempre constante o contraste das cores, dos signos e das sensações. Mesmo que sua obra tenha passado por momentos e gêneros distintos, há nela uma conjunção orbital harmônica, uma sintonia de tonalidades, formas e temas circulares, que giram ad infinitum em torno da mesma problemática: a interação do ser com o cosmos, do homem com o mundo, através da expressão universal do pensamento e da criatividade: a arte.

Nascido em 1893, em Barcelona, seus primeiros desenhos guardados datam da primeira década do século XX, época em que ingressou na Escola Superior de Artes Industriais e Belas Artes de Barcelona, onde trilhou os primeiros passos de uma jornada de aproximadamente oitenta anos de dedicação à arte. Na década seguinte, estudou na Escola de Arte de Francesc Galí, através da qual interagiu de forma estreita com a arte de vanguarda produzida na época e, a partir desse contato, organizou as primeiras exposições com obras já marcadas pela inovação. Em 1920, esteve, pela primeira vez, em Paris, onde conheceu Pablo Picasso, André Masson, Pierre Matisse, André Breton, Tristan Tzara, entre tantos outros nomes da arte moderna, época em que pintou o célebre "Carnaval de Arlequim" (1924-1925).
O amadurecimento do artista, contudo, não se deu apenas com seu contato com artistas e novas técnicas, mas com as conseqüências da Guerra Civil Espanhola e, principalmente, da II Guerra Mundial. Assim, nas décadas de 1930 e 1940, intensificaram-se os traços e surgiram obras-primas como a série "Constelações". Prêmios acumularam-se na segunda metade do século XX e, em 1963, houve a exposição de sua obra completa no Museu Nacional de Arte Moderna de Paris, por ocasião de seus setenta anos. Entre as obras desse momento que se destacam estão "Azul II" (1961), "A lição de esqui" (1966) e "O ouro do azul" (1967), seguidas por "Maio de 1968" (1973) e "O jardim" (1977), entre inúmeras outras. Em 1975, foi fundada em Barcelona a Fundação Joan Miró, com a intenção de oportunizar ao público um espaço de referência à arte moderna e preservar a coleção do pintor catalão. Nela estão conservadas mais de 14.000 peças – uma verdadeira constelação de relíquias da modernidade. Em 1983, aos noventa anos, Miró faleceu na cidade natal, deixando o legado de uma paixão que o acompanhou por toda a vida.

Dentre as principais características de sua obra, estão o despojamento da linguagem pictórica, a ruptura completa com os valores da arte tradicional e a liberdade suprema de criação, elementos que bem explicam o rótulo a ele dado de gênio solitário da arte – Miró não pertenceu a movimentos, nutriu-se deles para produzir algo único, singular. Inicialmente, aproximou-se das técnicas fauvistas, passando, após chegar a Paris, a uma significativa influência de tendências dadaístas e surrealistas, momento em que começou a utilizar grafismos e valorizou ainda mais as cores primárias, pintando grandes universos em meio ao vazio, elementos que o acompanharam nas décadas posteriores. Do Dadaísmo, colheu a destruição das formas e a colagem; já do Surrealismo, buscou a incongruência dos traços e a mistura entre o real e o irreal, produzindo obras que causaram, ao mesmo tempo, espanto e surpresa. Mas Miró, ao nutrir-se das vanguardas européias, na primeira metade do século XX, foi além desses movimentos, criando técnicas próprias, que podem ser visualizadas como uma síntese entre a complexidade do mundo moderno e a candura da natureza. Ao final dos anos de 1950, começou a ser freqüente o extravasamento de cores nas telas, ora manchadas, escorridas, ora salpicadas, contrastando com o vazio. E, apesar da importância vital do preto, usado com abundância em seus trabalhos, a força suprema de toda a sua produção é a luz, em volta da qual sua arte gira astronomicamente.

Em 2005, Porto Alegre foi palco de uma exposição única: a abertura da temporada de Artes Visuais do Santander Cultural realizada com a Mostra Internacional Mirabolante Miró, pela qual o público pode confrontar-se com originais do artista espanhol que bem representaram seus signos, suas técnicas, suas cores preferidas, emanando força e simplicidade em combinações brilhantes. De acordo com um dos curadores dessa exposição, Fábio Magalhães, a força da poesia, que sempre o fascinou, adentra em sua plástica, e sua pintura é essencialmente lírica. (2005, p.27)

Como pesquisador da arte, Joan foi além da pintura, perpassando a gravura, o desenho, a escultura e a cerâmica e, em todos os percursos, agiu como poeta-artesão, experimentando minuciosamente o novo. Também produziu diversos livros ilustrados, a partir de textos de escritores como Jacques Prévert, Tristan Tzara, Jacques Dupin, René Char e, até mesmo, João Cabral de Melo Neto, para quem ilustrou a monografia sobre sua obra, publicada em Barcelona, em 1950. O preto e o branco, bases da sua produção, auxiliam na interpretação da dinâmica da natureza, contornando ou servindo de fundo a cores mais vivas, como o azul, o amarelo, o verde e o vermelho – as quais têm participação constante na arte de Miró. Cores que se aproximam da natureza primitiva, vinculada diretamente à vida camponesa, artesanal do interior da Catalunha, onde – mais especificamente em Mont-roig – a família tinha uma propriedade rural e Joan construiu seu principal ateliê. Ali o artista foi um verdadeiro jardineiro das cores, como ele mesmo definiu, buscando cultivar a liberdade de pensamento e de expressão: Trabalho como um jardineiro. [...] Mal começo a pintar uma paisagem, começo a amá-la com um amor que nasce de uma compreensão gradual. Lentamente, vou entendendo a imensa riqueza de nuances – uma oferenda concentrada, que é uma oferenda do Sol. (2005, p.26)

Miró criou um universo de símbolos que representaram não só uma época, mas o ser e o mundo em sua magnitude. Os ângulos pelos quais lançou seu olhar sobre a realidade provocam reflexões que ultrapassam o tempo histórico, perpetuando-se eternamente - característica que somente a grande arte possui: a de partir da experiência individual para projetar-se em dimensões planetárias, unindo assim tempos e espaços disformes. Através da descoberta, da criatividade e da ousadia, a técnica de Joan Miró pode ser percebida com um universo mágico, dotado dos mais variados elementos da natureza, construído pelas mãos e pela alma do criador.
por Cimara Valim de Melo

Jung diz:



"Assim, como o nosso corpo é um verdadeiro museu de órgãos, cada um com a sua longa evolução histórica, devemos esperar encontrar também na mente uma organização análoga. Nossa mente não poderia jamais ser um produto sem história, em situação oposta ao corpo em que existe. Por ‘história’ não estou querendo me referir àquela que a mente constrói através de referências conscientes ao passado, por meio da linguagem e de outras tradições culturais; refiro-me ao desenvolvimento biológico, pré-histórico e inconsciente da mente no homem primitivo, cuja psique estava muito próxima à dos animais.

Esta psique, infinitamente antiga, é a base da nossa mente, assim como a estrutura do nosso corpo se fundamenta no molde anatômico dos mamíferos em geral. O olho treinado do anatomista ou do biólogo encontra nos nossos corpos muitos traços deste molde original. O pesquisador experiente da mente humana também pode verificar as analogias existentes entre as imagens oníricas do homem moderno e as expressões da mente primitiva, as suas ‘imagens coletivas’ e os seus motivos mitológicos.

Assim como o biólogo necessita da anatomia comparada, também o psicólogo não pode prescindir da ‘anatomia comparada da psique’. Em outros termos, o psicólogo precisa, na prática, ter experiência suficiente não só de sonhos e outras expressões da atividade inconsciente mas também da mitologia no seu sentido mais amplo. Sem esta bagagem intelectual ninguém pode identificar as analogias mais importantes, não será possível, por exemplo, verificar a analogia entre um caso de neurose compulsiva e a clássica possessão demoníaca sem um conhecimento exato de ambos."

Equilibrando energias: Cabala.

A cabala é uma das mais antigas sabedorias espirituais existentes em nosso planeta. Este conhecimento ficou oculto durante milênios entre um reduzido número de sábios, mas agora começa a ser difundido para um número cada vez maior de pessoas. Recentemente, seu estudo vem se popularizando ao redor do mundo, atraindo inclusive diversas estrelas de Hollywood, tais como Madonna e Demi Moore.

O aprendizado profundo da cabala traz respostas para aquelas perguntas interiores que a maioria de nós já se fez ao menos uma vez na vida: Quem somos nós? De onde viemos? Quem é Deus? Por que morrer?

Segundo a cabala, o maior de nossos propósitos é o DESEJO. O desejo é nossa essência, aquilo que nos move e nos mantêm vivos. Existem desejos de todos os tipos: materiais, espirituais, de alegria, de solidão e muitos outros. Todos têm em comum a busca ininterrupta de PLENITUDE. A maioria das pessoas já teve um momento de plenitude (alguns chamam felicidade ou amor universal). Uma vez sentida não mais nos esquecemos dela. Diferentemente do prazer, que por maior que seja é temporário e muitas vezes vem seguido de frustração, a plenitude nos recarrega e nos move em direção à LUZ.

Sendo assim, o desejo de receber não representa nenhum problema ou empecílio para a felicidade. O problema reside no DESEJO DE RECEBER SÓ PARA SI. Imagine um equipamento de som. Ele recebe energia elétrica da tomada e gera som, que sai por suas caixas. O que irá acontecer se ele continuar a receber carga elétrica e não transformá-la em som? Certamente entrará em curto-circuito. O mesmo acontece conosco. Quando desejamos receber só para nós mesmos, mas não queremos compartilhar o que recebemos, entramos em curto-circuito e passamos a não receber mais nada.

A cabala nos ensina, então, que só existe um propósito para tudo que recebemos: COMPARTILHAR. É exatamente no equilíbrio destas duas energias primordiais, Desejo de Receber e Desejo de Compartilhar, que vamos encontrar a felicidade que tanto procuramos em nossas vidas.

Existem diversas ferramentas cabalísticas para encontrarmos o equilíbrio entre estas duas forças complementares: meditações, orações, estudo da árvore da vida, decodificação do Antigo Testamento.

Os cabalistas dizem que as 22 letras do alfabeto hebraico funcionam como um DNA da criação, e, combinadas da maneira apropriada, carregam um grande poder espiritual. Existem 72 seqüências especiais (72 nomes de Deus), para diferentes propósitos.


Mia Couto: “Sonha em casa”

Eu venho de muito longe e trago aquilo que eu acredito ser uma mensagem partilhada pelos meus colegas escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. A mensagem é a seguinte: Jorge Amado foi o escritor que maior influência teve na génese da literatura dos países africanos que falam português.

A nossa dívida literária com o Brasil começa há séculos atrás, quando Gregório de Mattos e Tomaz Gonzaga ajudaram a criar os primeiros núcleos literários em Angola e Moçambique. Mas esses níveis de influência foram restritos e não se podem comparar com as marcas profundas e duradouras deixadas pelo autor baiano.

Deve ser dito, (como uma confissão à margem) que Jorge Amado fez pela projecção da nação brasileira mais do que todas as instituições governamentais juntas. Não se trata de ajuízar o trabalho dessas instituições, mas apenas de reconhecer o imenso poder da literatura. Nesta sala, estão outros que igualmente engrandeceram o Brasil e criaram pontes com o resto do mundo. Falo, é claro, de Chico Buarque e Caetano Veloso. Para Chico e Caetano, vai a imensa gratidão dos nossos países que encontraram luz e inspiração na vossa música, na vossa poesia. Para Alberto Costa e Silva vai o nosso agradecimento pelo empenho sério no estudo da realidade histórica do nosso continente.

Nas décadas de 50, 60 e 70, os livros de Jorge cruzaram o Atlântico e causaram um impacto extraordinário no nosso imaginário colectivo. É preciso dizer que o escritor baiano não viajava sozinho: com ele chegavam Manuel Bandeira, Lins do Rego, Jorge de Lima, Erico Veríssimo, Raquel de Queiroz, Drummond de Andrade, João Cabral Melo e Neto e tantos, tantos outros. Em minha casa, meu pai - que era e é poeta - deu o nome de Jorge a um filho e de Amado a um outro. Apenas eu escapei dessa nomeação referencial. Recordo que, na minha família, a paixão brasileira se repartia entre Graciliano Ramos e Jorge Amado. Mas não havia disputa: Graciliano revelava o osso e a pedra da nação brasileira. Amado exaltava a carne e a festa desse mesmo Brasil.

Neste breve depoimento eu gostaria de viajar em redor da seguinte interrogação: porquê este absoluto fascínio por Jorge Amado, porquê esta adesão imediata e duradoura?

É sobre algumas dessas razões do amor por Amado que eu gostaria de falar aqui.

É evidente que a primeira razão é literária, e reside inteiramente na qualidade do texto de escritor baiano.

Eu tenho para mim que o maior inimigo do escritor pode ser a própria literatura. Pior que não escrever um livro, é escrevê-lo demasiadamente. Jorge Amado soube tratar a literatura na dose certa, e soube permanecer, para além do texto, um exímio contador de histórias e um notável criador de personagens. Recordo o espanto de Adélia Prado que, após a edição dos seus primeiros versos confessou "eu fiz um livro e, meu Deus, não perdi a poesia..." Também Jorge escreveu sem deixar nunca de ser um poeta do romance. Este era um dos segredos do seu fascínio: a sua artificiosa naturalidade, a sua elaborada espontaneidade.

Hoje, ao reler os seus livros, ressalta esse tom de conversa intíma, uma conversa à sombra de uma varanda que começa em Salvador da Baía e se estende para além do Atlântico. Nesse narrar fluído e espreguiçado, Jorge vai desfiando prosa e os seus personagens saltam da página para a nossa vida quotidiana.

O escritor Gabriel Mariano de Cabo Verde escreveu o seguinte:

“Para mim a descoberta de Amado foi um alumbramento porque eu lia os seus livros e estava a ver a minha terra. E quando encontrei o Quincas Berro d'Água eu estava a vê-lo na Ilha de São Vicente, na minha rua de Passá Sabe.”

Esta familiaridade exisitencial foi, certamente, um dos motivos do fascínio nos nossos países. Os seus personagens eram vizinhos não de um lugar, mas da nossa própria vida. Gente pobre, gente com os nossos nomes, gente com as nossas raças passseavam pelas páginas do autor brasileiro. Ali estavam os nossos malandros, ali estavam os terreiros onde falamos com os deuses, ali estava o cheiro da nossa comida, ali estava a sensualidade e o perfume das nossas mulheres. No fundo, Jorge Amado nos fazia regressar a nós mesmos.

Em Angola, o poeta Mario António e o cantor Ruy Mingas compuseram uma canção que dizia:

“Quando li Jubiabá me acreditei Antônio Balduíno. Meu Primo, que nunca o leu ficou Zeca Camarão.”

E era esse o sentimento: António Balduino já morava em Maputo e em Luanda antes de viver como personagem literário. O mesmo sucedia com Vadinho, com Guma, com Pedro Bala, com Tieta, com Dona Flor e Gabriela e com tantos os outros fantásticos personagens.

Jorge não escrevia livros, ele escrevia um país. E não era apenas um autor que nos chegava. Era um Brasil todo inteiro que regressava a África. Havia pois uma outra nação que era longínqua mas não nos era exterior. E nós precisávamos desse Brasil como quem carece de um sonho que nunca antes souberamos ter. Podia ser um Brasil tipificado e mistificado mas era um espaço mágico onde nos renasciamos criadores de histórias e produtores de felicidade.

Descobríamos essa nação num momento histórico em que nos faltava ser nação. O Brasil - tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da nossa religiosidade - nos entregava essa margem que nos faltava para sermos rio.

Falei de razões literárias e outras quase ontológicas que ajudam a explicar porque Jorge é tão Amado nos países africanos. Mas existem outros motivos, talvez mais circunstanciais.

Nós vivíamos sob um regime de ditadura colonial. As obras de Jorge Amado eram objecto de interdição. Livrarias foram fechadas e editores foram perseguidos por divulgarem essas obras. O encontro com o nosso irmão brasileiro surgia, pois, com épico sabor da afronta e da clandestinidade. A circunstância de partilharmos os mesmos subterrâneos da liberdade também contribuiu para a mística da escrita e do escritor. O angolano Luandino Vieira, que foi condenado a 14 anos de prisão no Campo de Concentração do Tarrafal, em 1964 fez passar para além das grades uma carta em que pedia o seguinte:

“Enviem o meu manuscrito ao Jorge Amado para ver se ele consegue publicar lá, no Brasil...”

Na realidade, os poetas nacionalistas moçambicanos e angolanos ergueram Amado como uma bandeira. Há um poema da nossa Noémia de Sousa que se chama Poema de João, escrito em 1949 e que começa assim:

“João era jovem como nós João tinha os olhos despertos, As mãos estendidas para a frente, A cabeça projectada para amanhã, João amava os livros que tinham alma e carne João amava a poesia de Jorge Amado.”

E há, ainda, uma outra razão que poderíamos chamar de linguistica. No outro lado do mundo, se revelava a possibilidade de um outro lado da nossa língua.

Na altura, nós carecíamos de um português sem Portugal, de um idioma que, sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria. Até se dar o encontro com o português brasileiro, nós falavamos uma língua que não nos falava. E ter uma língua assim, apenas por metade, é um outro modo de viver calado. Jorge Amado e os brasileiros nos devolviam a fala, num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso.

O poeta maior de Moçambique, José Craveirinha, disse o seguinte numa entrevista:

“Eu devia ter nascido no Brasil. Porque o Brasil teve uma influência tão grande que, em menino eu cheguei a jogar futebol com o Fausto, o Leonidas da Silva, o Pelé. Mas nós éramos obrigados a passar pelos autores clássicos de Portugal. Numa dada altura, porém, nós nos libertámos com ajuda dos brasileiros. E toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura Brasileira. Quando chegou o Jorge Amado, então, nós tínhamos chegado a nossa própria casa.”

Craveirinha falava dessa grande dádiva que é podermos sonhar em casa e fazer do sonho uma casa. Foi isso que Jorge Amado nos deu. E foi isso que fez Amado ser nosso, africano, e nos fez, a nós, sermos brasileiros. Por ter convertido o Brasil numa casa feita para sonhar, por ter convertido a sua vida em infinitas vidas, nós te agradecemos companheiro Jorge.

Em pedaços: Zizi Possi.

Capítulo 1

Zizi tinha 7 anos quando se apresentou em público pela primeira vez. Era a festa de fim de ano da escola no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo, e todos os pais estavam sentados na plateia, a fim de ver o que seus pequenos haviam aprendido nas aulas de educação artística. Ao piano, tocou Beethoven: “Pour Elise”. “As meninas todas ficavam nervosas, choravam, tinham piriri”, lembra. “Eu não tive problema nenhum. Me senti tão à vontade…”

No ano seguinte, lá estava Zizi de volta àquele palco, sentada ao mesmo piano. Desta vez, escolheu uma partitura mais complicada: “Galope do Diabo”, de G. Ludovic. Foi muito bem até mais da metade da execução, mas, lá pelo meio da segunda parte, errou uma nota. E seu mundo desabou em choro. Continuou tocando, mas não conseguia segurar as lágrimas que explodiam sobre o teclado. Quando terminou, foi aplaudida pelos pais dos colegas, que nem sequer tinham notado o erro. Saiu emburradíssima para a coxia e a primeira coisa que fez foi pedir para a professora, dona Gracinha, deixá-la voltar ao palco e tocar novamente o número. Ela tinha errado e nada lhe doía mais do que aquilo.

“Hoje em dia, se eu estiver insegura em relação a um arranjo, fico tensa. Mas, quando entro em cena, rezo para Deus me proteger de mim mesma, da minha vaidade. Tenho de esquecer de mim mesma, parar de pensar se minha roupa está boa ou ruim. Quando fico nervosa é porque estou presa a alguma coisa do ego. Peço sempre para Deus me ajudar a não ficar nesse lugar, porque é um lugar muito desconfortável, onde todas as paranoias passam pela cabeça; a voz não sai direito, tudo trava”.

Capítulo 2

Em meados dos anos 1970, José Possi Neto, irmão mais velho de Zizi e hoje consagrado diretor teatral, foi convidado a dar aula na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Aceitou e mudou-se imediatamente para Salvador. Como a relação dos dois sempre foi muito estreita, Zizi sentiu-se “meio manca” sem a presença constante dele. “Zé sempre foi pai, irmão mais velho, às vezes namorado’ não por nada sexual, mas pelo cuidado, carinho, atenção”, ela diz. Mas a separação dos dois não durou muito tempo. Zizi descobriu logo que a mesma universidade em que Zé Possi ensinava teatro tinha também uma das melhores escolas de música da América Latina. Nada mais conveniente. Prestou vestibular, passou e mudou-se de São Paulo, cidade natal, para a Bahia.

Nesse período, ela ainda acreditava que sua relação com a música se daria exclusivamente pelo piano. E talvez tivesse mesmo se tornado apenas uma instrumentista, não fosse o acaso. Como suas aulas terminavam cedo, Zizi ia para a escola de teatro esperar o irmão. Ficava lá com os atores, ensinando técnica de aquecimento vocal em um velho piano que havia no teatro. Foi se aproximando da turma e, quando se deu conta, já fazia parte do elenco. “Foi ali que minha voz começou a chamar a atenção das pessoas”, recorda. “A partir dos comentários dessas pessoas, minha afinidade com a música foi sendo levada para um lado que até então eu desconhecia: o do canto.”

Zizi costuma dizer que o piano foi seu maior professor de canto. Ela transferiu para seu aparelho vocal todas as noções de dinâmica e nuances de interpretação que usava no instrumento. Era, enfim, uma cantora. Ainda na Bahia, estreou seu primeiro show-solo, Taí. A boa repercussão rendeu um convite para gravar um programa inteiro na TV Aratu, uma emissora local. E a coisa ia bem quando, em 1977, José Possi ganhou uma bolsa de trabalho e se mudou para Nova York. Zizi lembra-se do dia em que foi levá-lo ao aeroporto: “Quando vi o avião sumindo no ar, entendi que minha vida estava por minha conta. Me deu uma solidão… E percebi que a Bahia já não fazia mais esse sentido todo para mim. Meu irmão já não estava mais lá e, profissionalmente, eu já tinha feito tudo que podia”. Vendo que não tinha mais para onde crescer, decidiu mudar de cidade. Próxima parada: Rio de Janeiro.

Capítulo 3

Mas por que o Rio de Janeiro? Zizi sabia que, se voltasse para São Paulo, teria, de novo, de morar com os pais. E, depois da vida livre que levara na Bahia, repressão era tudo que ela não queria naquele momento. Não conhecia nada do Rio de Janeiro. Chegando lá, foi morar em um apartamento com outras sete meninas, em esquema de vaga. Alugou lá seu colchão e ficou por cerca de seis meses. “Era interessantíssimo porque eu não tinha nada a perder; então era uma liberdade impressionante”, lembra. “Tinha de escolher se ia comer ou andar de ônibus. Então, comprava uma maçã e andava a pé.”

Sobrevivia, no começo, fazendo traduções do italiano para o português. Como ganhava por lauda traduzida, aumentava o número de palavras na versão em português para o cachê aumentar. Também fez backing vocal em shows do cantor Walter Queiroz – autor de “Filho da Bahia”, grande sucesso de Fafá de Belém dois anos antes.

Até o dia em que apareceu, debaixo da porta, um bilhete de Roberto Menescal, então produtor da gravadora Philips. “Olhei o bilhete e pensei: ‘Esse cara não é da bossa nova? Será que ele quer que eu também faça backing vocal para ele?”, conta. Como não tinha telefone em casa, foi ao orelhão da esquina. “Quando atenderam e a secretária disse ‘Philips, bom dia’, eu pensei: ‘Ué, o autor de ‘O Barquinho’ trabalha em uma loja de departamento?” Mas Menescal não estava precisando de uma backing vocal. Tinha visto o programa de Zizi na TV Aratu e queria contratá-la para gravar um disco. Ela só precisava ir à Barra da Tijuca, onde ficava a gravadora, para assinar o contrato. Um amigo emprestou o dinheiro do táxi.
Capítulo 4

Flor do Mal foi gravado em 1977 e lançado no comecinho do ano seguinte. “Cinco pessoas me disseram o que eu teria de gravar e eu só obedeci. Pediram um tango, eu cantei. Um rock, eu cantei. Mas, na real, o que tinha da Zizi ali? Apenas a função”, ela diz. “O disco não pintava o retrato da minha personalidade ‘até porque, àquela altura, nem eu mesma sabia o que era. Estava lá a serviço de cantar”.

Nenhuma das canções de Flor do Mal chegou a fazer grande sucesso. Ele só veio depois, e bem devagar. De Pedaço de Mim (1979), chamou atenção, além da faixa-título de Chico Buarque, a belíssima “Luz e Mistério”. Zizi Possi (1980) trazia “Meu Amigo, Meu Herói”, de Gilberto Gil, e versões em português para “Home Again”, de Carol King, e para “God Bless the Child”, de Billie Holiday e Arthur Herzog Jr. Um Minuto Além (1981) emplacou “Caminhos de Sol”, de Herman Torres e Salgado Maranhão, uma releitura menos roqueira de “Agora Só Falta Você”, de Rita Lee e Luiz Sergio Carlini, e “Engraçadinha”, de Tite Lemos e Sergio Saraceni.

O salto quantitativo começou em 1982, quando chegou às lojas o LP Asa Morena. Ali, Zizi começava a valer a pena ao bolso da gravadora. O trabalho seguinte, Pra Sempre e Mais um Dia (1983), deu prosseguimento à boa fase comercial da cantora. “Eu quis ser pop – muito”, assume. “Enquanto o mercado estava sendo abduzido por leis quantitativas, nós artistas estávamos respondendo a essas demandas acreditando que nosso valor artístico era numérico. Eu sabia que tinha uma direção: ou me tornava uma vendedora ou seria descartada pelo mercado. Então, quis sim ser uma grande vendedora. Quis sim ser popular. E fui. Até que, no final dos anos 1980, não aguentei mais esse pique. Nem era final de contrato, mas pedi pelo amor de Deus para sair.”

Capítulo 5

Ao mesmo tempo em que rompia com a gravadora, Zizi terminava também um casamento, inclusive profissional, com o compositor, produtor e guitarrista carioca Líber Gadelha – que rendera aos dois uma filha, Luiza. Não que a relação dos dois estivesse completamente deteriorada. “Eu sabia que estava me separando não por falta de amor, mas porque precisava de um espaço para mim, precisava de um par de ouvidos que me ouvissem com outra profundidade”, rememora. “Por um lado, tinha de sair daquele lugar. Por outro, estava deixando a pessoa que mais amava. Tinha me apaixonado por outro cara, mas sem a menor ilusão de me casar com ele. Sabia que isso era simplesmente uma carona pra sair da relação com Líber. E, no meio disso tudo, tinha uma filha pra criar. Achei que estava enlouquecendo. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.”

Zizi estava vivendo uma crise existencial profunda. Para piorar a situação, Líber descobriu, poucos meses depois, que estava com câncer. “Tem aquela história de que nada é tão poderoso a ponto de despertar o câncer numa pessoa. Mas dá uma culpa horrorosa. Entrei em parafuso”, conta.

A crise a levava a ficar acordada madrugadas adentro, fazendo passeios periódicos à geladeira. Abria latas de leite condensado, que tomava como se fosse Coca-cola, às vezes misturado com Ovomaltine. Engordou 17 quilos. Foi esse o passaporte, ela diz, para entender profundamente o que diz a música de Gonzaguinha “O que É, o que É”, e cantá-la da forma como canta. “O que é viver? A gente estava vivendo? Um diz uma coisa, outro diz outra. Mas como é isso? Fui fundo para entender que, seja lá o que signifique viver, os argumentos não interessam”, diz.

Foi quando decidiu voltar a São Paulo. Chegou à cidade com uma mão na frente e outra atrás, e a filha no colo. Foi quando surgiram três apresentações no Teatro Paiol, em Curitiba. “Eu chorava e ria, porque não tinha dinheiro pra pagar músico, mas tinha um novo começo”, diz. “Tinha uma Zizi se dando conta das perdas e do buraco, e outra entendendo que esse buraco era a subida pruma outra história”. Ali, foi reconstruindo a vida. Mesmo sem dinheiro para pagar os músicos antecipadamente, montou o show, que rendeu outros e outros. E um álbum – “talvez o mais importante de sua história: Sobre Todas as Coisas”.

Capítulo 6

A estética camerística de Sobre Todas as Coisas (1991), calcada em piano, violoncelo e percussão, regeu quase tudo que Zizi faria dali para a frente e vale até hoje. Ela não tinha mais o sucesso dos tempos de “Perigo”, mas ganhou prestígio. Gravou, na sequência, Valsa Brasileira (1993) e Mais Simples (1996), outros dois álbuns que davam prosseguimento ao conceito musicalmente sofisticado da nova Zizi.

Recontratada pela Philips (então rebatizada de Polygram), teve uma ideia um tanto ousada para o trabalho seguinte: produzir, acompanhada por uma grande orquestra, um disco de músicas italianas. O conceito seria o mesmo de uma ópera: uma história com começo, meio e fim, contada por meio das canções. “No meio da pesquisa do disco, pensei: “Estou louca! Isso não vai vender nada! São Paulo e Rio, até pode ser. Mas o que vão achar disso em Goiás? O que estou fazendo aqui? Tenho uma filha tem 12 anos que preciso terminar de criar!”.

Per Amore saiu no finalzinho de 1997, com direito a música na novela Por Amor, que Manoel Carlos escrevia para o horário nobre da Globo. Ninguém apostava muito no sucesso comercial do disco. Em crítica para a Folha de S.Paulo, Paulo Vieira terminou assim seu texto: “Na estapafúrdia hipótese de uma boa acolhida do disco pelas rádios, Zizi seria responsável pelo primeiro verão brasileiro em andamento de adágio”. A hipótese não era tão estapafúrdia assim. Zizi nunca vendeu tanto disco em toda sua vida.

Capítulo 7

Financeiramente, Zizi estava estabilizada. O sucesso comercial de Per Amore gerou outro álbum em italiano, Passione, logo no ano seguinte. E mais sucesso. Para não se aprisionar na personagem da cantora italiana, lançou na sequência Puro Prazer, em 1999, regravando, sobretudo, clássicos da música brasileira, acompanhada apenas de piano acústico.

Outra depressão invadiu sua vida depois do disco posterior, Bossa (2001). “Um dos meus irmãos estava quase morrendo. Quando ele finalmente saiu do coma e do risco de morte, eu relaxei e deprimi”, lembra a caçula de três irmãos. “Fiquei um tempão muito mal”. Para voltar à vida, precisou fazer um grande esforço. Foi ajudada pela música. Ela costuma dizer que o álbum Pra Inglês Ver… e Ouvir (2005) a curou. Trazia apenas canções em língua inglesa, como “Fly Me to the Moon”, “Moon River” e “Love for Sale”. “São músicas gostosas e aconchegantes. Eu não tinha muita energia em mim. Cantar músicas em português ou coisas intensas como ‘O que É, o que É’ estava fora de questão”, diz. “Os standards norte-americanos eram uma zona de conforto e de beleza. Fui melhorando, me relacionando melhor com os remédios, fui saindo dessa dependência química que é barra-pesada.”

Quase caiu de cama novamente quando Luiza, que já era uma mulher e construía sua própria história na música, resolveu sair de casa. “A síndrome do ninho vazio existe mesmo e é muito doido”, afirma. “É uma experiência de morte. E, recém-saída de uma depressão, vou te dizer que isso não foi muito confortável”. Ao mesmo tempo, Zizi viu na filha repetições de sua própria vida, relembrou a menina que se descobriu cantora na Bahia, a mulher que estourou nas rádios e viveu intensamente a vida no Rio de Janeiro, a cantora que passou por renascimentos inacreditáveis em São Paulo. E agora, finalmente, pode dizer, sem a doce ingenuidade que é concedida como um presente apenas aos jovens: “Eis aqui, eu toda!”.

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