domingo, 12 de dezembro de 2010

O nome do pai é Noel!



Nascido em Vila Isabel, o bairro que sempre amou, Noel Rosa mostrou pela primeira vez o poder de suas cordas vocais após um parto difícil. Para que a vida da criança fosse salva, os médicos usaram o fórceps para auxiliar o porto. No decorrer dos trabalhos, o queixo da criança acabou quebrando. E se tornou assim em uma das características físicas mais famosas daquele que viria a ser uns dos maiores sambistas do Brasil.

Introduzido a música por sua mãe, Marta de Medeiros Rosa, que lhe ensinou a tocar bandolim, Noel chamava a atenção de todos para si quando começava a tocar. Tempos depois, seu pai Manoel Rosa lhe ensinou violão. Noel que sempre foi muito boêmio adotou esse instrumento em suas apresentações, fosse para os alunos do colégio São Bento onde estudava ou nos bares.
O sambista conviveu com problemas de saúde desde a infância até o dia de sua morte. Repleta de preocupações, sua mãe não gostava que ele fosse a festas e voltasse tarde. Diz a lenda que ao perceber que Noel se aprontava para uma festa, Dona Marta escondeu todas as suas roupas. AO perceber que ficaria nu, ele indagou, “Com que roupa?”, que viria a ser o seu maior sucesso. Durante o carnaval de 1931 foram vendidos 15000 cópias com essa canção.

O sambista da Vila também compôs outras importantes canções. Algumas foram feitas para a dançarina Juraci Correia de Moraes, menina de 16 anos por quem se apaixonou e viveu um romance por alguns meses. Noel também escreveu sambas para Wilson Batista. Para este não foram versos de amor, muito pelo contrário. Em 1934, Noel e Wilson protagonizaram uma das brigas mais famosas da música popular brasileira. Wilson compôs o samba “Lenço no Pescoço”, e Noel escreve uma resposta, em forma de samba e lançou “Rapaz Folgado”. A partir de então foram sambas e sambas, de ambos os músicos, para se provocarem. A rixa só acabou quando Wilson resolveu escrever sobre os defeitos físicos de Noel, com a música “Frankstein da Vila”.

Sempre boêmio e freqüentador da Lapa, Noel acabou adoecendo em 1935, pegou tuberculose. Doença essa que o matou no dia 4 de maio de 1937, em sua casa, no bairro que sempre amou, Vila Isabel. Por volta das 22 horas, Noel pediu que Hélio, seu irmão, o virasse para o outro lado da cama, pois não se sentia bem. Minutos depois, Noel Rosa faleceu.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Hoje é dia de Cássia Eller.

Cássia Rejane Eller nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 1962. Foi criada entre músicos (familia da mâe). O pai, militar, foi responsável por constantes mudanças de endereço. Daí vem a mistura de culturas, ritmos, estilos que a cantora Cássia mantém em sua obra.

Aos 6 anos, Cássia mudou-se com a família para Belo Horizonte. Aos 10, mudava-se novamente, desta vez para Santarém, no Pará. Quando tinha 12 anos, estava de volta ao Rio. Com 18, outra mudança, foi morar em Brasília.

Aos 14 anos ganhou um violão de presente. Nessa época os Beatles eram uma das mais fortes influencias para Cássia.

Em Brasília fez de tudo para estar sempre nos palcos. Cantava em coral, fazia testes pra musicais, trabalhou em duas óperas como corista e, em 1981, participou de um espetáculo de Oswaldo Montenegro.

Cantou também em um grupo de forró e participou do primeiro trio-elétrico do planalto, o Massa Real, onde cantou durante dois anos. Então mais uma referência juntou-se às já adquiridas pela cantora: a música baiana. Inclusive a instrumental, que Cássia confessa não ter notado antes.

Escola nunca foi o forte de Cássia, que não terminou o segundo grau. Sua grande meta era poder cantar o tempo todo. Tentou até estudar canto para se tornar cantora de ópera. Mas a rigidez e disciplina que esse tipo de trabalho exige acabaram por afastar Cássia da música clássica.

Foi a partir de 1989 que Cássia começou seu trajeto pelo mundo do disco. Em São Paulo, ela gravou uma fita demo, apoiada pelo tio, que foi seu primeiro empresário. Ele que levou a fita para uma audição na gravadora Polygram. Nesta fita estava gravada a música que viria a ser o primeiro sucesso na voz de Cássia, a música "Por Enquanto", de Renato Russo.

Veio então o contrato com a gravadora e o primeiro disco, lançado em 1990. Depois disso, Cássia não parou mais. Foram seis discos gravados, vários sucessos e uma personalidade inconfundível, que mistura sua timidez latente à rebeldia quase adolescente.

Cássia não gostava de pensar em metas para o futuro. Não planejava novos trabalhos nem se preocupava com conceitos. Queria estar no palco o tempo todo e produzir muitas canções. Aos 36 anos, ela ainda era a mesma garota que tocava Beatles aos 14.

"Cantar é uma droga pesada."

Cássia, nós somos sempre muito mais do que os outros pensam da gente. O que mais você é além de roqueira e blueseira?

Cássia Eller - Eu não sei me definir. Nunca soube muito bem dizer quem eu sou. Só sei que sou alguém que gosta de escutar todo tipo de música. Gosto de música em geral. Gosto demais de blues e rock e também gosto de baladas. A música clássica também me comove. Na verdade, escuto de tudo. Meu repertório surge a partir do momento que estou vivendo.

Os críticos estão sempre definindo ou rotulando os artistas. Eles são isso ou aquilo e ponto final. Você pode ser isso e aquilo e ainda ser nada disso...

Eller - Eles já me definiram de tudo. Nem sei mais o que sou, na opinião deles. Eu acho engraçado eles me definirem, porque nem mesmo eu sei me definir. Eu, por exemplo, não me rotulo nem como roqueira ou blueseira ou isso ou aquilo. Eu acho que sou um pouco de cada coisa.

O seu registro sonoro e a sua maneira indiferente de estar no mundo lembram um pouco a Janis Joplin. Você pretende gravar mais alguma canção dela?

Eller - Eu gravei "Mercedes Benz" com o Victor Biglione. Foi um especial que a gente fez para a TV. Não tenho planos de cantar mais nada do repertório dela. Não sei. Mas, se rolar, quem sabe. Por enquanto a minha vontade mesmo é de gravar músicas de compositores de São Paulo. Eu curto pra caramba essa turma. Também quero fazer coisas com quem eu for conhecendo por aí.

Janis Joplin influenciou a sua maneira de interpretar?

Eller - Quando conheci a Janis, eu já cantava. Claro que já tinha ouvido falar dela. Lembro quando era criança de ter visto ela pela televisão. Minha mãe escutava, mas passava batido, nunca tinha me tocado. Depois que comecei a cantar foi que eu percebi que minha voz, não a voz, mas sim o jeito de cantar, era muito parecido. Essa semelhança se deve, eu acho, pelo fato da gente gostar de blues.

Janis não suportou as cobranças, o jeito careta da sociedade e se lançou no abismo...

Eller - Não foi só ela que não suportou. Muitos músicos e artistas não suportaram e ainda não suportam as cobranças babacas. Na época dela, as pessoas estavam começando a se libertar, a pensar por si mesmas, a pensar com a própria cabeça. Acho que isso continua até hoje, mas hoje a gente sofre menos. Mas as cobranças continuam. Tem que ser um bom ator nessa vida para ser feliz.

Você se espelha em alguma intérprete em especial?

Eller - Não. Sempre gostei de escutar a música como um todo. Eu nunca me encantei exatamente com as vozes das cantoras, exceto a Nina Simone. De vez em quando até imito ela. No mais, a Elis é a cantora brasileira que mais aprecio, mas não foi uma influência forte. No meu repertório não se vê nada que possa ser comparado com alguma cantora brasileira.
Fale um pouco de seu repertório.

Eller - É difícil de falar. Na verdade, eu tenho vontade de gravar mais músicas suaves, que não exijam muito da minha voz. Acho que a gente, nos primeiros trabalhos, tenta mostrar o tamanho da voz, quer berrar, fazer o mais baixo e o mais alto que for possível. Agora que já tenho um tempo de estrada, eu já não tenho tanta gana de mostrar. Estou a fim de fazer mais baladas, mais relax.

O seu repertório define um pouco o tempo em que vivemos. Pode-se dizer que a sua música fala a língua de uma geração?

Eller - Acho que sim. Mas não tenho certeza. Talvez fale sim, apesar de que as coisas precisam de um tempo longe para sabermos o que estava realmente perto da gente. A minha música fala do cotidiano da gente, das coisas de agora. Talvez a minha música coincida com a minha geração.
E você se identifica com a sua geração, com o seu tempo?

Eller - Não sei. Acho que esse negócio de geração é muito engraçado. Esse rótulo, essa expressão, é só pra gente se identificar, se situar. Nem sempre estamos no lugar certo, com a turma certa ou num tempo que tem a ver com nossas idéias. Não creio que todo mundo seja igual ou que determinada faixa etária pense igualzinho. Ninguém é igual a ninguém. Graças a Deus. Geração é só um momento que a gente vive.

Dizem que cantar espanta os espíritos...

Eller - Não sei explicar isso. Eu viajo muito quando estou cantando. Não acho que cantar seja espantar espíritos ou fantasmas. Cantar é conversar com os outros, afinar o papo com os outros. É uma viagem muito louca e muito distante. Perco-me em lugares que nunca antes imaginava estar.

Cantar então é viajar?

Eller - Parece uma droga pesada, um chá do Santo Daime. É muito louco. Eu não sei te dizer se é bom ou ruim, só sei que na hora de cantar não estou aqui, estou viajando pra algum lugar que não sei dizer aonde.

Você falou em droga. Na época de sua gravidez, você deu um tempo, um refresco...

Eller - Nessa época eu dei um tempo geral. Mas eu já enfiei muito meu pé na jaca por aí, já fiz muita besteira, muita loucura.
fonte: Folha de São Paulo, 01/12/2000.

Violência contra homossexuais, Drauzio Varella.

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?


Cássia faz falta, por Julinho Bittencourt.

Cássia Eller vivia machucada. Seus joelhos estavam sempre esfolados dos tombos que levava no palco. Jogava-se no chão com força e não estava nem aí. Seu filho Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, na época com dois anos, dispara: “mãe, você está machucado”. Ela instantaneamente responde: “já te disse, não é machucado, é machucada. Machucado é homem, machucada é mulher!” E o garoto: “mas mulher não namora mulher”, e ela prontamente: “claro que mulher namora mulher. Eu sou mulher e namoro a Eugênia”. E estava feito, sem nenhum drama, elaboração nem problema. Bastava a verdade. Qualquer coisa que pudesse desconcertar ou constranger a maioria das pessoas para ela era assim. Passava batido. Essa e uma série de outras constatações fazem parte do acervo de lembranças de duas boas amigas dos tempos de Brasília, que formavam uma espécie de ponte afetiva entre o show business e a vida dos normais.

Uma delas, a jornalista Deborah Dornellas, chegou a ser a sua primeira empresária, entre 1988 e 1989. Foi por meio dela que entrou em cena a também jornalista e professora Daniella Goulart, a Dani. As duas falam sobre a cantora em profusão. Uma completa a frase da outra e, como se houvessem combinado, tudo o que dizem está no presente. A Cássia gosta, a Cássia faz, não faz e por aí afora. Enquanto contam, não há julgamento ou melancolia. A única coisa que permeia tudo é uma energia afetiva muito forte, como se um vulcão tivesse se instalado na vida delas, definitivamente. E suas lavas ainda espirram em todos enquanto falam. E começam a contar a história pelo final da década de 80, quando Brasília era a capital do rock nacional. Bandas da cidade como Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso estavam no auge. Cássia ainda era pouco mais do que uma garotinha e se apresentava no bar Bom Demais, na Asa Norte, na quadra 706. O bar lotava sempre.

Segundo Deborah, ela foi para São Paulo só porque precisava fazer algo da vida. “Sempre tinha alguém buzinando no seu ouvido. Tinha um talento extraordinário. A reação das pessoas quando cantava em Brasília era de assombro. ‘Essa mulher é um talento, tem de fazer algo da vida’, diziam.”

Em 1988 gravou uma fita demo com quatro músicas: Ne me quitte pas, de Jaques Brel, Labirinto, do brasiliense Márcio Faraco, Aint got nothing but the blues, de Duke Ellington e Já seu pra saber, de Itamar Assumpção. Deborah foi pra São Paulo, no final daquele ano, com várias cópias da gravação em cassete. Levou ao Aeroanta, o lugar badalado da música underground em São Paulo, mas os promotores do espaço não quiseram, não era o espírito da casa. A peregrinação continuou no Crown Plaza e finalmente no Espaço Off, o único que topou. Tudo acertado. Mas dez dias antes do show, Cássia resolveu que não ia mais fazer. Não estava se sentindo segura e resolveu não cantar. Todos insistiram, inclusive Eugênia, mas não adiantou. Ela não cantou e não há ninguém que hoje tenha uma cópia dessa fita demo. “Cássia era obra do acaso. Ela não corria atrás da fama, não queria ser reconhecida nem como homossexual nem como nada. Só queria cantar. Amava a música e os amigos e o resto que se danasse”, dispara Deborah. E acrescenta: “no dia em que morreu, a Eugênia me falou que ela estava cansada, farta de tanta responsabilidade, deprimida. Não estava suportando o peso da fama, da grana, de nada.
Não agüentava o bando de gente atrás dela e ao mesmo tempo não tinha jeito de falar que não gostava. Ela fazia música com muita paixão, muita vontade, porque era a única coisa que sabia fazer na vida.” Nesse ponto Dani interrompe: “nada mesmo. Ela não guiava, não sabia comprar um presente. Uma vez eu fui com ela comprar algo pra Eugênia e ela pediu pra eu assinar o cartão e eu dizia que não podia, ela ficava impaciente. Era muito tímida, detestava quando aparecia gente que ela não conhecia, não sabia onde enfiava as mãos, ficava sem jeito”. Eugênia é quem fazia a parte chata: participava das reuniões de pais na escola, levava o Chicão no pediatra, pagava as contas, administrava a casa. As duas estavam juntas desde 1987. Era o pilar, se não fosse por ela a casa desmoronava. Lidava com a Cássia como uma criança, aceitava as coisas. A Cássia não tinha regras. O único cara que a conseguiu dirigir foi o Wally Salomão, que também era doido. O encontro ocorreu na turnê de Veneno Antimonotonia, de 1997. Com as pessoas mais sérias ela só falava o essencial e necessário e despachava logo. “A Cássia é uma das pessoas mais espontâneas que eu já vi”, conta Dani, “não tinha cinismo, nem disfarce, era aquilo mesmo.
Convivendo com ela e a Eugênia, me tornei uma pessoa muito mais tolerante. Era uma relação que fluía tão normalmente, tinha um clima muito legal que não era afetado por nada”. Deborah reitera: “elas moraram na minha casa. Foi a primeira vez que eu vi duas mulheres se beijando e aquilo não incomodava de forma alguma. Para mim foi uma entrada em outro mundo de uma forma muito especial, delicada”.

O baixista Otávio Fialho, pai do Chicão, foi o último homem com quem ela teve relações sexuais. Confidenciou isso a Deborah pouco antes de morrer: “houve outros. Certa vez se apaixonou perdidamente por um músico. O cara foi buscar a Cássia em casa pra ver um show. A Eugênia a arrumou e maquiou pra ela sair. Ela sempre soube de tudo e sempre soube também que nunca iria perder a Cássia, como não perdeu. Dani diz que “antigamente, pra escolher roupa, era um inferno. Ela trocava várias vezes e dizia, ‘ai, Eugênia, tá escrito “sapatão” na minha testa, eu não vou sair assim’. Não gostava que olhassem muito pra ela nas ruas, não queria carregar bandeira nenhuma. No fim acabou carregando sem querer. Sempre foi muito assumida, mas aquilo era natural dela. Era assim, e não havia nada que ela escondesse ou disfarçasse”, explica. Uma vez uma moça, saída do interior do Piauí, foi trabalhar na casa da Cássia como faxineira. A moça não tinha a menor idéia de quem era a cantora que, entre várias peculiaridades, gostava de andar nua pela casa. Então, quando percebeu que a moça ficava constrangida ela saia do banheiro e, propositalmente, levantava a toalha. A moça enrubescia e a Cássia morria de rir. Era uma criança. No palco, fazia coisas parecidas. Em alguns shows mostrava os seios, noutros não mostrava nada. Era tudo de improviso. Nem da voz ela cuidava. Bebia, fumava, cheirava e se comportava como adolescente. Mas tinha seus limites bem claros. Quando engravidou parou completamente de usar cocaína, de beber e de fumar. Ela amamentou Chicão durante três anos e, nesse período, parou completamente com tudo.
Grana
Todas as cantoras têm a carreira na mão. E ela em momento algum pensou nisso. Apaixonava- se por uma obra, gravava e acabou. Foi assim com o Cazuza, com Nando Reis e muitos outros. Ela ia tocar em Montreux no começo de 2002 e estava contente com a idéia de ir pra lá. Ao mesmo tempo sempre teve problemas com produtores. Eles a encastelavam, atendiam telefonemas que eram pra ela, a levavam pra comer separadamente e ela queria era ficar com a banda numa situação mais íntima e simples. Nunca gostou de escuro e nem de ficar sozinha. Adorava sua banda. Eram um bando de crianças querendo uma carreira internacional. Mas Cássia não queria saber de nada disso.

Dinheiro ela só ganhou com o Acústico MTV. Até então era tudo incerto. Em 1993, já com dois discos, foi morar no apartamento de Deborah e do casal Dani e Fábio, seu ex-marido, no Rio de Janeiro. Levou junto Eugênia e Alex, o roadie da banda. Ninguém tinha grana e todos comiam arroz, feijão, hambúrguer e, muitas vezes, mingau pra encher a barriga. Foi com o disco Cássia Eller, de 1994, que tem a música Malandragem, que as coisas começaram a andar financeiramente até se acertarem, em 2001, com a história da MTV. O Natal em Brasília No dia 22 de dezembro de 2001, ela desembarcou junto com Eugênia e Chicão, em Brasília. Ia passar uns dias na cidade, com a família. Havia combinado com todos para depois, por sua conta, irem para sua casa no Rio. Ela faria o show de réveillon na Barra da Tijuca. A companheira e o filho ficariam na capital federal.

Sua carreira finalmente decolava. Mas, segundo os depoimentos, naquele dia parecia muito séria. Quis saber da vida das amigas. Como andava o casamento, o namorado, o emprego e uma infinidade de coisas que não faziam parte das suas conversas. Ela gostava mesmo era do escracho. O seu disco acústico vendia aos cântaros e, para qualquer artista do mundo, isso seria motivo de sobra para comemorações. No entanto, ela dava sinais claros de chateação. Definitivamente não sabia lidar com aquilo. Era um bando de gente, amigos de última hora, jornalistas e toda a sorte de chatos na cola.

Sempre que estava em Brasília ficava na casa da Ana Florência, a Fofó, irmã de Eugênia. Para lá iam seus irmãos e amigos. E assim foi no dia 25, durante o almoço de Natal, quando jogou sinuca e futebol com o filho, conversou e pareceu, aos olhos das amigas, bem tranqüila. Foi a última vez que se viram.

No dia 28, de volta ao Rio de Janeiro, houve um ensaio para o show da Barra da Tijuca. Cássia estava calada, um dos músicos chamou sua atenção porque bebia cerveja e ela reagiu mal. O trabalho da tarde não rendeu e logo em seguida ela foi, sozinha, para casa. No começo da madrugada conversou, por telefone, com Eugênia. Estava se sentindo melhor e foi dormir. Tinha bebido um pouco. Acordou cedo, ligou pra Lan Lan, percussionista da sua banda que também morava em Laranjeiras, e disse não estar bem. As duas, junto com a Thamyma, outra percussionista do grupo, foram passear de carro e tomar água de coco na praia. Ela continuou mal e acabaram numa clínica. Entrou e em seguida saiu correndo.

A imprensa disse que estava desorientada. Segundo as amigas estava envergonhada, nervosa, com medo de chamar atenção e fugiu, da mesma forma como fugiu daquele show no Espaço Off, no final da década de 80. Foi hospitalizada por volta do meio-dia. Naquele mesmo dia sua mãe, Nancy Ribeiro, e irmãos desembarcavam no Rio para o réveillon. Era o aniversário da sua mãe. No final da tarde Cássia morreu.

Chicão é hoje filho de Eugênia

Cássia Eller se foi, mas não parou de fazer barulho. O processo que envolveu a guarda do filho Chicão mobilizou os pais. O avô pediu na justiça a guarda do menino. “Ele tem 16 filhos extraconjugais. Por que não pega um desses para criar?”, declarou Nancy Ribeiro, mãe de Cássia, que já estava separada há 17 anos, em entrevista para a revista Isto É Gente, na época do processo. Vários artistas assinaram manifestos a favor de Eugênia. Ela venceu a ação e criou jurisprudência no país. Com isso, Cássia, Eugênia e Chicão abriram uma pequena janela para que várias outras pessoas no Brasil possam enxergar a própria felicidade. Mas é preciso registrar, em todas as suas entrevistas, que Cássia não deixou uma linha com relação ao pai que não seja de carinho, afeto e gratidão.

A Mãe dos Contos, Henri Gougaud.

Onde, como e porque nasceram os contos? Houve uma mulher que o soube, no dealbar do mundo. Quem lho contou? A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?

A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?

Na grande floresta que existia no princípio do mundo, vivia um lenhador rude e a sua mulher triste. Viviam pobremente numa casa térrea, na clareira de uma floresta. Só tinham por vizinhos animais selvagens e, através da fresta que tinham no tecto, viam apenas passar ventos, chuvas e sóis. Mas não era a monotonia dos dias que entristecia a mulher deste lenhador, e que a fazia chorar, sozinha, na cozinha. Se assim fosse, ela ter-se-ia habituado: haveria anos melhores e anos piores.

Infelizmente, o marido tinha a alma tão bravia quanto emaranhadas eram a sua barba e a sua cabeleira. Era isso que perturbava a mulher. Ao toque, o homem era como um arbusto de espinhos. Quando beijava a companheira, fazia-o a resmungar e não sem antes lhe ter batido.
Todas as noites se repetia a mesma cena. Quando chegava da floresta, o lenhador empurrava a porta com o ombro. Com um grosso cajado de madeira na mão, arregaçava a manga direita, aproximava-se da mulher, que tremia a um canto, e espancava-a. Era a sua maneira de lhe dar as boas noites.

Mil dias, mil noites e mil sovas se passaram. A mulher aguentou, sem uma palavra de revolta, a pancada de que era alvo todas as noites. Até que chegou uma alvorada de Verão. Nessa manhã, à medida que via o marido afastar-se em direcção às grandes árvores, com o machado a tiracolo, a mulher pôs as mãos nas ancas e, pela primeira vez, desde o dia do seu casamento, sorriu. Sentia que uma nova vida despontava no seu ventre. “Uma criança!” pensou ela a tremer, maravilhada.

Mas a sua felicidade foi efémera, pois logo a assaltou um medo como nunca havia sentido. “Que desgraça! Quem a protegerá se o meu marido me continuar a bater? Pode atingir a criança. Ainda a mata antes de ela nascer. Como hei-de salvá-la? Salvo-a se não for mais espancada. Mas como posso evitar voltar a ser espancada, Senhor?” Reflectiu nisso durante todo o dia com tanta preocupação, tanta força e tanto amor pela vida do filho que iria nascer que, à noite, sentiu que uma luz despontava.

Observou o marido que, como era hábito, regressou dos bosques ao cair da noite. Quando este, a resmungar, levantou o braço nodoso e se preparava para lhe bater com o cajado, a mulher pediu-lhe:

— Espera, meu senhor! Hoje aprendi uma história. É muito bonita. Ouve-a primeiro e bater-me-ás depois.

Não sabia o que ia dizer, mas lembrou-se de um conto. Foi como se uma nascente cristalina e alegre tivesse começado a brotar. O homem ficou como que cativo diante dela, tão espantado e contente que até se esqueceu de lhe bater. A mulher falou durante toda a noite. E durante toda a noite ele a escutou, com os olhos arregalados de espanto, sem sequer se mexer. Quando o dia iluminou de novo a fresta da cabana, ela calou-se por fim. O marido viu a alvorada, suspirou, pegou no machado e foi trabalhar.

Quando a noite caiu, a mulher contou-lhe de novo uma história. Fê-lo durante nove meses, para proteger a vida que trazia no ventre. E quando a criança nasceu, o homem soube o que era o amor. E quando o amor nasceu, os contos daqueles nove meses invadiram a terra. Bendita seja esta mãe que os pôs no mundo. Sem ela, ainda hoje só os cajados falariam.



Jornal Apocalipse Now: Vaticano perdoa John Lennon e as mensagens 'satânicas' dos Beatles.



Em seu jornal L'Osservatore Romano, o Vaticano publicou um texto louvando o brilho e a importância dos Beatles para a música, de acordo com o jornal inglês The Guardian. Parece que os problemas com a postura de John Lennon ficaram para trás de vez.

Em sua primeira página, a publicação admitiu que a banda já declarou que 'eram maiores que Jesus Cristo e escreveu mensagens misteriosas e possivelmente satânicas'. Mas alivia logo em seguida: 'O que seria da música pop sem eles?'.

Em 2008, a Igreja já havia demonstrado uma inédita boa vontade com Lennon. Classificou as frases do músico como 'rebeldia de um jovem trabalhador inglês que cresceu na época de Elvis e do rock 'n' roll e que encontrou sucesso rápido e inesperado'. Ainda classificou o 'White Album' como uma 'antologia musical mágica' (magical musical anthology).

Hoje [Waly Salomão]

O que menos quero pro meu dia
polidez,
boas maneiras.

Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.

Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?

E os pingos d’águadão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.
Hoje...

Eugênia disse em 10 de dezembro de 2002:

"Hoje, 10 de dezembro de 2002, minha companheira Cássia Eller faria 40 anos. Essa data, que já foi comemorada com muita alegria, reveste-se de tristeza. A saudade bate forte no coração de todos aqueles que conheceram e privaram da companhia da pessoa maravilhosa de Cássia. A menina doce e tímida que nos encantava com sua bondade e alegria de viver.

Estávamos em Brasília, eu e o Francisco, quando recebemos, com perplexidade, a notícia de sua morte. Havíamos passado juntos o Natal de 2001, em companhia de minha família. Naquele momento, embora chocada e transtornada com o fato, precisei reunir todas as forças para me estruturar e dar algum conforto para meu filho. A presença amiga da família e dos amigos foi fundamental nesse momento.

Já nos primeiros dias após sua morte, alguns amigos queridos do Rio de Janeiro começaram a me alertar para a situação delicada do Francisco. Ele era menor, órfão e estava em situação irregular. Eu precisava, o quanto antes, tomar providências no sentido de requerer a guarda provisória. Contatei o advogado de Cássia, que começou a juntar os documentos que seriam necessários e iniciamos o processo de guarda.

Procurei conversar com o Francisco, dizendo apenas o necessário para que ele ficasse a par da nossa situação. Sentia que seria melhor que ele soubesse de tudo por mim, já que o assunto estava sendo amplamente divulgado pela mídia. Nesse momento, contei com a colaboração preciosa de Tânia Almeida, terapeuta do Francisco, que me ajudou a decidir a melhor maneira de abordar os assuntos delicados que tinha para tratar com ele.

Não sei definir com precisão tudo que senti naqueles dias. Muitas emoções me assaltavam: medo, angústia, tristeza e, ao mesmo tempo, um estado de alerta e a consciência de que precisava me preparar para enfrentar aquela situação da melhor maneira possível. Nada podia dar errado. Nosso futuro dependia das decisões que tomaria dali pra frente.

Procurei apoio na família da Cássia e desde sempre pude contar com a compreensão e o carinho de sua mãe e seus irmãos. Estávamos unidos no propósito de aliviar o sofrimento do Francisco e sabíamos que o melhor para ele era permanecer comigo. Por outro lado, evitei o contato com seu avô, que havia dado declarações desastrosas na imprensa, tornando inviável qualquer tipo de entendimento. Foi com muita indignação que soubemos, também pela imprensa, que ele pretendia requerer a guarda do Francisco. Nesse momento, precisei conversar com meu menino e explicar que haveria uma disputa judicial pela sua guarda e que, embora eu reconhecesse que o avô tinha o direito de reivindicar sua companhia, eu não concordava com a maneira desrespeitosa e mentirosa com que ele se referia à nossa família, à nossa casa e ao meu comportamento.

Os meses que se seguiram foram muito difíceis. Ao mesmo tempo em que tinha de lidar com a ansiedade que uma disputa judicial provoca, precisava conviver com minha tristeza, com a saudade que aumentava a cada dia e, principalmente, estar inteira para confortar o Francisco. É essencial, num momento como esse, adotar uma atitude positiva diante da vida, encontrar alegria dentro da tristeza, afastar a depressão e descobrir o que a situação, por pior que seja, pode nos trazer de bom.

Em momento algum imaginei a possibilidade de ficar sem meu menino. Procurava acreditar que a Justiça brasileira, assim como a sociedade, que abertamente me apoiou, saberia decidir pelo bem-estar daquela criança, reconhecendo o afeto que nos unia, a família que efetivamente formávamos.

Foram momentos difíceis, sem dúvida. Mas nos sentíamos confortados com a ajuda incondicional dos amigos, da opinião pública, de artistas e políticos que se mobilizaram num movimento de apoio a nossa causa. Senti muito orgulho de ser brasileira e de fazer parte de um povo que deixava de lado preconceitos, que respeitava as diferenças e que apostava no amor e no respeito.
Finalmente, em 31 de outubro deste ano, o juiz da 2a Vara de Órfãos do Rio de Janeiro concedeu-me a tutela definitiva do Francisco. Ele seguiu para a escola depois de um longo depoimento e telefonamos para lá assim que saiu a decisão. Sua professora fazia aniversário naquele dia e disse a ele que aquela notícia era o melhor presente que havia recebido. Comemoramos com alívio e alegria essa decisão. Seus amigos fizeram muita festa e alguns deles foram festejar conosco num restaurante na Urca.

Embora essa decisão da Justiça não tenha criado uma jurisprudência, pois se tratou de um acordo entre as partes, acredito que tenha aberto um precedente importante. Demonstra a tendência do direito de considerar e respeitar a nova família brasileira. Aponta um amadurecimento das leis que devem acompanhar as transformações da sociedade e espero que nossa experiência possa servir de ponto de partida para uma ampla discussão sobre os direitos de casais homossexuais.

Passado um ano da morte da minha linda menina, depois de tanta luta para manter íntegra nossa família, sinto que estou em paz. Espero, agora, educar nosso filho da melhor maneira possível, para que ele se torne um homem de bem, para que seja feliz e tenha uma vida digna. Conto com a família da Cássia. Durante todo esse ano estreitamos nossa relação e temos em comum um grande amor por essa criança e o desejo de vê-la feliz. Sempre que nos visitam, o Francisco se alegra ao ouvir histórias de sua mãe quando era criança e, aos poucos, vamos substituindo a saudade que dói por outra mais agradável e mais leve.

Sinto-me privilegiada de ter podido conviver com a figura iluminada de Cássia durante todos esses anos. Acho mesmo que ela não era muito desse mundo. Minha querida companheira que, ao partir, em sua infinita generosidade, me deixou um filho lindo e, para seu filho, uma mãe."

Maria Eugênia Vieira Martins

Pedro Alexandre Sanches escreveu em 29/12/2001:

Até hoje, ela era a maior voz feminina viva do Brasil. Desde o finalzinho de hoje _que ano é este de 2001, que não acaba nunca?, entrou para a galeria notável de vanguardistas que abandonam a luta cedo demais, por razões provavelmente imbecis.

O papo de "maior voz feminina" parece balela para homenagear, sob alto impacto, quem acabou de morrer.

Não é o caso, desta vez. Quem está ligado na cena sabe muito bem que não havia páreo para Cássia Eller.

Marisa Monte, a mais equipada para lhe fazer sombra (e que de fato fazia, se pensarmos em termos comerciais), no conjunto ficava léguas atrás de Cássia, por ser mais calculista, menos confessional, mais matemática, menos artista.

Bethânia, Gal, Elza e divas antigas assim não teriam como ter, para a longa década de 2000, um centésimo da importância que Cássia nem começara a ter.

Porque ela foi, no curto tempo que aqui passou, conjugação explosiva de uma voz trovejante; de um senso raro de interpretação; de um conhecimento musical tão gigante quanto intuitivo; de uma personalidade aparentemente tímida e retraída, mas eloquente demais no palco.

Mesmo só gozando de pleno reconhecimento comercial há pouco _por causa do "Acústico MTV", Cássia foi a dona dos rápidos anos 90, essa década tão desgraçada pelo achatamento que a grana e o imediatismo impuseram ao talento, à arte.

Não é por falta de simbolismo que Chico Science, outra das jovens esperanças musicais brasileiras, morreu nos hoje dolorosamente asquerosos anos 90.

Não há que questionar a trajetória de Cássia. Ela passou boa parte de sua história pública _iniciada em disco em 1990, após muita labuta por baixo dos panos da nossa indústria do disco_ se enclausurando nas canções de dois de seus ídolos, Renato Russo e Cazuza.

Se havia algo em Cássia que os procurava, mesmo morbidamente, não nos compete julgar.

A dor é porque ela era a ilusão de ser uma tábua de salvação, num país apodrecido por nomes que seria desrespeitoso citar aqui.

Se ela fechará um triângulo de dor com dois de seus ídolos mortos precocemente, já nem é mais de nossa conta. O fato é que Cássia teve muitos outros ídolos.
Desde 90, ela abrilhantou, mesmo quando se equivocava, canções velhas ou inéditas de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Luiz Melodia, João do Vale, Ataulfo Alves, Luis Capucho, Raul Seixas, Rita Lee & Mutantes, Lennon & McCartney, Jimi Hendrix, Nação Zumbi, Lobão, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tião Carvalho, Riachão, Nando Reis (nos últimos anos seu principal compositor, autor por exemplo das lindas "O Segundo Sol" e "Relicário"), Djavan (que há pouco gravou com ela a pungente "Milagreiro"), Bocato, Mário Manga, Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, RPM etc.

Sempre lhes acrescentava uma nova miragem, algum novo preceito, qualquer nova cor.

Não contente, ainda emulou e transbordou intérpretes como Otis Redding, Edith Piaf, Erasmo Carlos e Camarón de la Isla. Pelas listas acima, afora exceções, é nítido que gostava dos faiscantes, dos malditos, dos rebeldes, dos transgressores, dos inventores.

É que se identificava com eles, era um deles _é o que explica, entre tantas coisas, sua importância fundamental (e muitas vezes zombeteada) para a causa gay dos 90.

Sua jovem carreira de estrela já pendurava problemas, é verdade. Notada (com total justiça) como animal fogoso de palco, passou a ser instada a gravar cada vez mais discos ao vivo.

À revelia ou não, entrou no círculo vicioso da rentabilidade com sua gravadora, a voraz Universal, que vê aqui mais uma de suas apostas se desfazendo em tristes cinzas.

O investimento parece perdido também porque Cássia, no apetite de sua gravadora pela redundância, deixou menos variedade do que o troncudo potencial faria supor.

Só a mais famosa canção de seu repertório, "Malandragem" (de Cazuza e Frejat), ela gravou três vezes em seis anos. Era jovem demais para tamanha redundância, e essas coisas afinal também podem fazer mal à saúde.

"Malandragem" ficou massificada demais, mas há de ser por seus versos cândidos que Cássia Eller será para sempre lembrada. Talvez com esse mesmo hino ela dance no éter, com Dolores Duran, Elis Regina e Clara Nunes, a ciranda da juventude perdida. Não, Deus não é brasileiro.

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