domingo, 23 de maio de 2010

Femme Nue Devant sa Glace, Toulouse-Lautrec.



No Brasil, é praticamente impossível falar de Shakespeare sem falar de Bárbara Heliodora. Como surgiu o seu interesse e a sua paixão pelo escritor?

Bárbara Heliodora: Gosto muito de teatro e, em matéria de bom teatro, não há outro igual. Comecei a ler Shakespeare, me habituei e cada vez que leio gosto mais. O texto é de uma riqueza muito grande, sugerindo sempre a cena. Quando lemos, é possível ver aquela ação viva, os personagens são maravilhosos. De maneira que, quando me perguntam porque gosto de Shakespeare, sempre digo: “já leu?”. Para mim, basta ler para ver o quanto ele é maravilhoso.

Quando você ganhou a sua primeira obra de Shakespeare, aos 12 anos de idade, você mal compreendia a língua inglesa. Com o passar do tempo, você ficou fascinada com a beleza e a imaginação das obras dramáticas de escritor. Qual o segredo de Shakespeare?

Heliodora: Exatamente, havia aprendido um pouco de inglês no colégio, mas estava muito por fora, só mais tarde pude ler realmente. Sempre digo que o segredo de Shakespeare é que ele passou a vida tendo um grande caso de amor com a humanidade. Esta paixão pelo ser humano me admira. Quando ele cria um personagem “mal”, ele tenta compreendê-lo, o que é fantástico. Ele não justifica a maldade, mas cria um personagem que tem algum tipo de problema na personalidade. Não é piegas nunca, nem quando gosta, nem quando não gosta. A compaixão pelos sofrimentos, alegrias e amores do ser humano é que o fazem de tal modo fascinante.

Você diz que Shakespeare é considerado um autor popular. No entanto, criou-se em torno dele a reputação de ser difícil e inacessível. O que deu origem a essa compreensão errônea de Shakespeare?

Heliodora: Ele era um autor popular. Escrevia numa cidade de 300 mil habitantes, com um teatro de dois mil lugares. Todo o espectro social da Inglaterra assistia às peças dele. Acontece, em primeiro lugar, que tivemos uma tradição lamentável, que durou até relativamente poucas décadas. No sistema de ensino, o professor dizia: “eu entendo, mas você não pode entender, porque é muito difícil para você, meu aluno”. Foi criada esta barreira artificial. E, além disso, não havia montagens. As traduções eram pouquíssimas. Tudo isso resultou em um falso mito de dificuldade e distância quando, na realidade, ele sempre escreveu para os atores e para o público.

Uma vez te perguntaram, em uma entrevista, se você seria uma boa atriz e você respondeu que não. Por que?

Heliodora: Porque não tenho vontade de pisar ao palco e ser olhada por todo mundo. Sou uma espectadora nata. Nasci para olhar, e não para ser olhada pelos outros. Para mim, o grande prazer é ver o espetáculo. Nunca tive nenhuma vontade de ir para a cena. Para ser um bom ator, a pessoa tem que ter um imenso prazer em pisar no palco. E esta não é a minha praia.

No site que criou para você na Internet, sua filha diz ter sido educada por uma mãe fantástica, que a criou sob o signo da palavra generosidade. Como crítica de teatro, você se considera uma mulher generosa?

Heliodora: Acredito que sim. Quando gosto, sou até excessiva nos elogios. A generosidade tem que aparecer exatamente para estimular o que é bom. Lembro-me que, desde o início da minha carreira como critica, discutia muito com o Pascoal Carlos Magno. Ele dizia: “é preciso estimular estes moços”. E eu respondia: “Pascoal, não podemos elogiar o que é ruim, estaremos prejudicando. Eles vão reincidir no erro, pensando que está certo”. Se você elogiar tudo, você realmente não está colaborando para que a pessoa tome consciência de certos enganos e tente melhorar. A generosidade deve ter limites, mas quando gosto do espetáculo, me derramo em elogios.

Como e por que alguém se transforma em crítico? Para que serve a crítica?

Heliodora: A crítica é a última fase da criação artística. Sempre me lembro de uma coisa: a arte é artificial. Você só não pode criticar a natureza. A natureza “é”, não foi criada. Todo o resto, se foi criado, é passível de análise. É claro que, se a crítica for negativa, a pessoa pode ficar chateada. Mas os artistas, em todas as artes, esperam que sua obra seja apreciada e comentada. Não tenho dúvida de que eles querem. A crítica é: “isto aqui foi criado e teve este resultado”. É uma apreciação necessária que completa o ciclo criativo da obra.

Um recado de Jung.

Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos, como por exemplo, nosso entu­siasmo pedagógico. Talvez devêssemos dirigir esse en­tusiasmo pedagógico para nós mesmos. Talvez estejamos entendendo mal a necessidade pedagógica, porque ela nos recorda, de modo incômodo, que de qualquer ma­neira somos crianças e precisamos muitíssimo da edu­cação.

Em todo caso, essa dúvida me parece bastante adequada, se nossa pretensão for educar as crianças para que sejam "personalidades". A personalidade já existe em germe na criança, mas só se desenvolverá aos poucos por meio da vida e no decurso da vida. Sem determinação, inteireza e maturidade não há personalidade. Essas três qualidades características não podem ser algo próprio da criança, pois por meio delas a criança perderia sua infantilidade. A criança se tornaria uma imitação de adul­to, desnatural e precoce. Mas a educação moderna já pro­duziu tais monstros. Isso ocorre naqueles casos em que os pais colocam verdadeiro fanatismo no esforço de dar aos filhos "o melhor" de si próprios e de "Viver exclu­sivamente para eles".

Esse ideal, apregoado tão freqüen­temente, é empecilho enorme para o desenvolvimento dos pais, e faz com que os pais imponham aos filhos o que eles próprios consideram "o melhor" para si. Mas isso que chamam de melhor consiste na realidade em algo que os pais negligenciaram em grau extremo em si mesmos. Os filhos são estimulados para aquelas realiza­ções que os pais jamais conseguiram; a eles são impostas as ambições que os pais nunca realizaram. Tais métodos e ideais produzem monstruosidades na educação. Ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade. E não é a criança, mas sim o adulto quem pode atingir a personalidade como o fruto ama­durecido pelo esforço da vida orientada para esse fim. Atingir a personalidade não é tarefa insignificante, mas o melhor desenvolvimento possível da totalidade de um indivíduo determinado.


Jornal Apocalipse Now: “Bebê faz sinal de positivo em exame de ultrassonografia.”

A grávida Marie Boswell, de 35 anos, recebeu uma garantia de que o bebê que espera está em ótimo estado de saúde. E não foi nenhum médico que deu a notícia para a britânica. O próprio pimpolho, dentro da barriga da mãe, fez um sinal de positivo durante um exame de ultrassonografia no Hospital Wythenshawe, em Manchester, na Inglaterra.

Marie, que está no quinto mês de gestação, ficou espantada com a coincidência durante o exame:

- Nós amamos! A imagem é muito clara, o polegar está bem visível. Nem acredito!
Segundo a reportagem do jornal britânico The Daily Mirror, a ultrassonografia surpreendeu até os médicos do hospital. Gerry Jackson, que fez o exame na grávida, afirmou nunca ter visto nada igual.

- É muito raro ver o polegar de bebês de forma tão clara. É ótimo termos captado uma imagem tão clara na ultrassonografia desta paciente - disse o ultrassonografista.

A mamãe Marie, que já tem uma filha de 10 anos, também ficou impressionada com o tamanho das mãos do bebê.

- Ele parece que está usando luvas de boxe. Achamos que ele poderá ser um bom goleiro - diverte-se a britânica, que vai guardar a imagem incrível num livro para mostrar ao filho quando ele crescer.


Reconheça: Guilherme Arantes

Chorar em público nunca foi problema para Guilherme Arantes. "Fui crucificado nos anos 80 por ser doce, e ter raiz romântica. Rasgava o peito e me chamavam de brega. Mas o mundo precisa dos angustiados. A nova geração traz de volta a doçura perdida na cocaína dos anos 80. Eu ia ver os Titãs e só tinha homem de preto gritando 'ô, ô, ô, ô'. Pensava: 'Que é isso? Hitler venceu?'"

Caminhando pela rua Santa Efigênia, perto do Bar Brahma, em SP, onde estreou temporada de 11 shows na semana passada, ele defende a tese: o capitalismo absorveu os métodos do fascismo para vender cultura de massa. Está preocupado. "Como é que um nazista homofóbico [Dourado] vence o Big Brother [reality show da TV Globo]? Que sociedade é essa? As raízes de um holocausto permanecem latentes." Torceu pela vitória de Dicesar, mas acha que o grande vencedor dessa edição do programa global foi Serginho. "É o único que vai trilhar carreira de artista. É uma figura talentosa, amorosa, carinhosa, querida."

No palco do Brahma, na esquina da avenida Ipiranga com a avenida São João ("comia muita salsicha por aqui com a minha primeira namorada"), o mesmo que abriga velhos e até então esquecidos ícones como Cauby Peixoto e Demônios da Garôa, o cantor espera reencontrar, nos shows às quartas-feiras, os seus fãs mais antigos e fiéis. "Eu estava com o público errado. Fazia shows em casas grandes, como o antigo Palace [atual Citibank Hall], em que os ingressos custam pra cima de R$ 100. A grã-finada que tem esse dinheiro vai ver Coldplay, não o Guilherme Arantes." Na temporada atual, que vai até julho, os ingressos custam R$ 60.

"Outro dia, o [cantor de rap] Mano Brown me falou: 'Os pobres amam você, mano! Cê nunca foi engomadinho de Ipanema, do Leblon. Cê é o cara que não tinha medo de sentimento. A gente te ama'."

Há dez anos, foi convidado para ser executivo de gravadora. Não topou. "Tem gente que não serve pra ser do mundo corporativo. Eu sou um livre atirador." Montou seu próprio estúdio, o Coacho do Sapo, na Bahia. "Sempre que eu cantava 'Pedacinhos', o [senador] ACM chorava. Era a música preferida do filho dele [Luís Eduardo Magalhães, morto em 1998]. Ele deve chorar até hoje, não sei se lá em cima ou se lá embaixo". Guilherme vive em Salvador desde 2000.

"A Bahia tinha uma tradição de ser o lugar gerador de transgressão estética. Não só na música como no cinema, em outras áreas. Mas a transgressão baiana saiu do cérebro e foi pro sexo. O baiano aceitou um papel atribuído pelo sudeste. Topou ser o bobo da corte da playboyzada, que vai pra lá beijar na boca. Ficou rasteiro."

Wanessa Camargo devia fazer um disco country, opina. "Mas os filhos do agronegócio só querem cantar em inglês, esse é o problema. É uma molecada da burguesia, da qual fazem parte Sandy e Junior, Wanessa e todos esses filhos dos sertanejos. Os pais não têm problema nenhum de serem jecas porque vendem a jequice. Mas os filhos querem ser americanos."

Em seu estúdio, deve gravar um trabalho dos sumidos Antonio Carlos e Jocafi. A base instrumental do CD vai ficar por conta do cantor revelação Marcelo Jeneci e dos também novatos Curumin e Gustavo Ruiz. "Queria virar estrategista da música, um cara que faz a diferença, que propõe o novo nesse mercado em ruínas."

Os olhos ficam molhados pela primeira vez quando fala em Jeneci, que considera "meu primeiro sucessor". Estão compondo uma música em dupla. "A gente só teve uma primeira reunião, mas passamos mais tempo chorando do que qualquer coisa. Eu me vi com a idade dele, lembrei dos meus 20 anos. Foi muito forte."

Aos 56 anos, os fios na cabeça parecem ainda mais ralos para quem tem na memória a cabeleira que ele ostentava nos anos 80. "Usei o cabelo enquanto teve. Devia ter cortado no auge, marcaria um estilo. Eu era lindíssimo. Não só fiz músicas lindas, mas era um cara lindo."

Guilherme Arantes está no terceiro casamento. Tem cinco filhos. "Nunca assumi a persona do pegador. Era um cara chorão, emotivo." Namorou Elis Regina, para quem compôs o hit "Aprendendo a Jogar".

"Adoro essas confusões, são coisas que mexem com a tua vida. Minha paixão por Rita Lee também foi assim. Estive ali no começo dos anos 90, ela estava separada do Roberto [de Carvalho]. Mas logo me afastei, eles voltaram. Têm uma relação karmica, anterior a essa vida. Resolvi ser solidário a ambos e me afastei naturalmente."

Diz ter mais "orgulho" das mulheres que "me deram oportunidade, mas eu não peguei." Uma das últimas, ele diz, foi a inglesa Lisa Stansfield. "Saltei fora. Essas divas são um perigo, mexem com a nossa vaidade. É como ter uma Ferrari. Você se sente o super-homem, mas a manutenção é cara."

Compôs, com Nelson Motta, "Marina no Ar" para Marina Lima. "Quem pegou ela foi o Nelsinho, que também adora uma encrenca. Em 1979, na praia, ela deitou na canga e tirou a parte de cima do biquíni. Meu organismo de paulistano bobão deu resposta imediata. Pediu pra eu passar óleo de coco nas costas dela. Fiquei num estado... Mas não avancei. Tinha certeza que ia dar na trave."

"Lotus", seu último CD, vendeu pouco. "Hoje, sem jabá, até Ana Carolina venderia como eu." Mas, diz, cantoras como Vanessa da Mata e Adriana Calcanhoto gostam de suas canções. "Eu tô virando cult". Maria Bethânia pediu a Guilherme uma música inédita. Ele demorou, e "Eu em Você", a tal canção, ficou de fora do último disco dela. "Como Bethânia, de quase 70 anos, falaria de amor? Fiquei somando todos os amores da minha vida para tentar entender, e por isso demorei." Bethânia gravou a música depois, e ela pode entrar numa novela. "Se eu conseguir emplacar outro sucesso na voz dela, sou capaz até de chorar."

[Folha de S. Paulo, "Ilustrada" - Mônica Bergamo, 25/04/10]


... E Deus criou [Brigitte Bardot] a mulher.

Quando lançou um curso sobre a arte da sedução, a professora Regina Racco não imaginava o sucesso que seria. Após passar por Brasília, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, o curso é a prova de que não há idade para se amar. Suas salas de aula reúnem, harmoniosamente, desde jovens de 20 anos a senhoras de 70, um grande exemplo de que estamos todas em busca da mesma coisa: alguém para dividir o cobertor.

Regina vê na solteirice sintomas dos tempos modernos. "As conquistas femininas no mercado de trabalho nos afastaram de nossa sensualidade. Mas somos sensuais por natureza e nascemos para seduzir", acredita. No curso, Regina ensina o caminho de volta, mas nada de dicas para seduzir um homem. “O segredo é seduzir a si mesma. Resgatando a feminilidade, qualquer mulher é capaz de encantar o parceiro que quiser”, afirma. E, na hora do bote, a auto-estima é obrigatória. “Sedução é pura energia. Se você se sente capaz, torna as pessoas ao seu redor receptivas. As mulheres precisam entender que o que atrai não é a beleza, é o poder de atração. Esse poder está intimamente ligado a relação que você tem com sua energia sexual”, diferencia. Regina garante que as mulheres cientes de seu poder de sedução não precisam nem ao menos se preocupar em procurar. “O único trabalho será escolher”, brinca. Se você está cansada de escutar sobre a importância da auto-estima na hora da sedução, pare de pensar e sinta. “Vá para frente do espelho e se apaixone por si mesma. Você só terá o amor de alguém depois que se amar. Tenha consciência de que é única, uma expressão divina que não se repetiu no planeta. E, acima de tudo, respeite sua individualidade, pois ninguém tem que ser escrava da beleza ou da balança para ser feliz. Tudo está na forma como nos vemos, e cada uma de nós é responsável por estar vivendo sua capacidade enquanto mulher. Assim, os parceiros chegarão”, garante. Só não vale ficar trancafiada dentro de casa, esperando o príncipe encantado tocar a campainha. Ver e ser vista é fundamental.

À procura

Aceite o fato de que não se fazem mais príncipes encantados como antigamente. O jeito é ir para as ruas e partir para a paquera. Mas será que você tem procurado o homem certo no lugar errado? A dica é ir atrás do que se gosta. A personal sex trainer Fátima Moura aconselha: “Quem gosta de balada, deve procurar na balada. Mas se você é sossegada, e, por acaso, ficou com um rapaz que conheceu numa noitada, possivelmente terá problemas se o relacionamento prosseguir”.

E já que a primeira impressão é a que fica, na hora da aproximação, todo o cuidado é pouco. Do primeiro olhar à troca de palavras, cada minuto é precioso, e uma bola fora é suficiente para perder o candidato de vista. Ministrando um curso sobre paquera e conquista há doze anos, Fátima atenta para a importância do visual: “Na paquera, não tem jeito! Tem que se arrumar. Seja na festa, na praia ou num bar, deve-se cuidar da apresentação. As pessoas se atraem pelo que vêem, para então o conteúdo segurar a conversa. Busque ser feminina no modo de andar, falar e olhar. Assim você demonstra interesse, abrindo caminho para que ele a procure”. E é nesse momento em que as primeiras diferenças aparecem. Diferentes em tudo, a hora da paquera não foge à regra. “São universos completamente distintos. Enquanto a mulher seduz, o homem caça. Mas uma coisa é certa: quem escolhe, somos nós. E já que eles têm o instinto de caça, deixe pensarem que estão conquistando”, sugere.

Olhar 43

Quem nunca foi vítima de um olhar sedutor? Mais do que conferir a bagagem do sexo oposto, os olhos são um aliado e tanto na hora da conquista. “Tudo começa no olhar. Demonstrar nosso interesse pelo outro dura exatamente três segundos. Basta olhar nos olhos dele, contar lentamente até três, e desviar o olhar. Se for correspondida, olhe novamente, por mais três segundos, e volte a conversar com as amigas. Mas não pode ser qualquer olhar. Precisa ser carregado, intenso, mostrando que está interessada em conhecê-lo”, descreve a personal sex trainer.Se a troca de olhares se intensifica, é hora da ação. “Acenar levemente com a cabeça na direção dele, fazendo um discreto cumprimento com um pequeno sorriso – na verdade, um convite para se conhecerem. Pode ter certeza de que partirá dele a iniciativa da abordagem”, promete Fátima. A partir daí, fica por sua conta, mas a personal ainda dá uma última dica: “Seja você mesma. De nada adianta montar um personagem, correndo o risco que ele se apaixone por uma máscara que você poderá não sustentar futuramente”.

Mil e uma desculpas

Para as que vivem justificando a solidão com a famosa “antes só do que mal acompanhada”, a consultora em relacionamentos Rosana Braga alerta: “Estar só pode ser saudável, mas há muitas mulheres machucadas, com medo de se envolver. São as que vivem dizendo que desistiram de procurar porque o homem ideal não existe. É muito fácil generalizar. Mas, assim como nenhuma de nós gostaria de se sentir igual a todas as outras, devemos saber que os homens também não são. Amar é um risco, só que, antes de qualquer coisa, é necessário acreditar que encontrar um parceiro é possível”, ensina Rosana, autora do livro “10 passos para um grande amor”, editora Mercurya.

Se suas amigas vivem dizendo que você não está aberta às possibilidades, está na hora de mudar de conselheira. Rosana avisa: “Deve-se estar aberta sim, principalmente a si mesma. Aos seus anseios e desejos, às suas qualidades e limitações, àquilo que se é, sem tentar ser outra pessoa. Aberto a ceder, a se olhar e a olhar o outro. Quando abrirmos mão da idéia fixa de conseguir algo, poderemos usufruir daquilo que já conquistamos”.Em meio a tantos conselhos, pedimos para Rosana algumas dicas especiais para as leitoras do Bolsa, que merecem, como toda mulher, apaixonar-se e amar. “Que elas acolham sua natureza fundamentalmente feminina. Que sejam mulheres inteiras, sem acreditar que isso seja sinônimo de fragilidade. Que elas compreendam que a força não está em ser igual aos homens. Diria também para que parem de buscar certezas e fantasias, e se permitam viver mais a realidade. Vejo as mulheres se entregando a relações que só lhes fazem mal, criticando esses homens, mas se dizendo incapazes de terminar essa relação para se permitirem algo mais construtivo. Sobretudo, sugiro que antes de sair procurando por um amor, percebam o que realmente querem, porque quando a gente sabe o que quer, todo o universo se movimenta na mesma direção”. Use e abuse das dicas dessas profissionais, mas nunca deixe de lado sua receita secreta para a conquista. É ela quem faz de nós únicas.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Famigerado, Guimarães Rosa.



Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.


Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:

"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."

Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."

Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:

— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?


Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
— Famigerado?

— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..." Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
— Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"

— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...

— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"

— Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...

— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...

— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Caso do Vestido, Carlos Drummond de Andrade.

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?


Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.


Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...


Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.


Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casa
dapisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.


Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Eichmann em Jerusalém [trecho], Hannah Arendt .

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncio Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei.

Eichmann tinha uma vaga noção de que isso podia ser uma importante distinção, mas nem a defesa nem os juízes jamais insistiram com ele sobre isso. As moedas bem gastas das "ordens superiores" versus os "atos de Estado" circulavam livremente; haviam dominado toda a discussão desses assuntos durante os julgamentos de Nuremberg, pura e simplesmente por dar a ilusão de que algo absolutamente sem precedentes podia ser julgado de acordo com precedentes e seus padrões.

Eichmann, com seus dotes mentais bastante modestos, era certamente o último homem na sala de quem se podia esperar que viesse a desafiar essas idéias e agir por conta própria. Como além de cumprir aquilo que concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens — sempre o cuidado de estar "coberto" —, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" [kadavergehorsam), como ele próprio a chamou.

A primeira indicação de que Eichmann tinha uma vaga noção de que havia mais coisas envolvidas nessa história toda do que a questão do soldado que cumpre ordens claramente criminosas em natureza e intenção apareceu no interrogatório da polícia, quando ele declarou, de repente, com grande ênfase, que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant e particularmente segundo a definição kantiana do dever. Isso era aparentemente ultrajante, e também incompreensível, uma vez que a filosofia moral de Kant está intimamente ligada à faculdade de juízo do homem, o que elimina a obediência cega.

O oficial interrogador não forçou esse ponto, mas o juiz Raveh, fosse por curiosidade, fosse por indignação pelo fato de Eichmann ter a ousadia de invocar o nome de Kant em relação a seus crimes, resolveu interrogar o acusado. E para surpresa de todos, Eichmann deu uma definição quase correta do imperativo categórico: "O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais" (o que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los).

Depois de mais perguntas, acrescentou que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explicou que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, deixara de viver segundo os princípios kantianos, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais "senhor de seus próprios atos", de que era incapaz de "mudar qualquer coisa". O que não referiu à corte foi que "nesse período de crime legalizado pelo Estado", como ele mesmo disse, descartara a fórmula kantiana como algo não mais aplicável.

Ele distorcera seu teor para: aja como se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local — ou, na formulação de Hans Frank para o "imperativo categórico do Terceiro Reich", que Eichmann deve ter conhecido: "Aja de tal modo que o Führer, se souber de sua atitude, a aprove" (Die Technik des Staates, 1942, pp. 15-6). Kant, sem dúvida jamais pretendeu dizer nada desse tipo; ao contrário, para ele todo homem é um legislador no momento em que começa a agir: usando essa "razão prática" o homem encontra os princípios que poderiam e deveriam ser os princípios da lei.

Mas é verdade que a distorção inconsciente de Eichmann está de acordo com aquilo que ele próprio chamou de versão de Kant "para uso doméstico do homem comum". No uso doméstico, tudo o que resta do espírito de Kant é a exigência de que o homem faça mais que obedecer à lei, que vá além do.mero chamado da obediência e identifique sua própria vontade com o princípio que está por trás da lei — a fonte de onde brotou a lei.

Na filosofia de Kant, essa fonte é a razão prática; no uso doméstico que Eichmann faz dele, seria a vontade do Führer. Grande parte do minucioso empenho na execução da Solução Final — um empenho que geralmente atinge o observador como tipicamente alemão, ou característico do perfeito burocrata — pode ser atribuída à estranha noção, efetivamente muito comum na Alemanha, de que ser respeitador das leis significa não apenas obedecer às leis, mas agir como se fôssemos os legisladores da lei que obedecemos. Daí a convicção de que é preciso ir além do chamado do dever.

Seja qual for o papel de Kant na formação da mentalidade do "homem comum" da Alemanha, não existe a menor dúvida de que Eichmann efetivamente seguia os preceitos de Kant: uma lei era uma lei, não havia exceções. Em Jerusalém, ele admitiu apenas duas dessas exceções durante a época em que "80 milhões de alemães" tinham cada um o "seu judeu decente": ele havia ajudado um primo meio-judeu e um casal judeu em Viena por quem seu tio interviera.

Essa incoerência ainda o deixava um tanto incomodado, e quando foi interrogado a esse respeito, ficou abertamente apologético: ele havia "confessado seus pecados" a seus superiores. Essa atitude intransigente em relação ao desempenho de seus deveres assassinos condenou-o mais do que qualquer outra coisa aos olhos dos juizes, o que era compreensível, mas a seus próprios olhos era exatamente ela que o justificava, assim como antes silenciara a consciência que pudesse lhe restar. Sem exceções—essa era a prova de que ele havia agido sempre contra seus "pendores", fossem eles sentimentais ou inspirados por interesse, em prol do cumprimento do "dever".

Cumprir seu "dever" acabou fazendo com que entrasse em conflito aberto com as ordens de seus superiores. Durante o último ano da guerra, mais de dois anos depois da Conferência de Wannsee, ele experimentou sua última crise de consciência. Com a aproximação da derrota, ele se viu confrontado com homens de seu próprio escalão que lutavam mais e mais insistentemente por exceções e até pela cessação da Solução Final.

Foi o momento em que sua cautela se rompeu e ele começou, mais uma vez, a tomar iniciativas — por exemplo, ele organizou as marchas a pé dos judeus de Budapeste até a fronteira da Áustria depois que o bombardeio aliado arrasou com o sistema de transporte. Era o outono de 1944, e Eichmann sabia que Himmler havia ordenado o desmantelamento das instalações de extermínio em Auschwitz e que o jogo acabara. Por volta dessa época, Eichmann teve uma de suas raras entrevistas pessoais com Himmler, no curso da qual este último teria gritado para ele: "Se você até agora esteve ocupado liquidando judeus, de agora em diante, estou ordenando, vai cuidar muito bem dos judeus, vai ser enfermeira deles. Lembre-se que fui eu — e não o Gruppenführer MüUer ou você — que fundou o Rsha em 1933; sou eu que dou as ordens aqui!".

A única testemunha que poderia confirmar essas palavras era o suspeitíssimo sr. Kurt Becher; Eichmann negou que Himmler tivesse gritado com ele, mas não negou que essa entrevista aconteceu. Himmler não pode ter dito exatamente essas palavras, pois ele sabia que o rsha havia sido fundado em 1939 e não em 1933, e não só por ele, mas também por Heydrich, com seu endosso. Mesmo assim, algo desse tipo deve ter acontecido, porque Himmler estava nessa época dando ordens a torto e a direito para que tratasse bem os judeus — eles eram seu "investimento mais seguro" —, o que deve ter sido uma experiência chocante para Eichmann.

A última crise de consciência de Eichmann começou com suas missões na Hungria em março de 1944, quando o Exército Vermelho estava se movimentando nos montes Cárpatos em direção à fronteira húngara. A Hungria havia aderido à guerra do lado de Hitler em 1941, simplesmente a fim de receber mais alguns territórios dos países vizinhos — Eslováquia, Roménia e Iugoslávia.
O governo húngaro era abertamente anti-semita mesmo antes disso, e um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativa-mente, uma política de assassinato em massa. Pois política não é um jardim-de-infância; em política, obediência c apoio são a mesma coisa.

E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações — como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo—.consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca."

Poemas de Manuel Bandeira.

Debussy

Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Um novelozinho de linha . . .
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai . . .)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psio . . . —
Para cá, para lá . . .
Para cá e . . .
— O novelozinho caiu.


Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeirasmexericos namoros risadasA gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repentenos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riuFoi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.



O último poema
Assim eu quereria o mJustificareu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


A FÁBRICA DO POEMA , Waly Salomão.

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-me os dedos estarrecidos.


sinédoques, catácreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.

pois a questão chave é:...........
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão chave é:...........sob que máscara retornará?


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