quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Hitler em Viena [Voltaire Schilling]


Em 1907, um jovem provinciano recém-chegado a Viena, vindo de Linz, inscreveu-se para o concurso de admissão na Escola de Belas-Artes da Schillerplatz. Adolf Hitler, então com 18 anos, desembarcara na capital austríaca com vários rolos de desenho embaixo do braço e com uma enorme esperança de se ver no futuro um artista consagrado. O resultado foi-lhe um choque. "Com pouca inventiva" e "insuficiente experiência de desenho" disseram. No ano seguinte, em 1908, renovaram-lhe a frustração.

Começava ali o que ele, no Mein Kampf (Minha Luta), chamaria de "os cinco anos mais tristes da minha vida". Mas não foram tão infelizes assim. Viena antes da Guerra de 1914 era uma das cidades mais fascinantes da Europa. Na Ringstrasse, a avenida-anel que a envolvia, podia admirar-se as belíssimas construções, privadas ou públicas, tais como a Ópera, a Universidade, o Parlamento ou aRathaus, erguidas em estilos diversos, do barroco, ao neorenascentista. Os cafés de Viena eram envolventes redemoinhos de idéias e modas. Como pode-se ver na aquarela de Reinhold Volker do Griensteidl Café, sede da Jung Wien, que era freqüentada por escritores, artistas, estudantes, e um número diverso e impreciso de curiosos que vinham usufruir do convívio com aquela gente talentosa, disfarçando a presença lendo jornais.

Neles, não era difícil deparar-se com o poeta Hugo von Hofmannsthal, que compunha os libretos de Richard Strauss, com Stefan Zweig, ou com o teatrólogo Arthur Schnitzel, o favorito de Sigmund Freud, e mesmo, eventualmente, com o próprio dr. Freud. Além deles, mantendo a tradição de ser a cidade mais musical de toda a Europa, Viena orgulhava-se do grande Gustav Mahler, dos compositores vanguardistas Arnold Schöenberg e Alban Berg, e dos pintores Gustav Klimt e Oskar Kokoschka, voltados a enaltecer o sensorialismo e o psiquismo tão em moda naqueles tempos.

O esticismo dos vienenses era quase doentio (é de F. Wickhoff, o historiador da arte, o conceito de Kunstwissenschaft, o conhecimento pela arte). O culto à opera, às belas-letras e à música em geral era generalizado. Num conhecido ensaio, o psicanalista Bruno Bettelheim atribuiu aquilo tudo a uma espécie de fuga coletiva da decadência. Por detrás dos ouropéis da capital austríaca, sentia-se a inapelável decomposição do Império dos Habsburgo, abalado por toda a ordem de agravos. Desde a Revolução de 1848, e mais ainda depois da derrota perante a Prússia em 1866, ninguém mais duvidava do seu fim próximo.

Perambulando embevecido pela cidade, o jovem Hitler também percebeu que aquilo não iria durar muito. O império era "uma vaso rachado". Ao lado da bonomia e da tolerância da elite refinada, grassava entre as massas um profundo sentimento de ódio racial e étnico. Os austro-alemães, ainda que majoritários em cargos e postos, sentiam-se ameaçados, pois a progressão do avanço democrático reduzia-lhes o controle sobre as instituições políticas. As minorias nacionais, e suas dez línguas reconhecidas, que compunham aquela colcha de retalhos étnica que era o Império Austro-húngaro - para Hitler, um gigantesco mosaico incestuoso -, batiam os alemães em cinco por um. O futuro, segundo os racistas, era-lhes adverso. Seus líderes maiores, Karl Lueger, o prefeito social-cristão da cidade, e Georg Schönerer, o chefe dos pangermanistas anti-semitas, foram os inspiradores diretos de Hitler, a quem imitou inclusive na adoção do tratamento de Führer (líder), e o cumprimento "Heil" (salve!).

De tanto freqüentar o Burgteather (Hitler disse que assistiu "Tristão e Isolda" de Wagner mais de 30 vezes!) veio-lhe, depois, a idéia de levar a estética wagneriana à política, com a organização de atordoantes desfiles embandeirados, com fanfarras e címbalos ao fundo, à luz das tochas, que ele incorporou à liturgia nazista. A cruz suástica, ele tomou da revista racista Ostara, que era vendida na esquina da Felberstrasse, onde ele tinha um quarto alugado. Quando decidiu-se enfim ir para a Alemanha e tentar a vida em Munique, em 1912, Hitler carregava na algibeira de pintor pobre e de arquiteto imaginário o explosivo arsenal ideológico e cenográfico da sua revolução do rancor.